Ttulo: Gritos no silncio.
Autor: Margaret Hudson Koehler.
Ttulo original: Love's Sound in Silence.
Dados da Edio: Abril SA., So Paulo, 1984.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de pgina: rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Ttulo original: "Love's Sound in Silence"
Copyright: (c) by Margaret Hudson Koehler
Publicado originalmente em 1982 pela
Harlequin Books, Toronto, Canad
Traduo: T. Moreira
Copyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril S.A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi integralmente composta e impressa na Diviso Grfica da Editora Abril S.A.

CAPITULO I

No havia uma nuvem sequer para estragar a tarde clara e bonita. Midge admirava a paisagem encantadora da cidade de San Francisco, na Califrnia, com a ponte Golden
Gate  esquerda e a Oakland Bay  direita. Daquele ponto privilegiado, a ilha de Alcatraz no parecia muito distante do litoral, ainda que antigamente, quando Alcatraz
era uma clebre priso, poucos fugitivos houvessem conseguido sobreviver  travessia a nado at o continente, pois as correntes martimas eram extremamente perigosas.
Mais alm, as montanhas em tons castanhos e dourados faziam crer que se estava em pleno outono. Aquelas cores perfeitas enriqueciam os tons das guas que passavam
sob a famosa Golden Gate e contrastavam com o azul profundo do cu.
As montanhas, a gua, os edifcios de arquitetura fantstica, as ladeiras ngremes por onde nem carros passavam... Tudo ajudava a criar uma paisagem deslumbrante.
Midge suspirou, satisfeita. H muito tempo no se sentia to bem.
Ela sucumbira completamente aos encantos de San Francisco, incapaz de resistir quela beleza sem igual. Era uma cidade fascinante, com suas colnias estrangeiras,
maravilhosos restaurantes internacionais, lojas e butiques finas; canteiros de flores nas esquinas, a agitao de Grant Avenue, Fisherman's Wharf, The Cannery e
Ghiradelli Square, as belas mulheres, as cpulas douradas da Catedral Ortodoxa Russa em Geary Boulevard, e tantas outras coisas, pessoas e lugares encantadores...
As belezas cosmopolitas de Frisco - como a cidade era carinhosamente chamada pelos habitantes - melhoravam os nimos,
fazendo qualquer um sentir-se em frias permanentes. Midge no era uma
exceo, o que chegava a surpreender; afinal, chegara a San Francisco
com o corao partido e agora sentia-se renascer. Prisco tinha sido o remdio miraculoso de que Midge tanto precisava, e
ela pretendia aproveitar ao mximo as ltimas horas que passaria ali. Haveria muito tempo para planejar o futuro. Pensaria nisso no avio que a levaria de volta
a Nova York. Naquele momento era mais que suficiente estar sentada, com sua melhor amiga, junto a uma janela do bar, no topo de um edifcio alto, deliciando-se com
o panorama maravilhoso.
O garom lhes trouxera daiquiris gelados, mas Midge estava to entretida com o cenrio que ainda no experimentara o seu. Becky Vandervelt Ross, por outro lado,
j havia saboreado o dela e agora dizia, em tom acusador:
- Voc no ouviu uma palavra do que eu disse! Se gosta tanto daqui, por que no fica?
Midge olhou para Becky, a amiga loira e bonita com quem sempre podia contar, reparando como o casamento e a maternidade lhe haviam feito bem. E respondeu, com uma
certa tristeza:
- Eu gostaria de poder ficar, mas isso causaria tantos problemas...
- Voc no precisa morar com seu pai e com a sua madrasta, ora. Basta arrumar um emprego e alugar um apartamento. Acho que Tim pode ajud-la.
-  verdade. Mas acho que, se morasse aqui, papai e Lila iriam se sentir no mnimo um pouco responsveis por mim, e no quero isso. Eles merecem uma lua-de-mel mais
longa! - sorriu. - No, Becky, est na hora de voltar. Eles tm sido timos e  maravilhoso v-los juntos. Esto to apaixonados! No quero que nada estrague isso.
Papai est muito feliz. Minha me esteve doente tanto tempo, antes de morrer...
Becky suspirou.
- No sei o que  pior, se enfrentar uma morte repentina ou uma doena prolongada. Quando os nossos pais morreram, no acidente de avio, tnhamos dez anos. ramos
jovens demais para enfrentar aquela situao.
Por um momento Midge ficou confusa; havia se esquecido de que Becky tinha um irmo gmeo. E isso, percebia agora, era porque ela no o mencionara uma vez sequer,
embora esse fosse o segundo encontro das duas em San Francisco.
Alguns dias antes, no domingo, os Ross haviam oferecido um churrasco para Midge na encantadora casa em estilo espanhol que tinham em Menlo Park. Fora uma ocasio
muito agradvel: ela havia ficado encantada com os dois filhos de Becky - Timmy, de quatro anos, e Brenda, de dois. Fora tambm uma boa oportunidade de voltar a
ver Tim Ross, com quem havia trabalhado em Nova York, numa agncia de publicidade; na verdade, tinha sido Midge quem o apresentara a Becky.
E, agora, haviam se encontrado para fazer compras antes de irem at aquele bar. Na verdade, em nenhum dos encontros houvera qualquer motivo para que Becky mencionasse
o irmo, pois Brian sempre fora uma figura distante. Midge no sabia por qu, mas nunca se aproximara dele durante os anos em que ela e Becky frequentaram a escola.
Nem mais tarde, em Nova York, houvera qualquer tentativa de aproximao. Portanto, Brian lhe parecia algo irreal. Era mais uma fotografia do que uma pessoa, pensou
ela, lembrando de um retrato dele com a farda de aspirante da Marinha que havia no quarto de Becky. Ali Brian parecia perfeito, loiro, extremamente atraente; mas
com um ar de indiferena que denunciava uma certa frieza. J devia ter sado da Academia Naval, em Annapolis, e sem dvida alguma se casara e tinha filhos.
- s vezes acho que Brian aceitou melhor o fato de termos perdido nossos pais, sabe? Pelo menos foi o que me pareceu. Acho que foi muito difcil para ele tambm,
mas Brian no demonstrou tanto.
- Talvez ele sentisse que devia ser forte para ajudar voc, Becky.
- Acho que sim. Brian e eu somos gmeos fraternos, portanto no temos aquela ligao mstica que, dizem, os gmeos idnticos tm. Mas o nosso relacionamento sempre
foi muito especial, e por isso sofremos muito quando nos mandaram para colgios internos diferentes.
Os olhos brilhantes de Becky se tornaram sombrios e Midge observou:
- Oua, querida, no censure sua tia e seu tio por terem afastado vocs, mandando cada um para um colgio. Lembre-se de que j eram de meia-idade quando voc e Brian
foram morar com eles. Nunca tiveram filhos; deve ter sido muito difcil, para seus tios, se verem de repente com duas crianas para criar.
- Sim, acho que foi isso mesmo. Entretanto, acho que tia Maude teria conseguido dar conta da nossa educao. Mas tio Horace rio estava disposto a deixar que alguma
coisa ou alguma pessoa perturbasse a rotina dele - fez uma pausa. - Sabia que ele morreu?
- Sim. A televiso noticiou; todos os jornais tambm. Eu pretendia lhe escrever. Desculpe-me...
- No precisa se desculpar. Sabe, talvez no seja delicado de minha parte, mas no sinto tristeza alguma. No consigo imaginar como
tia Maude pode continuar vivendo
naquela casa antiga e horrvel - sorrindo melancolicamente, confessando: - Tenho sentimentos confusos en relao quele lugar. Quando criana, s vezes o amava,
s
vezes odiava. Brian e eu tivemos pocas maravilhosas l, durante as frias. Acho
que foi um milagre tio Horace no nos ter mandado para acampamentos de vero. Talvez
ele sentisse que precisvamos conviver um pouco com a famlia... Bem, mas o vero, as frias, quase compensavam o resto, a rotina do colgio, essas coisas. Havia
lugares maravilhosos ao redor do casaro, jardins e pomares de macieiras que iam at o rio Hudson. Costumvamos descer a colina atrs da casa at uma pequena praia,
para nadar. Uma vez tio Horace descobriu e pensei que fosse nos bater, to furioso ficou.
- Porqu?
- Ele achava que era prejudicial  sade nadar no rio, e talvez estivesse certo. Pelo que sei, somente agora o Hudson est sendo recuperado, e olhe que isso anda
dando muito trabalho. De qualquer maneira, ns nos divertamos. Apesar de tio Horace.
Midge sorriu.
- Bem, pelo menos alguma coisa boa resultou de tudo isso. Se voc no tivesse ido para o Pine Haven Jnior College, nunca teria me conhecido!
Becky concordou, animada.
-  verdade. E se voc no tivesse arranjado um emprego na Anderson-Brent Associates, eu nunca teria conhecido Tim.
- Talvez tenha sido obra do destino - caoou Midge.
- Eu acredito nisso. Lembre-se, voc est conversando comigo, uma pessoa criada no vale do rio Hudson e, por isso mesmo, cheia de supersties e lendas, como a histria
de Rip Van Winkle.
Becky era mesmo uma representante do vale do rio Hudson. Os Vandervelt, Midge sabia, datavam da poca em que os holandeses haviam se estabelecido ao longo do rio,
assim como os Roosevelt e tantas outras famlias importantes. Vira fotografias da manso Vandervelt, uma monstruosidade arquitetnica que, Becky afirmara, era pior
por dentro do
que por fora. Entretanto, Becky nunca falara muito sobre a famlia, e Midge havia aprendido mais sobre os Vandervelt quando lera no Times a histria de Horace Vandervelt.
O jornal havia pesquisado tudo sobre a famlia, por ocasio da morte do tio Horace, detalhando como haviam juntado a fortuna que possuam.
Como proprietrio e editor do Hudson River Valley Voice, um jornal semanal publicado em Coxsackie, cidade  margem do rio, a aproximadamente trinta quilmetros ao
sul de Albany, Horace Vandervelt fora uma espcie de autoridade local. Mas o Times deixara claro que a influncia dele ultrapassara os limites da cidade, espalhando-se
por Greene County, o vale do rio e at mesmo as Catskill Mountains, tornando-se uma fora considervel no estado. Midge no havia percebido como Horace Vandervelt
era poderoso e rico.
Agora lhe ocorria que Becky devia ter herdado pelo menos uma parte da fortuna. Nesse caso, seu estilo de vida devia continuar cheio de luxos.
Becky terminou o daiquiri e fez sinal para que o garom trouxesse mais. Em seguida forou um sorriso.
- Agora chega de falar nos Vandervelt. Estvamos conversando sobre voc. Tem certeza de que quer voltar para Nova York?
Midge estava olhando pela janela de novo e respondeu, pensativa:
- Querer no  o termo exato. O caso  que preciso voltar. Deixei muitas coisas em Nova York, inclusive um apartamento, Jennifer Lund, com quem moro,  fotgrafa
e est na Frana a servio de uma revista. Provavelmente no voltar at o Natal, e isso me dar bastante tempo para ficar sozinha e resolver as coisas...
- Ento est tudo realmente acabado? com John, quero dizer...
- Est tudo acabado. No h mais como reatar o romance.
- Sabe de uma coisa, Midge? Nunca achei que ele fosse a pessoa certa para voc. Para comear, era muito mais velho e...
- Apenas seis anos - corrigiu Midge. - Ele tem trinta e dois.
-  mesmo? Pensei que tivesse uns quarenta! Apesar de ns quatro termos nos divertido muito antes que eu e Tim nos casssemos, John sempre me pareceu to... bem,
to cansado da vida! Acho que voc concorda, no? E sempre tive a impresso de que a agncia era tudo para ele.
- Voc est certa, Becky. Agora  Anderson-Brent-Pemberton Associates. Eles esto em fase de expanso, montando escritrios maiores, e tenho que admitir que John
combina com a imagem de executivo que a Madison Avenue exige de quem trabalha nela.
O verdadeiro John se perdeu em algum lugar ao longo da trilha do suceso e no
consigo imagin-lo voltando  vida que levava antes. Mas demorei para perceber isso. ...  muito doloroso destruir um dolo.
- Tambm deve ter sido doloroso deixar o seu emprego, no, querida? Tim disse que voc  a melhor redatora de publicidade que conhece.
- Tim  suspeito para falar porque  meu amigo! - disse Midg . sorrindo. - Mas foi duro desistir do trabalho na agncia, Becky.
Em todo caso, era impossvel continuar
a ver John todos os dias.
- O que voc vai fazer agora?
- No sei. Quero pensar em tudo e tentar encontrar alguma sada. Talvez procure emprego em outra agncia, talvez tente outra coisa, no sei ainda.
- Ento... ento no momento voc est livre?
Havia algo na voz de Becky que fez Midge encar-la na hora. E ficou confusa ao ver nos olhos azuis da amiga uma expresso que nunca imaginou ver: medo.
Embora Becky tivesse tomado o segundo daiquiri, devorando a cereja que o enfeitava, como j havia feito com a primeira, Midge percebeu subitamente que toda aquela
exuberncia era superficial. Sob a aparncia calma havia algo escondido. Mesmo no domingo, em Menlo Park, Becky estivera demasiadamente agitada; havia tagarelado
demais, rindo demais. Agora Midge entendia que o comportamento da amiga na verdade escondia algum problema srio.
- Becky, querida... Oua, sempre confiamos uma na outra. E sei que alguma coisa a preocupa. O que ?
Por um segundo Becky fechou os olhos. Depois engoliu em seco e comeou:
- Brian. O problema  Brian. Foi por este motivo que a convidei para sair esta tarde. Queria que tivssemos uma chance de conversar a ss.
- Onde est Brian? Voltou a San Francisco? Becky engoliu em seco outra vez.
- No. Sabe, meu irmo no chegou a se formar em Annapolis Alguma coisa aconteceu. Temo que tenha sido algo terrvel. Eu daria qualquer coisa para descobrir o que
foi mas, como Timmy e Brenda ainda so pequenos e precisam muito de mim, no tive oportunidade de... de
10
investigar. - Os olhos dela eram suplicantes. - Oua,  muito difcil pedir mas... mas como voc est desocupada no momento, existe alguma chance de que possa me
ajudar?
Midge franziu a testa.
E o que eu poderia fazer?
Estava comovida com o sofrimento de Becky e, no entanto, determinada a no se envolver em algo para o qual no estivesse preparada. Era liberdade o que estava procurando
no momento, uma chance de explorar novos horizontes.
Lembrou-se da fotografia de Brian Vandervelt, da fria indiferena que demonstrava e compreendeu que ele no gostaria que algum investigasse sua vida. Ento disse,
escolhendo as palavras:
- Becky, o que a faz pensar que aconteceu algo terrvel a Brian? Onde ele est agora? E como eu poderia descobrir alguma coisa se nem mesmo o conheo pessoalmente?
Becky suspirou.
- Sei que  pedir muito, querida. Foi por isso que quis ter certeza de que voc iria voltar para Nova Vork e que havia abandonado a agncia hesitou um pouco. - Brian
est em Coxsackie. Voc pode ir at l?
- Ir a Coxsackie? Becky, como  que eu poderia fazer tal coisa? Oh, claro que ir at l  bastante simples, mas... o que eu faria assim que chegasse?
- Veria Brian. Sei que alguma coisa est errada. Quer dizer, sei que h alguma coisa errada com Brian, e tentei descobrir o que , acredite-me, mas meu irmo  uma
pessoa muito fechada. No est disposto a confiar em mim, sei disso, e o que quer que lhe tenha acontecido no transparece nas cartas que me escreve. Mas se voc
o encontrar, se conversar com ele, tenho certeza de que descobrir o que .
- No tenha tanta certeza assim, querida. Se Brian  reservado como diz, vai ser difcil saber o que se passa. O que voc acha que aconteceu?
- No tenho ideia. Isso  que  horrvel. Fico imaginando, imaginando, e no consigo pensar em nada verossmil. Todo esse tempo.
- Que tempo? Becky suspirou.
 melhor contar tudo desde o incio.
timo. Assim, quem sabe, eu possa entender alguma coisa.
11

Becky enrubesceu levemente, mas falou com determinao:
- No posso culp-la por achar que estou sendo ridcula. Mas, acredite-me, no estou. Essa histria j tem mais de quatro anos, e eu j a teria esquecido se Brian
no fosse to misterioso. Ele cursava o ltimo ano da Academia Naval quando eu esperava Timmy. Estvamos em San Francisco a apenas seis meses; Tim havia sido
transferido para a Castillo-Jones Assoetes um pouco antes do dia de Ao de Graas, lembra-se? Estvamos mudando para a casa em que moramos atualmente. Eu
andava muito ocupada. Brian estava de licena naquela ocasio, e foi quando... quando o
acidente aconteceu. Mas ele no foi para casa; quer dizer, para a casa de
tio Horace. No nos procurou. E, pelo que sei, o acidente foi o seguinte:
meu irmo saiu com uma garota. No h nada de extraordinrio nisso, mas
acontece que
ele estava noivo. Na verdade ia se casar em junho, e esta garota no era a noiva dele. Parece que foram a uma reunio na praia em Chesapeake Bay, onde a famlia
dela tinha um chal. No sei de todos os detalhes, apenas que havia um aquecedor no lugar e que este aquecedor explodiu. A moa morreu.
- O que aconteceu a Brian?
- No sei! Esta  a parte estranha da histria. No consegui descobrer se aconteceu algo srio a ele. S o que sei  que no se formou.
- Voc quer dizer... que foi expulso da Academia Naval?
- No. Ele renunciou  vaga. Depois, por um certo tempo, perdemos o contato. Tentei falar com ele vrias vezes, por telefone, mas nunca consegui. Timmy havia nascido
h pouco e eu no podia ir at Annapolis. Tive que confiar nas informaes de tio Horace e tia Maude.
- Bem, e o que eles disseram?
- Tio Horace era quem mandava as notcias. E escreveu que Brian havia sofrido uma experincia ruim, mas que estava bem. Depois de un certo tempo o prprio Brian
me escreveu... Mas, por algum motivo, as cartas dele eram muito vazias.
- Voc tem certeza de que foi ele quem as escreveu? Becky confirmou.
- Sim. Reconheci o estilo e a letra. Tenho certeza que foi ele quem escreveu as cartas. s vezes ainda as recebo, sabe? E costumamos telefonar um para o outro.com
alguma frequncia. Mas no temos muito que dizer, apenas trivialidades. J o convidei para vir nos visitar umas mil vezes; ele promete que vir mas nunca faz isso.
E jamais sugeriu que
12
fossemos para Coxsackie, embora pudssemos passar uns dias l, agora as crianas esto mais crescidas para aguentar uma viagem dessa. E...
no sei... Brian  meu irmo gmeo, mas consegue criar uma muralha  sua volta quando quer e  isso que est fazendo agora. Sei que me sentiria uma intrusa se fosse
v-lo sem esperar convite.
- Voc disse que ele est em Coxsackie, no foi?
- Sim. Alguns meses aps o acidente Brian foi trabalhar para tio
Horace, no Valley Voice. Eu nem podia acreditar!
- Por qu?
- Brian no gostava de tio Horace, Midge. No consigo imagin-los
trabalhando juntos. Alm disso, embora ele sempre tenha escrito muito bem e tenha feito algumas reportagens quando estava na escola, no creio que tivesse qualquer
interesse pelo jornalismo.
- Bem, esse interesse talvez tenha surgido no dia-a-dia do jornal. Oua, acho que vocs foram se afastando muito desde que saram do colgio - hesitou um pouco e
em seguida perguntou: - Becky, o que  que a preocupa de verdade? Acha que Brian se feriu na exploso eque no quer que voc saiba?
- Esta foi a primeira coisa que pensei. Tive certeza de que ele no havia ficado cego ou mutilado. Mas no ficou.
- Como  que sabe?
- Eu tenho uma assinatura do Voice. Tio Horace morreu h quase dois anos mas, por causa de Brenda, no pude sair de San Francisco. Logo depois Brian passou a editor
do jornal.
- Voc quer dizer que ele herdou a empresa?
- No exatamente. O testamento de tio Horace  muito complicado... depois eu lhe explico isso. O que quero dizer  que, quando Brian assumiu o cargo, vi as fotos
da posse no jornal e meu irmo me pareceu bem, como sempre. Ainda outro dia vi uma fotografia de corpo inteiro dele, entregando um trofeu num jantar festivo. Acredite-me,
examinei cada centmetro e fisicamente nada havia de errado com ele. Ento imaginei se o problema poderia ser psicolgico, emocional. Mas, se fosse assim, ele dificilmente
estaria dirigindo um jornal, no ?
- Acho que tem razo.
- No entanto, sei que existe alguma coisa; tem que haver. Brian simplesmente no tem sido o mesmo nestes ltimos quatro anos - ela suspirou. - Confesso que no tenho
coragem de ir a Coxsackie e
13
enfrent-lo. Fico dizendo a mim mesma que Tim e as crianas precisam da minha presena aqui e, embora isso seja verdade, no fundo
tenho medo de ver meu irmo. No entanto,
esta preocupao est acabando comigo, Midge.
- Becky, acho que voc est imaginando coisas. Na certa Brian teve uma crise de depresso quando a garota morreu; deve ter sido um choque horrvel Mas o tempo cura
tudo. Hoje em dia o acidente deve ser uma lembrana tragj ca, nada mais, apesar de naquela ocasio ter feito com que ele desistisse da car reira naval. Brian pode
ter-se adaptado perfeitamente a uma vida nova.
- Talvez. Mas nunca ficarei em paz enquanto no souber da verdade. Se voc pudesse ir at Coxsackie em algum fim de semana e ver por si mesma, eu lhe ficaria eternamente
grata.
- O que a faz pensar que ele concordaria em me ver?
- Voc poderia visitar tia Maude, que  uma pessoa gentil, apesar de no ter-me falado nada sobre Brian. Tenho certeza de que ela arrumaria um encontro entre vocs
dois e, quaisquer que sejam os defeitos de Brian, sei que ele no seria rude com uma amiga minha.
- No sei, no sei... S a ideia de enfrentar tia Maude me provoca arrepios. Enfrentar Brian, ento...
Midge evitou o olhar da amiga. Havia tanta splica na expresso de Becky que seria impossvel resistir, dizer no. Resolveu ganhar tempo, estender mais o assunto;
assim no teria que dar uma resposta imediata e direta.
- Vamos voltar atrs um pouquinho. Voc disse que ia me contar sobre o testamento de seu tio.
- Sim, tem razo. Bem... o testamento no  somente complicado,  diablico!
- Em que sentido?
- Em todos os sentidos. Seria preciso um advogado para explicar detalhadamente. Eu no o entendo direito, e at mesmo Tim sacode a cabea diante dele. Para comear,
a casa ficou para tia Maude. Isto , foi deixada para o uso dela, que pelo resto da vida receber uma renda mensal do jornal. Tenho certeza que isso  mais que suficiente.
Quando ela morrer, essa renda e a propriedade, que envolve tambm uma boa extenso de terras, revertero para o patrimnio da empresa.
- Em outras palavras; sua tia no pode deixar nada para ningum. No  dona de nada. S usufrui.
14
justamente. Mesmo morto tio Horace continua a domin-la.
Suspeito que haja uma clusula que diz que, se ela se casar novamente,
perder a casa e a renda. No que tia Maude esteja disposta a isso; depois de ter casado com tio Horace, no consigo imagin-la pensando em tentar com outro homem!
- quanto ao resto do patrimnio?
- H o Valley Voice, naturalmente. Era o negcio favorito de tio
Horace. Um jornal como aquele pode ser surpreendentemente poderoso, e meu tio adorava o poder. Existem muitos outros negcios alm do jornal, outras propriedades
alm da velha manso da famlia e das terras ao redor dela. Tio Horace era um homem extremamente rico; eu no tinha ideia de quanto at que tudo foi enumerado.
Voc ainda no me disse quem realmente se beneficia com tudo
isso.
- Ningum, at agora.
- Est querendo dizer que o testamento no foi executado?
- Oh, sim, foi. O dr. Andrew Summers, advogado dos Vandervelt, nos manda relatrios regulares. Mas ainda estamos no que ele chama de perodo experimental. Tem efeito
por dois anos a partir do dia em que tio Horace morreu; portanto est quase terminando. Na verdade terminar dentro de pouco mais de um ms: a diviso final do patrimnio
dever ocorrer no dia primeiro de novembro.
- Quem est em experincia? Voc?
- No. Brian. Eu lhe contei, lembra-se que ele assumiu o posto de editor do Voice logo aps a morte de
tio Horace. Bem, este  o ponto crucial de tudo. Segundo
o dr. Sumfners, os termos do testamento exigiam que Brian dirigisse o jornalcom sucesso durante dois anos. Em outras palavras, obter lucro.
- E tem obtido?
- Pelos ltimos relatrios ele est se saindo muito bem. O dr. Summers diz que a publicidade e a circulao aumentaram depois que Brian assumiu, o que  considerado
um sucesso para um jornal. No parece haver muita dvida de que meu irmo passar no teste, a no ser que ocorra alguma coisa no prximo ms.
- O que acontecer se ele passar no teste?
Herdar o jornal e uma srie de outros negcios e propriedades. E, quando tia Maude morrer, a casa e as terras sero dele. O patrimnio dos
15
Vandervelt ser dividido entre mim e Brian, com alguns bens para empregados como Clara e tom Jennings. Clara  a governanta Vandervelt h muito tempo, e tom, marido
dela,  motorista e jardineiro.
- Ento o fato de voc herdar ou no alguma coisa depende de como Brian se sair neste "perodo experimental", certo?
- Errado. Meu prmio, se quiser chamar assim, continua o mesmo Brian passando ou no no teste. Se ele falhar, entretanto, ser
deserdado e o jornal ficar nas mos
dos chefes de departamento, que so quatro: o gerente de negcios, o diretor de publicidade, o diretor de circulao e superintendente mecnico. Eles tambm dividiro
metade do patrimnio que seria de Brian, e a casa e os mveis sero liquidados quando Maude morrer.
- Quer dizer que seu irmo poder ser deserdado?
- Sim. Diga se  ou no  diablico!
- Oh, querida...
O garom se aproximou e Becky perguntou:
- Voc acha que conseguiramos tomar outro daiquiri?
- Eu no, obrigada.
- Muito bem. Ento - disse, virando-se para o garom -, traga a conta.
Quando ele se afastou, ela continuou:
- Midge, agora voc entende por que estou to ansiosa para descobrbrir algo a respeito de Brian? H este testamento louco e o compromisso que ele foi obrigado a
assumir,
h o fato de eu ter certeza de haver algo errado com meu irmo desde o acidente... Estou quase ficando maluca, sabe? E agora que se aproxima o dia primeiro de novembro,
a situao est atingindo um clmax insuportvel. Brian vai precisar de toda a sua energia para atravessar este ms; e eu gostaria de ter erteza de que ele  capaz
de enfrentar tudo isso. Voc pode imaginar que tentao seria para aqueles outros homens... sabot-lo, quando os prmios so to altos?
O medo havia voltado aos olhos de Becky, e Midge estremeceu a notar isso. A amiga era imaginativa, impulsiva, mas, neste caso,
era preciso admitir que havia motivos para preocupao.
Incapaz de se reprimir, Midge estendeu a mo e segurou as de Becky, a ? palavras saindo involuntariamente de sua boca:
- Becky, no sei que bem isto far, se  que far algum bem... mas irei a Coxsackie. Por voc.
16

CAPITULO II

A manso dos Vandervelt ficava entre as cidades de Athens e Coxsackie,  margem do rio. Midge havia visto algumas fotos e por isso sabia que era uma construo antiga
e de ar fnebre, com suas torres altas, sua cor acinzentada e seus enfeites cor de ferrugem. Uma construo que combinava com aquele dia frio e sem sol.
O cu estava nublado quando ela deixou Nova York, e a chuva comeou antes que atravessasse a ponte Tappan Zee. Os relmpagos cortavam o espao sobre as montanhas
Catskill e trovejava sem cessar.
Midge parou para tomar um caf em Catskill, examinou novamente o mapa que Becky fizera e em seguida recolocou-o na bolsa. Dali em diante seria impossvel se perder.
J estava quase terminando o caf quando um garoto entrou no pequeno restaurante carregando um pacote de jornais.
Midge perguntou, curiosa:
- Esse a  o Hudson Valley Voice?
- , sim. E acabou de sair. As notcias esto fresquinhas... Midge sorriu ao ouvi-lo falar daquele jeito e disse:
- Quero um.
Pediu uma segunda xcara de caf e em seguida comeou a ler o Voice, devorando-o da primeira  ltima pgina, inclusive a de classificados. Sabia que mais cedo ou
mais tarde teria que procurar emprego e j havia adquirido o hbito de examinar os anncios. Entretanto, nunca podia imaginar o que a esperava no Voice.
Na coluna "Precisa-se", em letras grandes e negras, havia um anncio que parecia feito sob medida para ela: "Precisa-se de redatora de
17
publicidade com muita experincia. Procurar Trent Clayton, diretor , Publicidade, Hudson River Valley Voice.
O que foi que Becky dissera mesmo em San Francisco? Algo de acreditar no destino. Embora se considerasse uma pessoa
essencialmente prtica, materialista at, Midge
sentiu, naquele momento, que devia levar mais a srio as palavras da amiga. Provavelmente os habitantes do
vale do rio Hudson no eram mais supersticiosos que os de outras
regies ,coincidncias, ainda que aparentemente inexplicveis, podiam
acontecer em qualquer lugar. Entretanto, no ficaria surpresa se visse o lendrio
R. Van Winkle,
figura histrica do lugar, aparecer, com a longa barba branca e tudo.
Dobrou o jornal, colocou-o no bolso da capa de chuva e foi para o carro. Uma vez atrs do volante, com o limpador de
pra-brisa funcionando, parou durante um momento
para dizer a si mesma que aquela era uma misso absolutamente idiota e que, se tivesse um pouco
de bom senso, voltaria imediatamente para Manhattan.
Entretanto, Becky no era o tipo de amiga que pedia favores levianos sem razo de ser. E, se pedira por socorro, era por precisar de ajuda
e Midge sabia muito bem
que no deixaria de atender quele pedido desesperado, especialmente agora que j chegara quele ponto.
Alm disso havia uma possibilidade de emprego no jornal de Briat Vandervelt, o que era ao mesmo tempo surpreendente e irnico. A amizade com Becky atuaria a seu
favor se resolvesse se candidatar ao cargo? No que tivesse alguma inteno sria de fazer isso, mas... Enfim Midge lembrou a si mesma, aquela era uma misso exploradora,
nada mais do que isso. Devia complet-la o mais depressa possvel, dar as notcias a Becky e continuar a viver sua prpria vida.
Midge seguiu pela estrada de Catskill at o desvio de Athens, dirigiu atravs dos campos por uma distncia relativamente pequena e em
segundos pegou o caminho que margeava o rio, como Becky indicara.
Eram apenas poucos quilmetros de Catskill a Athens. A partir da a estrada se estreitava, no topo das colinas, descendo em curvas at
as margens do Hudson.
 zona rural era uma miscelnia arquitetnica. Midge passou por residncias antigas entremeadas por uma variedade de casas modernas
de
18
diferentes estilos; em sua opinio, as casas antigas combinavam mais com aquela regio do que as novas.
De vez em quando olhava o rio, naquele dia cor de bronze, a superfcie salpicada pela chuva que caa. Ouvira dizer que o Hudson lembrava o rio Reno e, embora s
conhecesse a Alemanha por fotos e postais, achou que era verdade.
Pensou que devia ter perguntado a Becky a distncia exata entre a manso dos Vandervelt e a cidade de Athens. E, enquanto pensava, viu a velha construo aparecendo
 sua frente, exatamente da maneira como a amiga a descrevera. E sorriu.
O trnsito era tranquilo naquela estrada; pelo menos no momento. No havia um s veculo  sua frente. Nem atrs. Assim, ela pde reduzir a velocidade enquanto se
aproximava da manso.
Era mesmo uma , monstruosidade; Midge tinha que concordar com Becky neste ponto. No entanto, havia uma certa fascinao naquela casa, uma grandeza que poderia se
tornar magnificncia se a pintura no estivesse descascada e substituda por uma cor branca, se os ornamentos cor de ferrugem fossem verde-escuro, ou azuis, ou talvez
pretos, algum tom que lhes desse maior destaque. ,
A casa no era de todo m, A parte- principal, quadrada, tinha trs andares, com alas de mesma proporo de cada lado. A parte central mostrava uma grande torre
rodeada por janelas semicirculares o com telhado terminando num pico.
O panorama visto da torre devia ser sensacional, pensou Midge. Gostaria que Becky tivesse tido coragem de vir, pois seria divertido visitar a velha casa com ela.
Na verdade, havia alguma coisa fascinante naquela construo. Mais ainda: havia algo de assustador.
Midge dirigia lentamente enquanto pensava que no ficara remoendo velhas lembranas, quando tirara o carro da garagem naquele dia e resolvera
fazer aquela viagem.
Na noite anterior fora jantar com alguns amigos que tambem conheciam John Pemberton, seu ex-noivo, e aquilo havia sido um
erro, pois o nome dele surgira vrias vezes na conversa e ela tivera a impresso de que qualquer coisa que dissesse seria transmitida a ele.
No que houvesse alguma coisa a dizer. Como havia contado Becky, estava tudo acabado. Depois de seis anos era dona de si mesma novamente, e bem mais madura
por causa da experincia. No ficara Profundamente envolvida durante todos esses anos, claro; o romance
19
evolura lentamente. John era um executivo, uma figura charmosa para quem, como ela, ainda no era ningum na agncia.
Ele havia se divorciado recentemente naquela poca e tinha medo de se casar de novo. Por um longo tempo isso no preocupara Midge. Na verdade, ela s pensava na carreira e no estava muito disposta a ter uma vida a dois.
Sabia agora que o rompimento era inevitvel, pois nenhum dos dois queria assumir compromissos que exigissem casamento. Contudo, o fim daquele romance doera; no fora fcil nem para John nem para ela.
Ainda havia lembranas, ainda havia sofrimento. Por isso Midge ficara bastante deprimida depois do jantar da noite anterior. Precisava de alguma coisa que a fizesse sair daquele estado e a misso para Coxsackie lhe parecera a soluo ideal. Depois de uma noite quase insone, em que s conseguira dormir de madrugada, havia tomado uma deciso. Quando se levantara para tomar o caf da manh j era quase meio-dia; muito tarde para partir, talvez, mas continuar em San Francisco era como prolongar a agonia que tambm estaria presente se voltasse a Nova York. Por isso no hesitaria em tomar a estrada para Coxsackie.
Agora j eram trs da tarde e dentro de mais algumas horas comearia a escurecer, principalmente num dia como aquele. Midge ficou satisfeita por ter decidido, no ltimo minuto, trazer uma camisola, um roupo, chinelos, uma muda de roupas e algumas outras coisas essenciais. Depois de cumprida sua misso, procuraria um hotel em Coxsackie para passar a noite antes de voltar a Nova York.
Mas, depois de ver a manso, percebeu que no podia ir at l, bater e pedir para ver a sra. Vandervelt. Talvez fosse covardia, mas uma coisa daquelas estava fora de cogitao.
A outra alternativa era se apresentar no escritrio do Hudson River Valley Voice e pedir para ver Brian. S que isso lhe parecia ainda pior que aparecer na manso. Ento... o que poderia fazer para dar a Becky notcias sobre o irmo dela?
No conseguia se imaginar andando pela cidade, tentando obter informaes sobre os Vandervelt. Num lugar daqueles as pessoas estranhas deviam ser logo notadas, e ela no poderia permanecer annima por muito tempo. No, teria que criar coragem e entrar em contato com a sra. Vandervelt ou com Brian, o que no era nada fcil. -
A estrada contornou uma colina, e Midge viu um amontoado de casas
20
que devia ser Coxsackie. A cidade fora construda  margem do rio - suas ruas sinuosas levavam a uma avenida principal, onde a maior parte dos edifcios era de tijolos vermelhos, com janelas altas e estreitas.
Virou  direita na primeira esquina, dirigindo ao longo de uma rua paralela ao rio. Logo em frente,  esquerda, viu uma grade preta de ferro cercando um gramado surpreendentemente verde, em cujo centro havia uma placa grande com letras pretas e douradas onde se lia: Hudson River Valley Voice. O escritrio ficava num edifcio quadrado, muito bem cuidado. Curiosa, Midge estacionou o carro.
Pensou na manso na estrada de Athens e tentou se imaginar fazendo uma visita para a sra. Vandervelt. Em seguida olhou para o prdio  sua frente e decidiu que entrar nele era a melhor soluo.
Tirou um espelho da bolsa e se olhou nele. Seus longos cabelos castanhos emolduravam-lhe o rosto com ondas suaves. Seus olhos escuros pareciam assustados e as faces, geralmente um pouco plidas, tinham adquirido uma cor rosada graas ao longo tempo em que ficara ao ar livre em San Francisco. E seus lbios, cheios e bem delineados, precisavam apenas de um toque de batom.
Estava usando um casaco cor de caf e cala no mesmo tom. Sua aparncia era boa. No havia necessidade alguma de protelar a visita a Brian Vandervelt.
Quatro degraus de mrmore levavam  entrada do escritrio do jornal. Midge abriu a pesada porta e se viu num grande saguo. Havia uma rea de recepo  esquerda, mas estava vazia. Ela ento atravessou o saguo at um corredor central. Havia escritrios dos dois lados. Publicidade, Circulao... Os nomes dos vrios departamentos estavam gravados em letras douradas em painis de vidro fosco. A maioria das portas, semi-abertas, revelava uma srie de salas vazias e escrivaninhas desertas.
No fim do corredor havia uma grande porta dupla encimada pela palavra Redao. Ela a empurrou e se viu num salo tambm deserto, mas com escrivaninhas cheias de papis e cestos de lixo superlotados.
Ouviu um telefone tocando ao longe, que em seguida parou, e imaginou se algum havia atendido ou se quem estava chamando simplesmente desligara. Procurou ouvir som de vozes, mas nada escutou.
Devia haver algum nos fundos, onde na certa ficavam as mquinas de impresso. Pensou em ir at l para descobrir, mas nesse momento seus olhos pousaram numa porta fechada, numa das extremidades da redao.
21
A palavra Editor estava l em letras pretas, e uma luz amarela se refletia atravs do painel de vidro fosco.
Brian Vandervelt estaria ali?
Sem se dar tempo para pensar, Midge foi at a porta e bateu. Em seguida recuou um pouco, esperando num silncio que lhe pareceu aniquilador. Bateu novamente, mas no houve resposta. Ento concluiu que Brian Vandervelt devia ter ido para casa, deixando a luz do escritrio acesa, o que podia ou no indicar que ele planejava voltar mais tarde. No importava; isso poderia ajud-la. Deixaria um recado dizendo que era amiga de Becky, de passagem pela cidade, e que telefonaria na manh seguinte.
Abriu a porta do escritrio, to segura de que a sala se encontrava vazia que no pde conter uma exclamao de surpresa ao ver um homem sentado  escrivaninha. A concentrao dele, entretanto, era to grande que ele nem se moveu. Midge pensou em bater em retirada, mas o homem levantou a cabea e a fitou, surpreso.
Os olhos dele eram cinzentos e seus traos completamente diferentes dos de Becky. Midge reparou que era loiro como a irm, mas a terminava a semelhana.
Becky era muito bonita, mas Brian parecia ainda mais atraente do que naquela velha fotografia da Academia Naval. Alm disso, o rosto dele tinha uma certa maturidade que s lhe aumentava o fascnio. Midge teve a impresso de que aqueles traos perfeitos poderiam ter sido de algum deus grego, e os cabelos espessos, dourados, contornavam e ressaltavam as propores quase clssicas da testa e do nariz bem delineado. O queixo forte era uma herana direta, ela se viu pensando, dos ancestrais holandeses.
Os olhos cinzentos que a fitavam se tornaram curiosos, deixando-a sbita e dolorosamente cnscia do fato de estar olhando para ele. Ento disse depressa:
- Desculpe-me. Eu bati na porta, mas acho que no me ouviu.
As sobrancelhas pouco mais escuras que os cabelos se ergueram levemente.
- No, eu no a ouvi. Estava absorvido no meu servio.
O tom frio dele fez com que ela se sentisse uma intrusa. Midge estremeceu, mas em seguida, determinada, reuniu coragem e entrou na sala.
22
Meu nome  Marjorie Boardman. Provavelmente no lhe significa nada.
- E deveria significar?
No, naturalmente que no.
Claro que no significava! Mas que loucura, aquilo tudo. Midge se deu conta de que no podia continuar com aquela histria. Seria impossvel dizer a Brian Vandervelt que era uma amiga de Becky que estava de passagem pela cidade. Soube instintivamente que ele nunca acreditaria numa coisa dessas. Deduziria, com certeza, que ela estava em Coxsackie porque Becky lhe pedira que fosse. Em outras palavras, Brian compreenderia por que estava l.
Hesitou, lembrou-se do anncio do emprego e disse:
Estou procurando pelo diretor de publicidade. Sr. Clayton, no ?
Brian Vandervelt se levantou, puxando uma mecha de cabelos com gesto rpido. Midge mal pde acreditar no impacto que ele lhe produzia. Muito alto, extremamente atraente, ele transpirava masculinidade, de um jeito que Midge nunca sentira antes, e o efeito era surpreendente. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas, os braos ainda apresentando um bronzeado de vero.
Mais uma vez ela se deu conta de que estava olhando demais para ele.
Brian a fitava to intensamente que ela enrubesceu. Ento falou, num tom quase melanclico:
- Desculpe-me, por favor. Eu estava profundamente absorto quando voc entrou. Como disse que era o seu nome?
- Marjorie Boardman.
- E est procurando por Trent Clayton?
- Sim.
- Acho que ele j foi embora. Posso ajud-la em alguma coisa?
As palavras de Brian Vandervelt eram apenas cordiais; no havia nenhum calor nas maneiras dele. Alm disso, o tom de cansao em sua voz denotava um certo aborrecimento.
Talvez fosse fadiga. Ele parecia exausto, tenso; na certa estava ansioso Por terminar o que estava fazendo e concluir o trabalho daquela semana. Talvez ela estivesse servindo apenas para atrapalh-lo.
Midge hesitou.
No sei se pode me ajudar. Vi o anncio procurando por uma redatora de publicidade, e l diziam para falar com o sr. Clayton. Portanto, eu... eu pensei que devesse vir.
23
- Entendo.
O olhar cinzento era firme, fazendo com que ela enrubescesse.
- O que a trouxe a Coxsackie? Pronto, ele a pegara!
Midge disse a si mesma que devia ter inventado uma histria para uma ocasio daquelas, mas como  que poderia ter previsto
tal situao? Forou um sorriso,
esperando que ele tambm sorrisse, mas, Brian continuou srio.
- Para falar a verdade, eu simplesmente decidi que queria passear um pouco hoje. Devia ter ido procurar emprego, mas em vez disso
prefeii dirigir um pouco. Estava
chovendo quando cheguei a Catskill; assim, parei para tomar um caf. Comprei um jornal e vi o anncio.
- Voc devia ter ido procurar emprego mas decidiu passear,  isso?
- Sim.
Os olhos cinzentos permaneceram atentos.
- Bem,  uma atitude compreensvel. Deduzo ento que no veio at aqui  procura de emprego.
- Certo. Eu... eu trabalhava numa agncia em Nova York mas tive que deix-la por motivos pessoais - lembrou-se que Tim Ross, cunhado de Brian, trabalhara no mesmo
lugar e, para no se trair, tirou do nome da firma o famoso Anderson-Brent e disse: - Trabalhei como redatora
em John Pemberton Associates nos ltimos seis anos.
O sorriso de Brian Vandervelt foi breve, cheio de indiferena.
- Ento  difcil pensar que esteja interessada em ser redatora do Valley Voice,
srta. Boardman. Isto aqui no  a famosa Madison Avenue.
- Quero me afastar de Madison Avenue. Por... por razoes pessoais.
-  mesmo?
O tom frio deixou bem claro que ele no estava nem um pouco interessado em saber por que ela decidira se afastar de Nova York.
- De qualquer forma duvido que este seja o lugar adequado para voc ou para qualquer pessoa com seis anos de experincia numa agncia de Nova York. Entretanto, prefiro
que os chefes de departamento faam as suas prprias contrataes e .demisses. Tenho certeza de que o sr Clayton ter o maior prazer em conversar com voc amanh
cedo, se  que pretende ficar na cidade at l.
- Pretendo, sim, obrigada - disse ela e, enquanto ainda estava
24
pensando no que diria em seguida, viu-o sentar-se de novo, acenando-lhe brevemente.
Era uma dispensa, e com as faces pegando fogo Midge saiu do escritrio, fechando a porta.
Parecia que podia sentir aqueles olhos cinzentos em suas costas enquanto atravessava o corredor. Estremeceu.
Brian Vandervelt era um homem estranho, no havia qualquer dvida sobre isso. Era quase hostil. To diferente da calorosa Becky que era difcil acreditar que pudessem
ser irmos. No entanto, como ela mesma dissera, se nada havia de errado com ele fisicamente, tambm no era provvel que tivesse algum problema emocional, do contrrio
no seria o bem-sucedido editor do jornal mais poderoso da regio.
O que havia com ele, ento?
Estava chovendo de novo. Midge comeou a atravessar a cidade e viu a placa luminosa de um hotel. Decidiu parar.
A mulher que a atendeu na recepo tinha um rosto agradvel e uma figura bastante maternal. O sorriso era aberto, sincero, to caloroso que compensou a fria recepo
de Brian Vandervelt.
Midge logo se viu num quarto aconchegante e bem mobiliado, ouvindo a gerente dizer para no hesitar em pedir o que precisasse.
- Os Maple, aqui perto, servem excelentes refeies - acrescentou a mulher. - Fica deste lado da rua. Bem, at breve.
Midge agradeceu e fechou a porta. Eram quatro e meia. No quarto havia uma pequena cafeteira e, depois de preparar uma xcara de caf, ela se sentou em frente  televiso,
mas no conseguiu se interessar por nenhum programa. Desligou o aparelho e comeou a refletir. Havia alguma coisa indefinvel em Brian Vandervelt; Midge tinha a
sensao de que ele estava escondendo alguma coisa. Mas o que seria?
Ela poderia escrever agora para Becky e lhe dizer que havia visto Brian, que no havia nenhum motivo para que a amiga se preocupasse com ele. Entretanto, sabia muito
bem que no teria coragem de fazer isso. Ficaria at o fim.
Agitada, foi at a janela, de onde se via o macio montanhoso. Em outras circunstncias se sentiria fascinada por aquele cenrio magnfico, mas naquele momento mal
o via. No conseguia tirar da cabea o impacto surpreendentemente intenso que Brian Vandervelt lhe causara, apesar de toda a frieza. Atrs daquela fachada fria,
at mesmo inamistosa, ela
25
sentira uma vibrao que nada tinha a ver com a atitude pouco educada dele. Alm disso, havia algo estranhamente perturbador naquele homein algo que, ela duvidava,
tivesse alguma coisa a ver com a morte do tio. Alguma coisa pessoal.
Midge tinha certeza de que Brian Vandervelt era um homem com UD problema. Mas que tipo de problema?
Ela caminhou pelo quarto, nervosa, lembrando que havia cumprido a obrigao com Becky. Tinha visto Brian e podia, portanto, voltar a Nova York. E era exatamente
isso que faria, disse firmemente a si mesma, se tivesse um pouco de bom senso.
Embora at aquele momento no tivesse pensado seriamente em voltar ao Valley Voice na manh seguinte, sabia agora que seria impossvel deixar Coxsackie sem fazer
outra tentativa para descobrir o que acontecera realmente a Brian Vandervelt.
26

CAPITULO III

Uma bela recepcionista de cabelos loiros se encontrava  escrivaninha do saguo na manh de sexta-feira. Ela apertou um boto do interfone e disse:
- A srta. Boardman deseja v-lo, sr. Clayton.  sobre o emprego de redator de publicidade.
Midge caminhou pelo corredor at a porta onde estava escrito Publicidade, evitando at mesmo uma olhadela para o escritrio no fim do corredor.
A primeira sala estava vazia mas, assim que ela entrou, um homem apareceu  porta de um escritrio menor. Talvez tivesse trinta anos, era alto, elegante e decididamente
atraente. Tinha cabelos castanho-escuros, lisos, e olhos cor de avel. Usava cala axadrezada e uma camisa esporte verde-escura; se estivesse vestido um pouco mais
formalmente ela teria se lembrado, com certa amargura, de John Pemberton. Parecia-se muito com ele, embora John j tivesse chegado ao topo de sua profisso na agncia
da Madison Avenue, enquanto este homem estava a meio caminho, ainda.
Entretanto, havia certa familiaridade nas maneiras dele quando caminhou na direo dela com as mos estendidas.
- Srta. Boardman? Sou Trent Clayton - at mesmo a voz a fez lembrar-se de John. - Vamos at o meu escritrio, est bem?
Entraram numa sala pequena mas bem mobiliada. Ele sentou-se  escrivaninha, fazendo sinal para que ela se acomodasse numa cadeira.
Os olhos a observavam com ar de aprovao. Midge percebeu que ele estava examinando cada detalhe do conjunto de tric laranja que vestia, e
imediatamente desejou
ter escolhido uma roupa que no lhe ressaltasse tanto as curvas bem-feitas.
27
- O que a trouxe a Coxsackie, senhorita?
- O desejo de me afastar de Nova York - disse ela simplesmente, o que no deixava de ser verdade. - Portanto, quando vi o seu anru j,, resolvi me candidatar ao
cargo.
- Uma deciso repentina, certo?
- Bem, sim, suponho que sim.
- O que quero dizer  que devo imaginar que voc no estava exatamente  procura de emprego quando veio para
c.
- No exatamente... Entrei em Catskill ontem  tarde, quando a chuva estava bastante forte. L, comprei um jornal e vi o anncio.
- Voc est hospedada em casa de amigos, aqui?
- No. Estou no Springdale Hotel.
- Oh, sim, o hotel da sra. Prescott. Eu tambm fiquei l por um certo tempo quando vim a Coxsackie pela primeira vez. At encontrar um apartamento;
Ainda havia aprovao nos olhos dele, mas Midge notou que era o olhar de um homem de negcios, muito astuto. Como Brian Vandervek, Trent Clayton no parecia aceitar
a ideia de que ela procurava emprego no Valley Voice.
- Tem amigos por aqui, srta. Boardman?
- No, sr. Clayton, no tenho. Mas isso tem alguma importncia? Sou uma redatora experiente, e  disso que est precisando.
-  verdade. Bem, ento fale-me sobre essa sua experincia.
- Trabalhei na mesma agncia durante quase seis anos. Pemberton Associates, na Madison Avenue, prximo  rua Quarenta e Sete acrescentou, torcendo para que ele no
percebesse que estava dando apenas parte do nome da agncia.
- Por que saiu de l? - ele perguntou, e Midge tentou no demonstrar o alvio que sentiu ao perceber que Trent Clayton no iria entrar em detalhes sobre a Pemberton
Associates.
- Sa por razes pessoais.
- Voc... no foi demitida?
- No. Sa porque quis. De qualquer maneira - acrescentou rapidamente, antes que ele pudesse fazer outra pergunta -, se eu soubesse que iria me candidatar a um emprego
aqui, teria trazido algumas amostras do meu servio. Se quiser, posso trazer algumas cartas de referncia.
28
ela podia. Apesar de para isso ter que enfrentar John. No vejo necessidade de lhe pedir referncias - disse Trent vton - Voc pode fazer alguns textos para
mim e, se forem satisfatrios, serviro de referncia. Voc est mais que qualificada para servio. Temos um bom jornal aqui e estamos sempre procurando
aperfeioar o
nosso trabalho. Mas no estamos na Madison Avenue. Midge concordou.
Sei disso.
No tenho muita certeza, srta. Boardman. No sei se o que temos
aqui poder satisfaz-la. A garota que trabalhava para ns tinha um certo talento mas nunca poderia trabalhar em Nova York. Trent Clayton pegou um lpis e comeou
a brincar com ele.
- No momento - acrescentou - tenho um jovem chamado Ciem Thorns no setor de vendas externas, e ele promete bastante. Temos tambm Ellen Brent, que  daqui mesmo
e faz layouts para o Voice, alm de outros servios. Afinal de contas, este  um jornal semanal. Assim que conseguirmos uma redatora, a nossa equipe estar completa.
Do jeito que os negcios vo indo, acreditamos que possamos expandi-los em breve. Mas ainda assim  algo pequeno em relao ao que voc estava acostumada. E acho
que o salrio no ir satisfaz-la.
- A vida aqui no deve ser muito cara. Ele sorriu.
-  verdade. Eu, por exemplo, vim de Chicago, e a diferena no custo de vida foi uma agradvel surpresa - fez uma pausa e prosseguiu:
- Acredite-me, no  que eu no a queira na nossa equipe. S que tenho receio de que, assim que se recuperar do seu "caso pessoal", que a levou a desistir do emprego
em Nova York, voc nos abandone e procure algo melhor.
Aquilo a irritou.
- No aceito empregos levianamente, sr. Clayton. Posso entender a sua posio, mas no creio que seja justificvel. Existem ocasies em que lucremos
em mudar de situao,
de ambiente. No prometo passar o resto da vida em Coxsackie, mas acho que nem voc poderia fazer essa promessa.
Ele sorriu.
- Isso pode depender de uma srie de coisas... Midge sentiu que havia ganho um ponto.
- Bem - disse ela, aproveitando a vantagem - tudo que posso dizer
29
 que, se me der uma chance de trabalhar, certamente darei o melhor de mim mesma. Por que no combinamos um perodo de
experincia Talvez trs meses?
Havia admirao no sorriso de Trent Clayton.
- Est empregada!
Era necessrio voltar a Nova York para pegar outras roupas e acenar vrias coisas. Por isso, na sexta-feira  tarde Midge j estava em
seu apartamento. Mas antes
de sair de Coxsackie deixara reservado um quarto no hotel, para uma estadia indefinida. Mais tarde pensaria em
procurar um apartamento ou uma pequena casa, pois
tinha a firme inteno de honrar seu compromisso de trs meses com o Valley Voice.
Alm da curiosidade a respeito de Brian Vandervelt, estava encarando a possibilidade de trabalhar no jornal como um desafio.
Enquanto guardava alguns suteres de l que seriam teis quando o tempo em Coxsackie esfriasse realmente, ela deu uma olhada em sua imagem no espelho e sorriu.
Nunca se considerara muito impetuosa e estava um tanto surpresa por ter decidido ficar com aquele emprego.
- Becky, Becky - disse em voz alta -, voc me arruma cada uma!
O telefone tocou, assustando-a, e ela sentou-se na beira da cama para atender.
- Midge! - o som da voz de John Pemberton ainda tinha o poder de faz-la estremecer.
- John?  voc, no ?
- Obrigado por se lembrar - disse ele, e Midge percebeu que havia bebido. - Por onde andou?
- Estive fora da cidade.
- Fora da cidade! Est bem, no tenho nada com isso. Olhe, voc est livre para jantar?
Ela hesitou um momento e resolveu mentir:
- No. Sinto muito, mas no estou.
- Ento, ser que poderia se encontrar comigo s onze, no lugar de sempre?
- No, John.
A voz dele se tornou suave ao dizer:
- Midge, isso tudo  muito infantil. Ns dois estamos agindo como
30
crianas. No comeo eu estava furioso demais para procur-la. Depois uei sabendo que voc havia ido para San Francisco. Fui visitar meu pai.
O que vai fazer agora?
- Arrumei um emprego... fora da cidade.
- Onde?
- Prefiro no dizer.
- Entendo - ele fez uma pausa, e em seguida disse: - No podemos
deixar que tudo termine assim.
- J terminou. Sinto muito. Boa noite, John.
E desligou o telefone, surpresa com a prpria calma.
No sbado ela fez algumas compras, encontrou uma amiga para jantar e no domingo de manh escreveu uma longa carta para Jennifer, a companheira de apartamento, contando
seus planos. S depois que ligou para a garagem e pediu que lhe trouxessem o carro foi que se lembrou que ainda tinha uma coisa a fazer: telefonar para Becky.
Os Ross ainda estavam tomando caf. Becky explicou:
- Tim e eu ainda no comemos nada. Eu me levantei e alimentei as crianas h horas, mas depois voltei para a cama. Fomos a uma festa ontem  noite.
- Ora, ora, que bom! Becky... eu fui a Coxsackie.
Houve silncio. Em seguida Becky perguntou, com muita cautela:
- Voc viu Brian?
- Sim. Ele parece timo. No deve haver nada errado com seu irmo que, para falar a verdade, no  a pessoa mais simptica do mundo. Eu diria que ele  quase hostil.
- Brian... hostil?
- Sim.
- Ento existe mesmo alguma coisa errada com ele - Becky declarou com firmeza. - Brian sempre foi meio indiferente, j lhe contei isso. Mas hostil... hostil no.
Voc viu tia Maude?
- No. Oh, Becky, aquela casa! Eu simplesmente no podia ir at a Porta e...
- Sim, posso entender isso.
Midge fez uma pausa, imaginando como diria o resto.
- vou voltar, querida.
- Para Coxsackie?
31
- Sim. Consegui um emprego no Valley Voice.
- Um emprego no jornal? - Beck riu alto. Parecia prestes a ter uma crise histrica. - Midge, voc est louca!
- No, no estou. Descobri que havia uma vaga para redatora publicidade l e me candidatei a ela. Comeo a trabalhar segunda-feira
de manh, por um perodo de trs meses. Depois vamos ver o que acontece.
- Brian aprova isso?
- No necessariamente. Ele me encaminhou para o diretor de publicidade. No sabe que nos conhecemos.
- Midge! Que loucura! Eu no sabia que voc era capaz de levar adiante um plano desses!
- Est vendo o que voc me fez? - disse Midge, alegre. - Agora virei
espi! Mas, falando srio, querida, vou fazer um bom trabalho l. E vou ver o que consigo descobrir
sobre Brian. Est bem?
- Est timo - disse Becky e, antes de desligar, acrescentou: Sabe como me preocupo com Brian mas, mesmo assim, no esperava que voc fizesse uma coisa dessas! -
a voz dela estava cheia de dvida. Espero que no se envolva muito nisso, querida - concluiu de
forma misteriosa.
Midge deixou Nova York no meio da tarde. O dia estava sombrio, e a noite desceu antes que ela chegasse a Coxsackie. Por isso, foi um alvio ver, na auto-estrada.
O sinal luminoso que indicava o Springdale Hotel.
A sra. Prescott cumprimentou-a como se fosse uma velha amiga. Midge levou as coisas para o quarto, saiu para jantar e, assim que voltou, foi direto para seus aposentos.
Continuava pensando no que Becky lhe dissera sobre no se envolver muito no caso. Estaria se envolvendo?
Encolheu os ombros. Muito em breve saberia responder quilo!
O estacionamento ao lado do Hudson River Valley Voice estava cheio. na segunda-feira de manh. Ao entrar no edifcio, ela cumprimentou a simptica loirinha  mesa
da recepo, que estava ocupada ao telefone, e caminhou, confiante, at o departamento de publicidade.
Estava dez minutos adiantada, mas Trent Clayton j se encontrava l, perto de uma garota magra e ruiva que, abaixada sobre uma mesa, desenhava. O outro ocupante
do escritrio era um jovem plido, de cabelos castanhos, culos de lentes e aros grossos e o rosto cheio de espinhas.
32
Trent Clayton a cumprimentou:
gom dia, srta. Boardman. Chegou na hora certa. Espero que sim - ela respondeu sorrindo mas, para sua surpresa, ele no sorriu.
Na verdade, no havia qualquer expresso de boas-vindas no rosto de Trent Clayton, que acenou com a cabea para a garota na mesa de desenho.
Esta  Ellen Brent, que faz a parte artstica, e este  Ciem Thorne, o
nosso homem de vendas.
Eles murmuraram cumprimentos. Em seguida, quase que imediatamente, Ciem Thorne pegou o telefone e discou. Ellen Brent voltou ao que estava fazendo. Trent Clayton,
franzindo a testa, disse:
- Venha at o meu escritrio, srta. Boardman, por favor.
- Claro - ela respondeu, seguindo-o, perplexa.
Alguma coisa havia acontecido desde sexta-feira: alguma coisa havia mudado.
Trent Clayton fechou a porta do escritrio, fez sinal para que ela se sentasse e foi at a mesa. Recostando-se na cadeira, pegou a caneta e a fitou.
Midge no conseguiu resistir  tentao e perguntar
- H alguma coisa errada, sr. Clayton?
- Deveria haver?
- Que eu saiba, no.
- Voc no me contou, quando veio aqui na sexta-feira, que j tinha tido uma entrevista com Brian Vandervelt.
- Eu no tive.
- Vamos, srta. Boardman, pode dizer a verdade. Os chefes de departamento se renem todas as segundas-feiras bem cedo para planejar a semana. Esta semana contei a
Vandervelt que havia contratado uma nova redatora e, quando eu disse o seu nome, ele me contou que j a tinha visto na quinta-feira.
- Sim, eu o vi na quinta-feira, mas na verdade vim aqui para falar com voc, por causa do anncio. Acontece que o sr. Vandervelt era a nica pessoa que se encontrava
aqui na ocasio.
- Conversou com ele?
- Sim.
- Por que no me contou?
33
- Porque no era importante. No tenho nada a esconder. O sr Vandervelt disse que voc fazia as suas prprias contrataes e me pedii para voltar na sexta-feira.
Foi o que fiz.
- Claro que fao as minhas contrataes; de outra maneira no trabalharia. Mas, naturalmente, o editor tem influncia. Vandervelt no
a usou: neste caso no havia
necessidade. Eu seria um idiota se no a contratasse, com todas as qualificaes que tem, mas, se  amiga dele. acho que tenho o direito de saber.
- Amiga de Brian Vandervelt? - ela no precisou fingir surpresa. Eu nunca o tinha visto antes!
Inesperadamente, Trent Clayton sorriu.
- Est bem, est bem. Mas  difcil acreditar que uma mulher atraente como voc deixaria um emprego numa agncia de Nova York para vir at aqui trabalhar num jornal
semanal. Achei que devia ter algum amigo na cidade, e que este amigo podia ser Vandervelt.
- Bem, voc est errado - ela respondeu friamente. - Eu lhe disse que estava deixando Nova York por razes pessoais e isso  verdade. .No vou pedir favor algum.
Posso fazer um bom trabalho, havamos concordado com um perodo de experincia de trs meses e, a no ser que queira faltar com a palavra, estou preparada para comear
e dar o melhor de mim.
- Isso  mais do que suficiente - ele afirmou com tranquilidade. Entretanto, h uma coisa que voc deve fazer antes de comear a trabalhar. Vandervelt quer v-la
e me pediu que a encaminhasse ao escritrio dele assim que chegasse. Acho que j sabe onde fica, no ?
A voz dela era seca ao dizer:
- Sim, eu sei.
A redao estava em plena atividade. Reprteres e trabalhavam, telefones tocavam. Um homem de cabelos sentado a uma escrivaninha prxima  porta, levantou a perguntou:
- Posso ajud-la?
Ela fez um gesto em direo  porta de Brian e explicou:
- Sou da publicidade. O sr. Vandervelt est me esperando. O homem sorriu com certa malcia e Midge fechou a cara.
34
-  a nova redatora? - e, diante do aceno afirmativo de cabea, continuou: - Entre. No precisa bater.
Entretanto ela bateu mas, depois, como ningum se manifestasse,
estava prestes a seguir o conselho do homem de cabelos grisalhos quando Brian Vandervelt gritou:
Entre!
Ele estava parado atrs da escrivaninha, muito bem vestido. Midge ficou confusa com o impacto que a presena dele lhe causava. Havia um charme, uma masculinidade
em Brian que era profundamente perturbadora. Mas o olhar frio e indiferente a intimidava. Seu corao se apertou.
- Sente-se, srta. Boardman.
Ela se acomodou numa poltrona e ele continuou em p, a observ-la.
- Suponho que imagina por que mandei cham-la, certo? Ela teve que engolir em seco antes de responder:
- Sim, imagino.
O olhar continuava gelado.
- Bem, tenho que admitir que fiquei surpreso quando Clayton disse que a havia contratado.
- Por qu? No acha que sou qualificada para o cargo?
- Claro que  - disse ele com certa impacincia. - Clayton e eu achamos que  qualificada at demais, e  exatamente este o problema. O que me preocupa  que no
consigo entender por que quer esse emprego.
- Muito bem. Eu disse ao sr. Clayton e vou lhe dizer tambm que as minhas razes para deixar Nova York so pessoais. Se quer saber, eu me envolvi com algum que
trabalhava na mesma agncia. Sa de l por vontade prpria; no fui demitida, se  disso que tem medo. Se desejar, POSSO lhe trazer provas de que sou uma profissional
experiente.
- No  necessrio.
Ele se virou em direo  janela, dando-lhe as costas, e Midge disse, desolada:
-- No consigo entender por que esto to preocupados em me dar este emprego. Sou redatora; uma boa redatora. Por que no me deixam pelo
menos tentar?
Ele se virou novamente e sentou-se  escrivaninha. Falou, ento, num tom preocupado:
- Desculpe-me. O que foi que disse? - quando ela comeou a
35
repetir, ele a interrompeu: - No, no importa. Posso entender o seu aborrecimento. Est nos oferecendo mais talento do que precisamos, devemos lhe parecer indiferentes
- ele hesitou. - Mas no  isso, srta. Boardman. Na verdade,  muito importante para mim, nesta fase
de desenvolvimento do jornal, manter uma boa equipe. Sou contra
a contratao de pessoas que desejam trabalhar apenas por capricho, no interessa quo altas sejam as suas qualificaes, pois  improvvel que permaneam no cargo.
Lembrando-se do testamento, Midge achou a preocupao dele mais que vlida e informou:
- Assumi um compromisso por trs meses, sr. Vandervelt. Ele concordou com a cabea.
- Eu aceito.
- Ento... - suas palavras estavam cheias de ironia. - Permite que eu v trabalhar?
Por um momento pensou que Brian fosse sorrir, mas ele no fez isso.
- Pode ir. No vou prend-la mais.
E voltou-se para os papis sobre a mesa.
36

CAPTULO IV

Em trs dias Midge redigiu textos para trs contas publicitrias que "realmente arrasaram", conforme Trent proclamou com satisfao. Tambm foi apresentada aos vrios
chefes de departamento, e o prprio Clayton a acompanhava para lhe fazer as honras. Abe Weissman, alegre e rechonchudo, dirigia a circulao; Fritz Handel, srio
e com um pesado sotaque germnico, era o superintendente mecnico, considerado
um especialista no ramo.
Midge conheceu tambm o homem de cabelos grisalhos que estava na sala de redao no dia em que Brian a chamara ao escritrio: era Mike Stabler, o editor-gerente,
e mais tarde lhe contaram que ele era um dos melhores na profisso. Ou fora, at comear um caso de amor com a bebida.
Midge no tinha muita intimidade com nenhum de seus colaboradores, ainda que eles no fossem to desinteressantes como pareciam no incio; na verdade, ambos eram
surpreendentemente bons em suas reas. Ciem Thorne, apesar da aparncia pouco atraente, era um excelente vendedor de anncios. Era de Coxsackie, casado e pai de
uma garotinha; conhecia todo mundo na regio e tinha um jeito de vender muito simples e eficiente, que estava se refletindo num aumento semanal de publicidade.
Ellen Brent tambm era da cidade. No havia cursado nenhuma escola especializada, mas tinha talento. Os layouts que criava eram provocantes, modernos, quebravam
um pouco a linha tradicional do Valey Voice. EHen trabalhava bastante e Midge deduziu que o motivo de tanta dedicao, pelo menos em parte, era Trent Clayton.
A garota aproveitava todas as oportunidades para lhe pedir a opinio, e seus olhos o seguiam
37
quase avidamente todas as vezes que se movimentava pelo escritrio. Entretanto, se Trent tinha conscincia da paixo de Ellen,
no dava nenhuma indicao disso. Era
agradvel, simptico, mas no demasiadamente, e, embora os olhos dele s vezes se demorassem em Midge, era bastante circunspecto.
Vez por outra ela via Brian Vandervelt atravessando o corredor ou saindo de algum escritrio.
Midge no podia deixar de sentir um certo desapontamento. Estava certa de que Brian j tinha visto algum dos trabalhos que realizara e gostaria que os comentasse,
embora fosse ridculo pensar que ele se daria ao trabalho de ir ao departamento de publicidade para elogi-la.
Na quarta-feira, aps um jantar solitrio nos Maple, Midge sentiu um desejo irresistvel de dar uma volta pela cidade. J havia um toque de outono no ar frio da
noite, e ela estremeceu levemente. Demorou um pouco na farmcia, comprando um batom, e descobriu que no tinha vontade alguma de voltar  solido de seu quarto.
Estava prestes a sair da farmcia quando viu Brian Vandervelt passar pela porta. Ele caminhava rapidamente, sem olhar para os lados, e Midge teve certeza de que
no havia sido vista. Viu-se tentada a ir atrs dele, pois, longe do jornal ou da manso, sentia que seria capaz de lhe contar que era a melhor amiga de Becky.
Se ao menos tivesse lhe contadoaquele primeiro dia, sobre o pedido de Becky! Agora lhe parecia fcil ter feito aquilo. Mas no o fizera e sabia muito bem que era
tarde demais para contar-lhe a verdade. Podia at imaginar a reao dele; podia sentir aqueles olhos cinzentos percorrendo-lhe o rosto com a mais fria indiferena.
Suspirou e o observou parar ao lado de um carro esporte branco. Um momento depois ouviu o rudo do motor sendo ligado e ele se afastou.
Na quinta-feira, depois que o jornal da semana estava pronto, Trent convidou a equipe para ir at o Murpy's, um barzinho, a fim de comemorarem a primeira semana
de Midge no Voice. Ela no tinha a menor vontade de ir; no entanto no lhe parecia delicado recusar, uma vez que Ciem e Ellen aceitaram o convite na hora. Midge
suspeitava que Trent iria dar um jeito de continuar com ela no bar depois que os outros tivessem ido embora, e estava determinada a evitar isso.
38
Agradvel, atraente, sofisticado, era impossvel no gostar dele. Mas Nlidge
no tinha vontade alguma de se envolver com aquele homem. Talvez fosse porque ele a
fazia lembrar-se de John.
Contudo, a pequena comemorao no Murphy's foi agradvel. Encantador e relaxado, Trent repartiu as atenes entre Ellen e Midge, pelo que ela se sentiu grata. Vrias
vezes percebeu sinais de cimes no rosto de Ellen, e queria evitar isso, especialmente porque a moa no tinha motivo algum para esse tipo de ressentimento. Pelo
menos no que lhe dizia respeito.
Midge aceitou o brinde que os outros lhe propuseram e tambm os brindou, agradecendo-lhes pela cooperao. Teve o cuidado de elogiar alguns dos trabalhos de Ellen,
e o rosto geralmente plido da garota enrubesceu de prazer.
Ciem foi o primeiro a ir embora, explicando que a esposa tinha marcado um jantar para logo mais. Ofereceu uma carona a Ellen e Midge ficou com medo de que ela aceitasse,
deixando-a a ss com Trent. Como Ellen hesitasse um pouco, ofereceu:
- Se quiser posso lev-la, Ellen.
E viu os lbios de Trent Clayton se curvarem num muxoxo.
- Antes vamos tomar outra rodada - ele sugeriu, e Ellen concordou imediatamente.
Talvez, pensou Midge, se fosse bastante cautelosa, pudesse fazer algumas perguntas a eles sobre Brian Vandervelt, sem parecer muito curiosa.
Por sorte, Trent logo lhe deu uma oportunidade inesperada:
- Vandervelt quase se matou, hoje!
Midge, terrificada, estava perplexa demais para falar, mas Ellen perguntou:
- Como?
- Ele estava na sala de composio. Havia uma caixa de metal muito pesada numa prateleira perto de onde ele se encontrava. Quando o prelo comeou a funcionar, a
vibrao deve t-la deslocado. A caixa caiu a um centmetro dele... Na verdade, quase em cima de sua cabea. Foi um milagre ele no ter sido atingido. Pelo menos
 o que todos que estavam l dizem.
- Ele no ouviu nada? - perguntou Midge. Trent a olhou de maneira estranha.
39
- Se no ouviu nada?
- Sim. Ningum tentou avis-lo?
Trent a olhou de modo estranho e respondeu:
- No haveria muita diferena se tivessem feito isso, especialmente com o prelo funcionando - ele franziu a testa diante da
expresso perplexa de Midge. - Pensei que voc soubesse que Vandervelt  surdo.
Surdo! Aquilo era uma bomba!
Midge olhou para Trent, incrdula. Brian Vandervelt no podia ser surdo. Um homem como ele simplesmente no podia ser surdo!
Mas Midge sabia que Trent estava falando a verdade e comeou a entender tudo.
Claro que, nas fotografias, nada havia que mostrasse a Becky o problema do irmo. Ele disfarava muito bem a surdez. Mas, agora que ela sabia do caso, comeou a
compreender por que o achara meio estranho, por que suspeitara que havia algo errado com ele. Afinal, na ltima quinta-feita, por exemplo, quando batera  porta
do escritrio, no houvera resposta. E ele ficara to surpreso quanto ela ao se encontrarem.
Agora que pensava nisso, Midge podia lembrar que nas duas vezes que o encontrara Brian lhe pedira para repetir o que havia dito. Ela confundira aquilo com preocupao,
ou talvez com uma falta total de interesse.
Ellen Brent, como se lendo seus pensamentos, disse-lhe:
- Brian Vandervelt foi ferido numa exploso h vrios anos. Entretanto, disfara muito bem.
- Est querendo dizer que ele  totalmente surdo?
- Bem, ele usa um aparelho - Trent explicou. - Voc no nota por causa do corte de cabelo. Mas, quando est no escritrio, Brian geralmente desliga o aparelho.
Midge se lembrou de um gesto de Brian quela primeira vez, no escritrio. Ele havia passado a mo nos cabelos. Agora sabia que ele havia ligado o aparelho para entend-la.
- Ainda trmula, disse:
-  difcil acreditar!  um... problema srio. Ele  to jovem e...
- To bonito - concluiu Trent. - Olhe, no tenha pena dele. Brian Vandervelt  extremamente autoconfiante, como deve ter notado. E por que no deveria ser? Daqui
a uns dias vai herdar uma fortuna; ter o suficiente para usar um aparelho de surdez banhado em ouro pelo resto da vida!
40
Midge ignorou a ltima observao.
Ouvi dizer que a manso cinza na estrada de Athens pertence aos
Vandervelt - ela arriscou. -- Brian vive l com a esposa?
Ele no  casado - afirmou Trent. - Mora com a tia, viva de
Horace Vandervelt - tomou o resto da bebida e disse, mal-humorado: gu a levarei, Ellen. A sua casa fica no meu caminho, e Marjorie teria que dar uma volta muito
grande para deix-la l.
Marjorie. Poucas pessoas a chamavam assim, mas Midge ocultara seu apelido para evitar que Brian Vandervelt descobrisse quem era.
Despediram-se na porta do bar. Trent e Ellen foram numa direo e Midge em outra.
Ela j estava quase no carro quando lembrou que havia deixado o casaco no jornal, nas costas da cadeira da escrivaninha. A noite prometia ser fria; Midge resolveu
ir at o escritrio. Chegou e empurrou a porta da frente com uma agradvel sensao de familiaridade.
J havia apanhado o casaco e estava saindo do departamento de publicidade quando ouviu uma porta se fechando e viu Brian Vandervelt no corredor. Ficou parada, dominada
por uma onda de sentimentos conflitantes.
Trent estava certo: havia autoconfiana at mesmo no jeito de andar de Brian. Mas havia tambm uma sensualidade latente que era quase um sinal de perigo, mesmo em
momentos como aquele, em que ele parecia extremamente fatigado.
E foi com uma expresso cansada que fitou Midge e a cumprimentou:
- Oi. Tudo bem?
Ela enrubesceu.
- Esteve trabalhando at agora? - perguntou Brian.
- No. Voltei pra buscar o meu casaco.
Ele acenou com a cabea e colocou-se ao lado dela. Foram juntos at a porta e, quando Brian a abriu, seu brao roou no ombro de Midge. Na mesma hora o corao dela
disparou.
A lua quase cheia e as estrelas brilhando no firmamento davam quela noite de outubro um encantamento especial.
Midge, confusa com as sensaes que Brian lhe provocava, teve certeza de uma coisa: ele tambm se sentia muito atrado. Era um desejo nituo.
41
Atravessaram a rua e alcanaram o carro de Midge, queria desesperadamente dizer algo. Mas a voz parecia abandon-la. Foi ele ento que falou primeiro:
- Voc est fazendo um bom trabalho.
- Obrigada.
- Est arrependida de ter aceito o emprego? -Oh, no!
Ele esboou um leve sorriso.
- timo.
Acenou levemente com a cabea e foi at o carro esporte branco estacionado um pouco abaixo.
Midge voltou para o hotel. No conseguia tirar Brian Vandervelt do pensamento, e naquela noite teve um sonho angustiante: estava dando aulas para crianas surdas
e no conseguia se comunicar com elas. Exausta, usara todos os meios  sua disposio sem obter nenhum resultado. Ento ela olhou atentamente para as crianas e
viu que todas se pareciam com Brian. Foi neste ponto que acordou.
Eram quatro da manh. Uma hora ridcula para acordar, principalmente quando se descobre que o sono no vem mais. Sem conseguir dormir, Midge resolveu se levantar
e preparou uma xcara de caf, tentando imaginar como devia ser ficar surdo de repente. Impulsivamente ligou o rdio e tapou os ouvidos, mas mesmo assim conseguia
ouvir algum som.
Estou ficando maluca, disse consigo mesma, e isso no vai ajudar ningum.
Nesse momento lembrou que devia escrever a Becky e contar sobre Brian - o que no a atraa nem um pouco. Por que o prprio Brian no havia informado a irm sobre
a surdez? A no ser que tivesse resolvido mante-la fora de sua vida, devia compreender que a magoaria escondendo esse fato.
Horace Vandervelt devia saber que Brian era surdo quando fizera o testamento, e mesmo assim colocara-o numa situao difcil. A herana Vandervelt era constituda
de uma imensa fortuna; se Brian no conseguisse receb-la no dia primeiro de novembro, sua parte passaria automaticamente para as mos dos chefes de departamento
do jornal.
A preocupao de Becky pelo irmo era mais vlida do que Midge imaginara, pois, para piorar as coisas, Brian estava determinado a
42
enfrentar aquele desafio e erguera um muro ao redor de si prprio. O que
podia ajudar os inimigos. Trent Clayton havia dispensado Midge do trabalho na sexta-feira;
porisso ela resolveu ir at Albany fazer compras.
Antes, entretanto, foi tomar caf nos Maple. Estava comeando a comer quando algum disse:
- bom dia.
Ela reconheceu a voz antes mesmo de levantar a cabea e ver Brian Vandervelt parado a seu lado. Sorriu, meio tmida.
- Eu no queria assust-la, Marjorie.
Ela engoliu o caf rapidamente, quase engasgando ao responder:
- Voc no me assustou.
- Posso me sentar?
- Naturalmente.
Brian sentou-se  sua frente,, e mais uma vez ela no conseguia desviar o olhar dele.
- Onde voc est hospedada? No hotel da sra. Prescott?
- Sim.
- Est bem acomodada l?
- Sim, obrigada.
A garonete trouxe uma xcara de caf e colocou-a  frente dele, que explicou:
- Vio o seu carro l fora e resolvi entrar.
-  mesmo? Ento no costuma vir aqui?
- No, no costumo. Geralmente tomo caf em casa. Mas achei que poderia falar melhor com voc aqui do que no escritrio - disse ele. Depois de hesitar um pouco,
dirigiu-lhe um olhar que fazia lembrar Becky e prosseguiu: - Como j lhe disse, voc fez um trabalho excepcional para ns, esta semana. Aprecio isso, especialmente
por no t-la encorajado em nenhuma das ocasies em que nos encontramos no meu escritrio. Aquela tarde,
quando leyantei a cabea e a vi parada em frente  minha escrivaninha...
- Mas eu bati  porta e...
Calou-se. Teve vontade de morder a lngua por falar sem pensar.
Ele abaixou o olhar por um momento; em seguida tornou a fit-la, e sua expresso estava sombria.
-- Sim, tenho certeza que bateu. Mas suponho que j deva saber que eu no podia ouvi-la.
43

Ela enrubesceu, desejando que a voz ficasse firme.
- Sim, j sei.
- Como percebeu que sou surdo? Ou algum lhe contou?
- Trent Clayton mencionou isso ontem. Eu... Bem, eu no havia percebido - hesitou, temendo que ele se ressentisse, mas teve que dizer
- Voc consegue disfarar muito bem.
Ele sacudiu a cabea, o sorriso melanclico.
-  uma questo de opinio. Se eu estivesse com o meu aparelho ligado aquele dia, teria ouvido voc bater. Mas o prelo
estava, funcionando, e o som  muito forte.
 como se ter uma poro de rdios pendurados na cabea. De qualquer maneira, desculpe-me a rudeza.
- Oh, por favor... - ela comeou a falar, mas no teve oportunidade de continuar. Um jovem com um uniforme de policial se aproximou deles.
Brian sacudiu a cabea e protestou:
- Oh, no!
- Desculpe-me incomod-lo - disse o policial -, mas  Mike novamente.
- Isso est se tornando um hbito - Brian suspirou, exausto, Onde estava desta vez?
- Numa espelunca, em Albany. Tiveram que prend-lo. No houve outro jeito. Ele estava quebrando todos os copos.
- Est bem, irei com voc. Srta. Boardman, desculpe-me. Este  Jerry Mueller.
- Sinto muito ter interrompido o seu caf - disse o policial.
- Est tudo bem - respondeu Midge. - Estvamos apenas falando sobre negcios.
- Negcios? - Mueller ergueu as sobrancelhas.
- A srta. Boardman  a nova redatora de publicidade do Valley Voice
- Brian explicou. - A esposa de Jerry tambm trabalha para ns disse Midge. - Lucille  nossa recepcionista.
- Ela  muito simptica - respondeu Midge, e Jerry Mueller sorriu. Enquanto observava Brian sair do restaurante, Midge se lembrou do
comentrio que Trent fizera sobre o amor de Mike, o editor-chefe, pela bebida. Parecia verdade, o que significava que Brian Vandervelt tinha outros problemas. Na
certa ele preferia resolv-los sozinhos, pelo menos no caso de Mike Stabler.
44
Midge suspirou e pediu a conta, mas foi informada de que j havia sido
paga por Brian. Ela perdeu a vontade de fazer compras e resolveu ir at o escritrio,
terminar um trabalho que j havia comeado.
O departamento de publicidade estava vazio. Comeou a trabalhar, tranquila quando algum a interrompeu:
Ei, Clayton est no escritrio dele?
Midge ergueu a cabea e viu Abe Weissman, o diretor de circulao, parado  porta. Weissman, baixinho e gordo, usava um terno preto e branco com uma gravata de seda
vermelha, que o faziam parecer um barril. Um anel de brilhantes reluzia na mo direita dele, que segurava um charuto entre os dedos rechonchudos.
- No, sr. Weissman - ela respondeu com um sorriso -, o sr. Clayton no est aqui.
- Acha que ele vem hoje?
- Acho que j veio e j foi.
- Ah, ento estava tentando fugir de mim! - resmungou Weissman.
- Ele lhe falou sobre a seo especial que est planejando para os feriados de novembro?
- No.
- Era de se imaginar - disse ele amargamente. - Clayton vai jogar tudo em cima de voc na ltima hora, exatamente como pretendia fazer comigo. Handel bem que me
avisou. Sabe, Clayton precisou falar sobre isso com Handel para saber se a grfica podia arcar com mais esse servio, apesar de tudo que j tem para fazer. "Brincadeiras
e Divertimentos"  o nome da edio que Clayton planeja, uma seo inteira de publicidade com projetos especiais para as crianas. Dever ser impressa separadamente
e distribuda com o jornal, na quinta-feira. Vai ser muito trabalho para o meu departamento, sabe?
- Imagino que deva ser.
- E voc tambm vai ter muito servio - ele avisou. - Clayton  calmo, mas muito ambicioso - em seguida sorriu, um sorriso encantador.
- Voc  muito boa. Aposto que pode manejar tudo muito bem. Inclusive Trent Clayton.
E a deixou.
Ela estava sorrindo ao recomear o trabalho. Apesar de tudo, Weissman era simptico.
45
Finalmente s e sem interrupes, terminou o que estava fazendo e saiu do edifcio quando quase deu um encontro em Wilson Strathmore
diretor de negcios, na porta da frente.
Depois dos costumeiros pedidos de desculpa, ele falou:
- Estamos felizes em t-la conosco, srta. Boardman.
- Obrigada. Eu me sinto feliz por estar aqui - respondeu polidamente e se afastou.
Enquanto se dirigia ao carro, viu-se pensando em Wilson Strathmor, Abe Weissman, Trent Clayton e o outro chefe de departamento, Frii Handel, o superintendente de
mecnica. Que estranho quarteto formavam cada um to diferente do outro! Abe Weissman parecia um jogador de cartas profissional. Trent Clayton tinha tudo para ser
um executivo da Madison Avenue, em Nova York, enquanto Wilson Strathmore tinha a aparncia de um professor. Quanto a Fritz Handel, parecia um estivador
envelhecido.
Estes eram os quatro homens que deveriam herdar o Hudson River
Valley Voice se Brian no conseguisse cumprir o que o testamento estabelecia. Midge imaginou o que eles deviam sentir a esse respeito: Parecia que todos estavam
cooperando com Brian, como se desejassem ajud-lo... Ou isso era apenas falso, superficial?
Midge pensou na pesada caixa de metal que quase atingira Brian no dia anterior. Ser que havia sido mesmo um acidente? Esta ideia lhe provocou um arrepio. Trent
dissera que, se a caixa tivesse atingido Brian, provavelmente ele estaria morto.
A ganncia era unr dos motivos mais antigos que levavam os homens a matar. Alm disso, a possibilidade de uma conspirao contra Brian Vandervelt se tornava ainda
mais diablica porque, embora ele pudesse ver o inimigo, no podia ouvi-lo.
Midge imaginou o que Brian pensava sobre a situao. Ser que percebia que o tio o havia colocado num jogo muito perigoso? Ser que tinha conscincia da indiferena
que parecia mante-lo distante da equipe ou esta atitude se devia ao fato de ele ser surdo?
Ela se viu desejando que existisse um meio de conhec-lo melhor, que houvesse algum jeito de descobrir o que se escondia atrs da fachada controlada e indiferente
de Brian.
Sacudiu a cabea. No era de admirar que Brian parecesse anos mais
46
velho que a irm gmea! Ele sofrera muitos golpes nos ltimos anos...
Golpes demais, na verdade. Era natural que s vezes fosse hostil.
No entanto, naquela manh, ele no fora nem um pouco hostil: Entrara no restaurante dos Maple porque desejava falar com ela, que agora desejava ardentemente que
o policial
no os tivesse interrompido.
Midge imaginou o que Brian teria para lhe dizer. Mas nunca saberia a resposta, a no ser que ele a procurasse novamente. E no havia razo neuma para que fizesse
isso. Ela desejava apenas encontrar uma forma de se aproximar de
Brian...
 Engraado, essas palavras tinham um estranho efeito. Midge enrubesceu e esperou um longo momento antes de dar partida no carro. Era ridculo
se sentir assim em relao a um homem que mal conhecia.
"Estou me envolvendo demais", recriminou-se. Afinal de contas, havia decidido manter distncia dos homens por um bom tempo!
Mas resistir aos Trent Clayton do mundo era uma coisa, e resistir a um homem como Brian Vandervelt era outra completamente diferente.
47

CAPITULO V

Foi um longo fim de semana. Midge foi a Catskill, fez algumas compras e vrios passeios solitrios pelo campo, dormiu, assistiu  televiso e em seis ocasies diferentes
tentou escrever uma carta a Becky para lhe contar sobre Brian, mas desistiu todas as vezes.
Na segunda-feira de manh estava mais do que disposta a voltar ao trabalho. E, quando Lucille Mueller, a recepcionista, levantou a cabea e com um sorriso lhe disse
bom-dia, ela teve uma agradvel sensao de pertencer quele local.
Ainda estava sorrindo ao entrar no escritrio, mas sua satisfao durou pouco. Trent Clayton, de rosto fechado, estava esperando ao lado da mesa. Assim, que ela
entrou na sala, Ellen Brent voltou a ateno para o desenho que estava fazendo e Ciem Thorne se ocupou ao telefone, como se num gesto combinado.
- Vamos at o meu escritrio, Marjorie.
Confusa, Midge o seguiu. Ele no se sentou nem sugeriu que ela o fizesse. Em vez disso, falou em voz baixa, para que Ciem e Ellen no pudessem ouvi-lo:
- Vandervelt me disse na reunio que deseja v-la o mais rpido possvel. Ele parece extremamente furioso. O que foi que aconteceu?
- No posso imaginar.
- Francamente, nem eu. No encontrei nada errado no seu trabalho. Acho que a nica coisa que voc pode fazer  ir at l para descobrir.
Midge acenou com a cabea e falou, com uma confiana que definitivamente no sentia:
- Talvez voc tenha s imaginado que ele est furioso com alguma coisa que eu fiz. Bem, de qualquer forma isso no deve demorar muito.
48
- Espero que no. Temos uma seo especial para os prximos feriados e quero ver voc trabalhando nisso o mais rpido possvel.
Imediatamente ela se lembrou de Weissman; o diretor de circulao estava certo.
- Voltarei assim que puder.
Atravessou rapidamente o corredor e entrou na redao. Mike Stabler, como sempre, estava  mesa, perto da porta do escritrio de Brian Vandervelt. Ele parecia mais
carrancudo do que da ltima vez e resmungou, assim que viu Midge:
- O homem est com algum. Vai ter que esperar.
No mesmo instante a porta se abriu e Wilson Strathmore saiu. O gerente de negcios parecia aborrecido, mas esboou um sorriso ao v-la.
- Entre - disse ele. - Brian est  sua espera.
E estava mesmo. Parado atrs da escrivaninha, parecia mais austero que de costume, e os olhos cinzentos expressavam uma frieza que Midge nunca vira.
Ele no perdeu tempo.
- Sente-se, por favor - disse, entregando a ela um envelope.
O corao de Midge se apertou quando ela viu a letra de Becky e o nome da remetente, "sra. Timoty Ross", com o endereo de Menlo Park. Como Becky podia ter feito
aquilo? O desconcertante olhar cinzento a congelava. Brian disse friamente:
- Acho que me deve uma explicao. Por que no me contou que conhecia minha irm?
- Eu  que lhe pergunto - disse ela, tambm friamente: - O que o faz pensar que tem o direito de interceptar a minha correspondncia?
- No fiz isso - disse ele secamente. - Quando cheguei aqui, esta manh... e fui o primeiro a chegar... havia muita correspondncia acumulada na mesa de Lucille
e tratei de ver se havia alguma coisa importante. Logo reconheci a letra de minha irm e pensei que fosse para mim.
- Bem, pelo menos voc no abriu o envelope.
- No costumo abrir a correspondncia dos outros, srta. Boardman afirmou Brian, furioso. - Entretanto, no lhe devo explicaes; voc  que me deve uma. Por que
no me contou que conhecia minha irm?
Midge fechou os olhos por um momento, tentando desesperadamente Pensar no que dizer... at que finalmente resolveu contar a verdade.
49
- No pude.
- Porqu?
- Voc mesmo admitiu que no foi muito simptico comigo. E isso foi verdade, acredite-me! Me fez sentir como uma intrusa. Na verdade, eu havia comprado o jornal
em Catskill e visto o anncio; comecei a achar que poderia ser interessante me candidatar ao emprego e foi o que fiz.
- Mas nesse nterim voc omitiu deliberadamente o fato de conhecer minha
irm...
Midge no conseguia mais suportar aquele olhar cinzento fixo nela. Virou-se e foi at a janela.
- Por que voc sempre faz com que eu me sinta uma espcie de criminosa? Nunca me pergunta nada; sempre me acusa!
No houve resposta. Mas um segundo depois ela se sentiu agarrada por duas mos fortes. Brian a virou to abruptamente que ela perdeu o equilbrio e s no caiu nos
braos dele porque ele a estava segurando.
Midge pde sentir a respirao quente de Brian no rosto e se afastou um pouco. Por um instante as batidas do corao daquele homem pareceram se tornar parte dela,
transmitindo-lhe uma fora enorme que a invadiu como uma onda quase impossvel de ser detida. Alm disso, a respirao irregular e os olhos brilhantes dele indicavam
algo mais forte que raiva; algo turbulento que ela no conseguia definir.
- Droga! - disse ele, a voz atormentada. - No posso ouvi-la quando se afasta dessa maneira! Ser que no entende que precisa falar olhando para mim, para que eu
possa pelo menos tentar entend-la?
- Isso no  justo! - ela respondeu veementemente, observando-o apertar os lbios.
Ele ainda a segurava pelos ombros. Ento, como se impelido por uma fora incontrolvel, inclinou a cabea e procurou-lhe os lbios num beijo que a invadiu de desejo.
Midge percebeu ento que estava apertada contra ele, sentindo na pele cada contorno daquele corpo masculino. Ansiosa, esperou pelo que viria a seguir e foi com surpresa
que o viu afastar-se. Procurou o parapeito da janela para se apoiar, sem entender nada.
- Isso - disse Brian amargamente -, era a ltima coisa que eu pretendia fazer. Sinto muito.
- Deve sentir mesmo! - respondeu ela, furiosa. - Ou ser que 
50
sensvel apenas ao seu prprio problema? Afinal, o fato de ser surdo no
lhe d o direito de usar todos os recursos para esconder isso! E se calou, sentindo que
havia ido longe demais.
- Continue!
- No!
- Voc  mesmo covarde, hein? .- No! No sou!
- Ento me explique de que tipo de recursos eu lano mo... Ela levantou a cabea, o olhar ardente.
- Voc no contou a verdade a Becky. Ele engoliu em seco, ainda furioso.
- No, no contei a Becky. Por razes muito boas, devo acrescentar, e que no lhe interessam. Mas a razo de voc ter vindo aqui sob falsos pretextos me interessa.
Quer explicar-se?
Midge mordeu os lbios.
-  um pedido ou uma ordem?
- No gosto dessa sua ttica de protelar as respostas - ele respondeu friamente. - Est bem, se no quiser explicar por que no queria que eu soubesse que  amiga
de minha irm, talvez me diga pelo menos por que veio at aqui.
- No lhe ocorreu que eu realmente queria sair de Nova York e arrumar um emprego num outro lugar?
- Voc mente muito mal, sabia? Midge o encarou.
- No estou mentindo. Eu queria me afastar de Nova York. Entretanto, se quer que eu v embora, irei!
Enquanto falava, dirigia-se  porta; em seguida, quando sua mo tocou a maaneta, a voz dele a deteve.
- Midge... Eu no entendi o que disse - e quando ela se voltou, perplexa, acrescentou: - Voc  Midge, no ?
- Sim, sou.
- Ento  voc a melhor amiga de minha irm... Por favor, diga-me: por que tudo isso?
Para desespero de Midge, as lgrimas lhe encheram os olhos, mas tentou enxug-las enquanto se sentava ao lado da escrivaninha dele e comeava a falar cuidadosamente:
- Vim porque Becky me pediu.
51
- Voc a viu em San Francisco?
- Sim.
- Ela me escreveu que iria v-la novamente - disse ele. - Desde tempo da Academia Naval eu j ouvia falar em Midge. No liguei o nom Marjorie Boardman ao apelido
Midge. Nem liguei Pembertom Associate com a agncia onde meu cunhado trabalhava, em Nova York, e onde,
Se me lembro corretamente, ele a conheceu e voc o apresentou a Becky.
- O nome da agncia era Anderson-Brent Associates - ela admitiu
- Agora  Anderson-Brent-Pemberton. Chame isso de mentira, Se quiser.
- Vamos dizer que  uma mentirinha, est bem? Oua, Becky realmente lhe pediu para vir at aqui?
- Sim. Ela est preocupada com voc. Queria que eu... o visse. Ele ficou em silncio por um momento, e em seguida falou:
- Ento voc me viu, e devo ter despertado tanto a sua curiosidade que a nica maneira que encontrou de saber mais sobre mim foi arrumar um emprego no meu jornal.
Acertei?
Antes que ela pudesse responder, Brian observou:
- J disse que voc mente muito mal. Por que Becky est preocupada comigo?
Midge perdeu a pacincia.
- Ser que no consegue descobrir? Ela acha que voc est. diferente desde o acidente. E no consegue imaginar o que h.
- E agora voc sabe o que h de diferente - ele afirmou secamente.
- J contou a ela?
- No.
Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Ento falou lentamente:
- Admito que no escrevo a Becky com a frequncia que devia, mas quando tento fazer as coisas parecerem normais...
- Ora, mas voc foi bem-sucedido! Mesmo assim Becky desconfiou que havia alguma coisa.
- Entendo. O que mais minha irm lhe contou a meu respeito?
- Acho que no tem o direito de me perguntar isso.
- Admito que no, mas de qualquer maneira vou perguntar, pois o que disser a Becky  muito importante para mim.- Talvez eu possa ajudar, contando o que acho que
ela deve ter dito a meu respeito. Na certa deve ter mencionado que eu estava no ltimo ano na Academia Naval e que fui
52
a uma festa de fim de semana num chal de praia em Chesapeake Bay.
Cert? Certo.
- Tenho certeza de que ela lhe contou que houve uma exploso em que uma garota morreu e que, embora eu tenha escapado ileso, a minha
carreira estava terminada no que diz respeito  Marinha. Ainda estou
certo?
- Sim.
Quer continuar agora? - ele perguntou com uma indiferena
surpreendente.
- Bem, Becky me contou tambm que, por um longo tempo aps o acidente, voc no lhe escreveu. E que ela tentou lhe telefonar vrias
vezes mas no conseguiu.
Apesar de calmo, ele no conseguiu disfarar a amargura na voz:
- Naquela ocasio eu j no conseguia ouvir, portanto no podia falar ao telefone. Mesmo agora s posso usar um aparelho que tem um amplificador especial. Portanto.
As palavras soaram baixas, amargas, e a palidez que tomou conta do rosto dele a emocionou. Midge mordeu os lbios, comeando a compreender a solido que devia fazer
parte do sofrimento de Brian; a solido que constitua a vida daquele homem.
- Becky no sabia por que no conseguia falar com voc pelo telefone, e as explicaes de seu tio no a satisfizeram. Timmy estava para nascer e mais tarde, com
mais um beb, ela no pde vir at aqui para ver o que havia acontecido - fez uma pausa e prosseguiu: - Ento voc assumiu a editoria do jornal. Nessa poca Becky
estava imaginando se havia ou no ficado seriamente ferido na exploso. Mas de vez em quando apareciam fotografias suas, no jornal, e ela nada constatou de errado...
- Claro, no ? - ele interrompeu, cheio de ironia.
- Da seu tio morreu - continuou Midge, tranquila -, e Becky contou que, pelo testamento dele, para voc herdar alguma coisa teria que passar por uma espcie de
teste, dirigindo o jornal. Parece que este teste est quase no fim, o que aumentou a preocupao dela. Becky fica imaginando como est se saindo, e tem certeza de
que existe alguma coisa errada. Assim me pediu para vir.
- Voc tentou entrar em contato com minha tia?
53
- No. Quando vim para Coxsackie passei pela sua casa, e admito que isso me intimidou. Eu jamais poderia ir at a porta e pedir para
ver a sra. VanderveJt sem marcar
uma visita antes. Foi por isso que resolvi vir at o jornal.
- E ento eu a tratei mal. Bem, suponho que deve achar muito estranho de minha parte esta relutncia em falar a Becky sobre a
minha surdez.
- Sim, acho.
- Ora, ora! Enfm voc est sendo honesta! Mas voltando ao assunto: est bem, admito que no incio foi muito difcil, sabe? No conseguia aceitar o fato de estar
surdo e me sentia... ressentido. Alm disso, no queria piedade. Por parte de Becky ou de qualquer outra pessoa. E ainda no quero -,ele evitou o olhar de Midge,
brincando com a tampa da caneta. - Fiquei no hospital por certo tempo e fui examinado por vrios especialistas, para ver se no havia algo a ser feito. Depois disso
aprendi a ler os lbios das pessoas e tratei de procurar o tipo certo de aparelho para o meu problema. Da tive que me adaptar a ele antes de me sentir pronto para
enfrentar o mundo. Bem, eu no queria ver Becky... e confesso que isso ainda  difcil para mim. Mesmo agora no tenho certeza de poder encar-la quando ela descobrir
que sou surdo, Mas existem outros motivos pelos quais no quero que Becky venha a Coxsackie. So motivos meus e no pretendo revel-los. Mas so importantes, acredite-me
- colocando a caneta sobre a mesa, ele continuou, pensativo: - Eu e Becky sempre fomos muito unidos. Nunca tivemos muitos amigos aqui. Fiquei conhecendo Jerry Mueller,
o policial que lhe apresentei e que  meu melhor amigo. Mas Becky nunca teve amizades em Coxsackie e por isso no foi difcil manter a minha surdez em segredo. A
nica pessoa que se mantm em contato com Becky  minha tia Maude, mas consegui convenc-la a no contar nada a minha irm. Alis, prefiro que voc no v visitar
tia Maude. Ela no est bem.
- No tenho a menor inteno de me intrometer na sua vida.
- Eu no quis dizer isso. Sei tambm que no tenho o direito de perguntar o que vai escrever a Becky, e no existe razo alguma para que voc satisfaa a minha vontade.
A nica coisa que posso lhe dizer  que, se gosta de Becky como sempre pareceu gostar, tente compreender que estou procurando manter minha irm longe daqui pelo
bem dela. Entretanto, voc me fez perceber que no estou sendo justo com ela, e
54
vou tentar me corrigir assim que for possvel. Talvez uma reunio de
famlia no Dia de Ao de Graas resolva o caso.
Est me pedindo para no dizer nada a Becky nesse meio-tempo?
pois pode ficar sossegado: no direi nada - Midge estava com os joelhos
tremulos Tentando aparentar calma, disse: - Suponho que queira o meu edido de demisso.
No, a menos que voc queira. Como j deve ter observado, todos
admiram o seu trabalho, que tem sido excelente. Alm disso existe um erodo de trs meses de experincia. Ficar ou no, Midge, vai depender
apenas de voc.
Midge estava tremendo quando se dirigiu ao departamento de ublicidade. Assim que se sentou  escrivaninha e colocou uma folha de apel na mquina de escrever, Trent
apareceu e perguntou:
- Como foi?
- Tudo bem - disse ela, forando-se a parecer calma. - Era um assunto pessoal.
O olhar de Trent era de descrena, mas ele se virou e voltou  sua sala sem nenhum comentrio. Logo depois chamou Midge para discutir a edio especial e no se
referiu mais a Brian Vandervelt.
Midge trabalhou exaustivamente o dia todo, e somente quando voltou ao hotel, aquela noite, foi que teve oportunidade de ler a carta de Becky.
"Midge, em primeiro lugar sei que nunca devia ter enviado esta carta para o jornal, mas  que estou muito preocupada, principalmente depois que voc arrumou esse
emprego.
"H muito dinheiro envolvido a, e acho que existem pessoas que faro qualquer coisa por ele. No conheo nenhum dos chefes de departamento que ficaro com a herana
caso Brian falhe. Talvez eu os tenha visto algum dia, mas no os reconheceria. Portanto, quando tento separar os viles dos heris, fico sem saber o que fazer.
"Voc no me contou onde est morando, e por isso tive que mandar esta carta para
o jornal. Espero que j possa me contar mais a respeito de Brian, e isso  tudo
que lhe peo. Em outras palavras, gostaria que sasse da.
"Daqui a duas semanas vai fazer dois anos que tio Horace morreu. Se tiver que acontecer alguma coisa, acontecer. J  horrvel ter meu irmo gmeo no meio disso
tudo, e no quero minha melhor amiga envolvida tambm. Alm disso, no h absolutamente nada que voc possa fazer.
55
"Brian deve estar consciente da situao toda. Ele sempre foi Una pessoa astuta; deduzo que ainda seja e que pode tomar conta de si prprio.
"Quanto a voc, Midge, por favor: volte a Nova York e me perdoe por perturbar a sua vida. Escreva-me e conte o que puder.
Escreva-me e conte o que puder.
Parecia um pedido to simples, e no entanto era to incrivelmentf difcil! Midge sabia agora que no poderia contar a Becky sobre a
surdez de Brian. Ele merecia
a oportunidade de explicar isso pessoalmente e, embora em sua opinio j devesse ter-se explicado h muito tempo, podia entender a posio dele. A piedade de Becky
seria bem pior para Brian que a prpria aflio.
Becky saberia compreender por que o irmo mantivera o caso em segredo durante tanto tempo. Midge suspeitava que a surdez fortalecera o carter dele, e estava convicta
de que aquele homem seria capaz de enfrentar qualquer coisa. Na verdade, Brian j passara por tantas que ela duvidava que ainda existisse algum problema que pudesse
atingi-lo.
Sim, com certeza Becky ficaria sabendo que o irmo era um homem de verdade,
correto e justo, muito atraente, extremamente competente, leal e sincero. Demonstrara
isso ao afirmar a amizade por Jerry Mueller e ao ir rapidamente em socorro de Mike. Becky saberia que em nenhuma dessas circunstncias o irmo poderia ser considerado
um homem frio, indiferente, e que merecia que sentissem muito, muito orgulho dele. Havia outra coisa que Becky devia saber: por mais irnico que parecesse, Midge
gostava de trabalhar no Valley Voice. Na verdade gostava muito, e no tinha vontade alguma de voltar para Nova York. Queria ficar durante os trs meses de experincia.
Queria mostrar a Brian que era leal e cumpria a palavra dada.
Foi ento que se lembrou do beijo e do momento catico em que se rendera  fora de uma atrao que agora tentava explicar como algo sem importncia. Disse a si
mesma que aquilo no voltaria a acontecer. Brian deixara bem claro que no se importava nem um pouco se ela ficasse ou fosse embora. Mas no iria lhe dar o prazer
de se demitir. No seria forada a algo que no queria.
Sabia o que faria. Continuaria no hotel, trabalharia no jornal e dali em diante sairia nos fins de semana, iria para Nova York ou visitar amigos em Boston. Ou fugiria
para qualquer lugar onde pudesse, pelo menos por uns dias, ficar livre da presena perturbadora de Brian Vandervelt.
56
mas ainda precisava fazer uma coisa: escrever para Becky. E foi o que fez aps outro jantar solitrio nos Maple.
"Becky, querida:
Assumi o compromisso de ficar trs meses, e gosto do que estou fazendo.
"Em outras palavras: no quero deixar Coxsackie. E pare de se preocupar com seu irmo ou comigo. Brian  um homem muito seguro e certamente se sair bem. Tenho certeza
de que, se alguma coisa estiver errada, ele ser capaz de enfrent-la. Quanto ao jornal, est indo muito bem, e os quatro chefes de departamento parecem trabalhar
em perfeita harmonia com Brian. Acho que voc no tem com que se preocupar.
"Quanto a mim, prefiro deixar as coisas como esto. Pensei em visitar sua tia, mas francamente evitei fazer isso. Ainda existe algo que acho apavorante na manso
Vandervelt.
"Estou morando no hotel dos Prescott e, como planejo ficar aqui s at janeiro, no vou procurar apartamento. Portanto escreva para este endereo.
Midge".
Quando o jornal foi para o prelo, na sexta-feira, Midge trabalhara como nunca.
Depois de tomar um banho no hotel, foi at Catskill, fez algumas compras, jantou num restaurante e foi ao cinema. J eram quase onze horas da noite quando tomou
a estrada de Athens, rumo a Coxsackie. ,
Ao se aproximar da manso Vandervelt, diminuiu a velocidade do carro. Em seguida resolveu parar no acostamento e ficar olhando para o enorme casaro antigo. A silhueta
da casa contra o cu era como uma ilustrao de um romance gtico. Havia algo lgubre ali que a fez estremecer.
Algumas luzes estavam acesas no primeiro andar; o resto se encontrava na mais completa escurido. Ela imaginou qual seria o quarto de Brian. Imaginou tambm em que
parte da manso Maude Vandervelt estaria naquele momento. Becky tambm mencionara empregados, um homem e a esposa: eles morariam na casa ou havia aposentos separados
no quintal?
Era impossvel no ser curiosa, e ela desejou ter coragem para visitar
57
Maude Vandervelt apesar do pedido de Brian. Mas teve a impresso de que, se fizesse isso, ele no hesitaria em despedi-la.
Estava prestes a dar partida no carro e sair dali quando viu, pelo espelho retrovisor, faris que vinham em sua direo numa velocidade atemorizante. Um carro branco
passou a seu lado e em seguida freou bruscamente, bloqueando-lhe o caminho.
Seu corao disparou. Por um momento pensou que fosse ser assaltada mas logo reconheceu o carro de Brian Vandervelt e ficou olhando incrdula, aquele homem se dirigir
a ela.
Midge havia ligado os faris, que iluminavam a expresso furiosa de Brian. Os olhos cinzentos pareciam faiscar de dio.
Antes que ela entendesse o que estava acontecendo, Brian abriu violentamente a porta do carro e a fez sair. Ela comeou a
tremer temendo ser agredida.
- Mas que diabo est fazendo aqui?
A voz furiosa soou alta e por um momento ela no foi capaz de falar Mas, quando o fez, suas palavras saram num jorro:
- Eu estava indo para casa e resolvi parar um pouco para observar a casa.
- Est querendo dizer que decidiu bisbilhotar, no ? Olhe, no posse obrig-la a deixar a cidade, embora pudesse deixar as coisas tc desagradveis que voc no
hesitaria um s momento em partir. No voe permitir que fique me espionando!
As palavras dela saram claras, frias, distintas:
- Pense o que quiser.
E comeou a voltar para o carro, mas imediatamente o brao dele a segurou.
- Maldita! Voc realmente esperava que eu acreditasse que  amiga de Becky? Afinal de contas, o que quer? De que lado est? Do lado de Trent Clayton?
Ela o fitou, perplexa, mas, antes que pudesse falar, Brian acrescentou.
- vou acabar com essa sua expresso inocente!
Ento, num segundo apavorante, ele se aproximou e, quando as mos fortes a seguraram pelos ombros, ela teve a sensao horrvel de que iria ser estrangulada.
Mas, em vez disso, ele a puxou para mais perto, segurando-a pela cintura e procurando-lhe a boca, esmagando seus lbios num beijo
58
quente, intenso. Midge sentiu-se devorada pelo ardor dele; o corpo de
Bran estava to colado ao seu que a masculinidade que ela percebera na
prineira vez que o vira agora se tornava uma coisa tangvel. Era como se ele a tivesse jogado no fogo, tornando sua resistncia uma coisa fraca e
insignificante-
Uma vez mais foi ele quem interrompeu o beijo, e ela s pde notar o
esforo que isso lhe custava. Ficou fitando-a, com os olhos sombrios, o rosto muito plido.
- Acho que eu j disse isso antes: sinto muito. Lgrimas assomaram aos olhos de Midge.
- Sente? - ela repetiu, sarcstica. - Voc no sabe o que  sentir! Me acusou de todo tipo de coisa! Bem, o que est tentando fazer? Por que est to ansioso em
impedir que eu veja sua tia? Isso envolve Becky? Est tentando deixar sua irm fora da herana?
Ele recuou rapidamente, como se tivesse sido atingido por um tapa. Fitou-a em silncio e Midge continuou:
- O que  que h? No me ouviu? Ou no quer ouvir? com voz firme, Brian falou suavemente:
- Sim, eu a ouvi. E vou tentar lembrar que disse isso num momento de descontrole emocional.
Virou-se e foi at o carro. Era um gesto bem significativo, pois Midge sabia que, mesmo que o chamasse agora, ele no a ouviria. No havia mais nada a dizer.
59

CAPTULO VI

Midge levou muito tempo para se acomodar e, quando finalment adormeceu, teve um sono agitado, cheio de pesadelos. Acordou cedo
na manh seguinte, cansada, irritada
e desejando que aquele fosse um dia de trabalho e no uma sexta-feira de descanso. No tinha nada para fazer e alm de tudo, se via diante de um fim de semana vazio.
No queria voltar to cedo a Nova York, e a ideia de visitar amigos em Boston no a atraa. A lembrana do encontro com Brian Vandervel ainda estava muito vvida
em sua mente. No sabia como poderia voltar ao jornal na segunda-feira e se arriscar a v-lo novamente.
O tempo estava bonito, to bonito que s piorava seu estado de esprito, pois no havia ningum com quem repartir tanta beleza.
Ela; nunca se sentira to sozinha.
Passou grande parte do fim de semana explorando a regio de Albany, pois a capital do Estado de Nova Yort no ficava muito longe de Coxsackie. Descobriu que a cidade
fora fundada em 1624 por holandeses que falavam francs e por escoceses alemes, noruegueses e dinamarqueses.
Aproveitou para visitar Cherry Hill, que pertencera  famlia Van Rensselaer at o incio dos anos de 1960. A maravilhosa residncia ainda continha muitos dos mveis
originais, porcelana chinesa, prataria, documentos e retratos da famlia. Midge se viu procurando olhos cinzentos e cabelos loiros, lisos, nos retratos, pois Kiliaen
Van Rensselaer poderia ter sido antepassado de Brian. Decidiu ento, no sbado  tarde sair um pouco e dar um passeio ao sol, para tentar tirar a imagem de Brian
Vandervelt do pensamento.
Sentia-se melhor quando voltou para o hotel. Chegara  concluso de
60
que a nica coisa que poderia fazer era ir ao jornal na manh seguinte,
como sempre, e torcer para no encontrar Brian Vandervelt. Se isso
acontecesse, tentaria
aguentar o mau humor dele.
Mas essa disposio durou pouco. Quando abriu a porta do quarto, parou, confusa.
A televiso estava fora de lugar e a tela, toda riscada de vermelho, lembrando sangue. Uma folha de papel em cima do aparelho continha as seguintes palavras, tambm
escritas em vermelho: "Caia fora enquanto  tempo".
Midge sentou-se na beira da cama, tremendo. No sabia como explicar aquilo, e a primeira coisa que imaginou foi como  que algum poderia ter entrado ali. Mas logo
descobriu. A janela do banheiro, que dava para a parte de trs do hotel, estava aberta.
Ainda trmula, Midge umedeceu uma toalha e comeou a esfregar a tela. Depois de terminar a limpeza sentou-se novamente, deu um suspiro profundo e pegou a lista telefnica
de Coxsackie.
Assim que encontrou o nmero de Horace Vandervelt, discou, esperando ansiosamente que atendessem. Uma voz feminina atendeu ao terceiro toque.
- Residncia dos Vandervelt - disse ela, e Midge concluiu que deveria ser a velha governanta que Becky mencionara.
Foi preciso reunir toda a fora de vontade que possua para que sua voz permanecesse firme.
- Gostaria de falar com o sr. Brian Vandervelt, por favor.
- Ele no est.
- Sabe onde posso encontr-lo?
- Ele deve estar no jornal. Quer deixar recado?
- No, obrigada. Entrarei em contato com ele mais tarde.
Ela no perdeu tempo. Dobrou o recado escrito em vermelho, colocou-o na bolsa e, depois de pegar o automvel, foi imediatamente para o jornal. O carro de Brian estava
estacionado l.
Midge nem se preocupou em bater  porta. Foi diretamente at ele que, ao v-la, se levantou.
- Midge! - disse, e parecia satisfeito em v-la. - Tentei falar com voc vrias vezes, na sexta-feira; depois passei pelo hotel, mas a sra. Prescott disse que voc
tinha sado.
61
- Da deixou um recado, no foi? - ela acusou, tirando o bilhete da bolsa, abrindo-o e colocando-o  frente dele.
Brian o pegou e franziu a testa ao l-lo.
- Onde encontrou isto?
- No se lembra de onde o deixou? Ele a fitou, plido.
- Voc acredita mesmo que eu tenha algo a ver com isso?
- Quem mais poderia ter? - ela perguntou friamente. - Voc  a nica pessoa que gostaria de me ver longe de Coxsackie. Digamos que tem um certo interesse em me
assustar.
- Eu? Est tirando concluses erradas, Midge.
- Estou? Bem, parece que voc tambm tirou concluses erradas. Principalmente naquela noite, quando me encontrou em frente  manso.
- Eu estava tentando entrar em contato com voc para me desculpar. Sinto muito,-muito mesmo, o que aconteceu.
- Se lhe serve de consolo, tenho uma bela marca no pulso, por exemplo, e di como o diabo.
Falando com cuidado, como se tentando manter o controle, ele disse:
- Talvez possa imaginar como isso me faz sentir.
- No consigo imaginar como qualquer coisa o faa sentir-se - ela retrucou. - No acho que sinta as coisas como os outros sentem.
- Voc parece estar dizendo que o meu... problema... me tornou demente. Perturbado a ponto de deixar um bilhete ameaador como este
- disse ele, balanando o papel com desdm.
- No acho que isso tenha algo a ver com a sua surdez - disse ela impetuosamente. - S tem a ver com voc. Voc ...
- Sou o qu?
- Arrogante, autocrata, teimoso - ela comeou a falar e, para sua surpresa, ele sorriu.
- Est bem, suponho que sou todas essas coisas e mais algumas. Mas no sou criana a ponto de fazer uma brincadeira estpida dessas. Onde voc encontrou este bilhete?
Na sua escrivaninha?
- No. No meu quarto, em cima da televiso. Algum se deu ao trabalho de pular a janela do banheiro para deixar o bilhete l e riscar a tela.
Brian ergueu as sobrancelhas, incrdulo.
- Isso no faz sentido! J falou com a sra. Prescott?
- Ainda no. Mas acho que se tivesse desconfiado de qualquer coisa, tentaria me avisar- vou falar com ela, e acredito que essa ser uma Bpssima surpresa. Encontrei
o bilhete assim que voltei de Albany, esta tarde. Tentei lhe telefonar.
Novamente ele esboou um sorriso.
- Porque eu era o principal suspeito, no ?
- Sim - ela admitiu, comeando a enrubescer. - Eu no podia pensar em mais ningum.
- Nem eu. No consigo imaginar uma razo para que algum queira v-la longe de Coxsackie. Voc no est envolvida nos problemas dos Vandervelt, e
qualquer um que
estivesse preocupado com eles saberia disso. Contudo, quando algum se d ao trabalho de pular uma janela para deixar uma mensagem desta, podemos consider-la uma
ameaa definitiva; e posso falar com autoridade sobre isso porque tenho recebido ameaas h algum tempo.
- Srio?
Ele encolheu os ombros.
- No sei quanto voc conhece do testamento de meu tio, mas basta dizer que, se eu morrer antes do dia primeiro de novembro, algumas pessoas se beneficiaro do fato.
No ouso dizer que algum deles tentaria algo contra mim pelo dinheiro, mas tm acontecido coisas estranhas, como todos sabemos. Portanto, quando ocorre algo como
aquela caixa de metal que quase me atingiu na cabea, fico imaginando se foi acidente ou no.
Ela o fitou, os olhos arregalados.
- Voc acha que algum estava tentando mat-lo?
- No. Acho que foi acidente, e assim tambm pensa Fritz Handel, em quem confio plenamente. Contudo uma situao dessas cria um ambiente desagradvel. Admito que
vivo com um p na frente e outro atrs. Pode-se at ficar paranico.
Midge sentiu o corao se apertar. Brian era capaz de se defender, sabia disso, mas tambm sabia que passava grande parte do tempo sozinho. Seria fcil planejar
um "acidente" contra ele, e mais fcil ainda porque a surdez agia a favor dos inimigos.
Ele a observava curiosamente e perguntou:
- Em que est pensando?
- Nada, nada... Mas oua: ser que-algum no devia ficar com voc at que este... perodo experimental esteja acabado?
63
Ele ergueu novamente as sobrancelhas, mas dessa vez com ironia.
- Est dizendo que acha que preciso de um guarda-costas?
- No. Estou dizendo apenas que devia haver algum...
- Algum que possa ouvir e saber se corro perigo? Midge mordeu o lbio.
- Desculpe-me.
;- No precisa se preocupar - disse ele, e ainda havia ironia em sua voz. - Mas aprecio essa sua preocupao.
- Brjan...
Era a primeira vez que Midge o chamava pelo nome, e ele percebeu isso. Muito pouca coisa passava despercebida a ele, e s vezes isso criava problemas.
- Vamos voltar ao bilhete - disse Brian. - vou entreg-lo a Jerry Mueller.
- Est bem.
- Fico satisfeito por ter concordado. E no esquea de contar tudo  sra, Prescott. Acho que seria aconselhvel voc se mudar para outro quarto.
- Oh, vamos, no  to grave assim.
- Estou falando srio, Midge. Acredite ou no, nada tenho a ver com este bilhete, e no consigo entender por que algum se daria ao trabalho de fazer uma coisa dessas.
Entretanto, j que foi feito,  porque deve ter havido algum motivo.
Ele a observou intensamente e prosseguiu:
- Voc  muito atraente, sabe? - Midge enrubesceu. - Talvez algum tenha se apaixonado e prefira v-la longe da cidade a no ter o seu amor. Quero que prometa tomar
cuidado.
- Muito bem - disse ela, sentindo-se como se tivesse sido relegada  condio de uma colegial. - vou ser cuidadosa.
- vou falar com a sra. Prescott. E vamos ver o que Jerry sugere.  noite eu lhe telefonarei. Ou talvez voc possa vir mais cedo, amanh.
- Muito bem. Combinado. , Brian parecia frio e indiferente a maior parte do tempo. No entanto
Midge tinha certeza de que ele, no fundo, no era assim.
Ela desejava que ele se esquecesse de tudo, exceto de que naquele momento se encontravam sozinhos. Gostaria que a tomasse nos braos, e a este pensamento estremeceu.
Brian perguntou, ento:
64
- O que h, Midge?
Nada - respondeu ela, depressa. - Acho que  melhor ir embora.
- vou acompanh-la at o carro. No quero que fique andando sozinha por a, ainda mais agora. Midge... Ela podia sentir o corao batendo mais rpido.
- Sim?
- Quanto quela noite...
- No precisa mais falar nisso.
- Acho que preciso. No posso censur-la pelo que pensa de mim da maneira como me comportei.
- Voc estava bbado.
- No, no estava. Talvez fosse melhor se estivesse, pois assim poderia usar isso como desculpa. Acontece que nas noites de sexta-feira o clube costuma dar jantares.
Foi tio Horace quem o organizou. Ele era o presidente, e quando morreu fui eleito para substitu-lo. Francamente, as sexta-feiras so um inferno para mim. Raramente
posso entender o que as pessoas dizem, e isso me deixa muito tenso. A semana passada sa de l com uma horrvel dor de cabea e parei no caminho para tomar um drinque.
Foi apenas um copo, mas tenho certeza de que voc pensou que havia sido uma garrafa inteira.
- Sim, foi o que pensei.
- Bem, eu estava sbrio. Sbrio mas muito cansado, e com uma dor de cabea tremenda. Parecia que algum estava martelando a minha cabea. Quando vi o seu carro estacionado
perto da minha casa, perdi o controle. Admito que fiquei furioso. Imaginei que voc estivesse, me desafiando de propsito, bisbilhotando onde no tinha nada que
bisbilhotar. Acho que pensei que fosse espi de Becky e isso me irritou, porque eu no podia acreditar que minha irm quisesse que voc fosse onde no era desejada.
Isso magoou. Magoou tanto que teria sido muito fcil deixar que as lgrimas sassem, mas Midge estava determinada a no chorar diante dele.
com voz insegura, admitiu:
- Acho que no sou desejada desde que vim para Coxsackie.
- Talvez sim. Percebo que foi Becky quem meteu voc nisso tudo, mas na sexta-feira pensei que a sua prpria curiosidade a tinha levado longe demais. No posso censurar
minha irm. Acho que a culpa 
65
minha, por ter tentado mante-la longe disso at este negcio do testamento estar resolvido... Apenas para o caso de algum
estar motivado pela perspectiva de uma grande
herana, querer fazer coisas que nem gosto de pensar. Mas o que me deixou louco da vida na
sexta-feira foi imaginar que voc estivesse bisbilhotando por conta prpria,
e devo admitir que ultimamente ando bastante desconfiado. Se eu pudesse ouvir o que se passa  minha volta, talvez fosse diferente. Mas do jeito que ... Bem, acho
que j falamos muito sobre isso. Peo desculpas novamente.
- Est bem, aceito o seu pedido de desculpas. E tambm peo desculpas pelas coisas horrveis que lhe disse.
- Muito bem - ele parecia satisfeito. - Estamos quites, ento?
Ela concordou com um aceno de cabea, pois se falasse correria o risco de dizer que no estavam quites de maneira alguma. Embora ele no percebesse, Midge estava
sob seu poder.
"Eu me apaixonei", pensou ela. "Por mais incrvel que isso possa parecer, eu me apaixonei. Como  que algum pode se apaixonar to depressa e com tanta intensidade?"
Brian deu a volta  escrivaninha e perguntou:
- Vamos?
Ela tentou no falar, pois sabia que no seria ouvida. Quando chegaram ao carro, ele recomendou:
- Olhe... por favor, tome cuidado. Fale com a sra. Prescott. E, se for sair para comer alguma coisa, v e volte diretamente, est bem?
Inclinou-se e deu-lhe um beijo to terno, to breve, ainda que expressivo, que Midge ficou perplexa.
"Oh, Becky, Becky", ela pensou, "veja s o que me fez quando me convenceu a vir para Coxsackie!"
A sra. Prescott ficou assustada quando soube da invaso e do bilhete. Ela e o marido concordaram em que Midge devia se mudar para outro quarto, mais prximo dos
aposentos deles.
- Nunca aconteceu uma coisa dessa antes - a sra. Prescott se queixou, o rosto perturbado.
Depois de mostrar a Midge o novo quarto, que tinha uma porta de ligao com os aposentos dela, convidou-a para jantar.
- Temos uma filha da sua idade, sabe? - disse Bob Prescott. - Ela se casou e mora em Georgia. Portanto no a vemos muito.
66
Eles haviam entrado numa cozinha amarela e branca, muito limpa, e a sra. Prescott disse:
- Bob, sirva-nos um copo de vinho enquanto eu arrumo as coisas -
ento se dirigiu a Midge: - Sim, nossa filha tem mais ou menos a mesma
idade de Brian Vandervelt e da irm gmea dele, e estava na mesma
classe de Grace De Wilt, a garota com quem Brian ia se casar. Quando
Grace terminou o ginsio, entretanto, foi mandada para um colgio
particular. Depois disso ela e a nossa Jenny quase no se viram mais. No
sei o que deu na cabea de Grace. Ela deu o fora nele.
- Em Brian Vandervelt?
- Sim. Eles iam se casar quando ele se formasse na Academia Naval, mas o acidente mudou tudo. O casamento teve que ser adiado. Adiado indefinidamente, foi o que
disseram na poca. E, assim que Grace descobriu que Brian iria ficar surdo, fugiu com um homem de Albany, muito mais velho que ela, mas rico. Entretanto j fiquei
sabendo que o
casamento deles no vai bem.
- Eles moram aqui?
- Moram do outro lado de Albany.
Ento, para piorar ainda mais as coisas, Brian fora abandonado pela noiva! Midge deplorou aquela atitude, embora pudesse ver o outro lado da moeda, no que dizia
respeito a Grace De Witt. De acordo com Becky, Brian estava com outra garota no chal de Chesapeake Bay quando o acidente aconteceu. Nestas circunstncias, ningum
podia culpar Grace pelo que fez. Que decepo devia ter sido descobrir que o homem com quem iria se casar dentro de poucas semanas estava tendo um encontro amoroso
com outra...
Depois do jantar, enquanto Bob Prescott ia assistir televiso, Midge i: insistiu em ajudar a sra. Prescott com a loua, e a mulher ficou muito contente por ter com
quem conversar.
- A direo de um hotel deixa a gente muito presa, sabe? s vezes acho que, se Brian Vandervelt no fosse o tipo de pessoa que , eu diria a Bob que gostaria
de largar tudo isso e arrumar um lugarzinho para ns. Confusa, Midge perguntou:
- O que  que Brian tem a ver com isso?
- Bem, ele  o dono deste hotel. Bob e eu apenas tomamos conta. O
67
tio de Brian comprou-o h alguns anos; ele estava sempre investindo em propriedades. Voc vai ver que os Vandervelt tm muitas coisas por aqui.
Surpresa, Midge terminou de arrumar a cozinha, despediu-se dos Fresco foi para seu quarto. J ia tomar um banho quando o telefone tocou.
Ela ficou gelada. Ser que era o autor do bilhete?
Atendeu ao terceiro toque, a voz tremendo levemente ao dizer:
- Alo?
- Dora me disse que voc estava a - disse Brian Vandervelt. -. Voc j ia dormir?
- No, ainda no.
- Midge, est tudo bem?
- Pelo menos por enquanto...
- Conversei com Jerry e ele vai mandar o bilhete para ser analisado no laboratrio da polcia estadual, mas no h muita esperana de haver pistas no resultado.
O papel e a tinta so comuns, podem ser comprados em qualquer parte. E  pouco provvel que haja impresses digitais de valor nessa altura dos acontecimentos, porque
muita gente j manipulou o papel. Voc no conhece mais ningum por aqui que no tenha mencionado, conhece?
- Naturalmente que no!
- No precisa ficar to zangada. Apenas imaginei se no teria outra razo para ter vindo a Coxsackie.
- Suponho que esteja pensando num homem, certo?
- Sim, acho que sim. Esse bilhete poderia ter sido obra de algum enciumado.
- Por favor, Brian. Que maluquice!
- Voc est certa, acho que estou indo longe demais. E quanto ao homem de Nova York, aquele que a levou a desistir do emprego?
- Em primeiro lugar, ele no me levou a desistir do emprego. Pedi demisso porque achei que seria difcil para ns dois se continussemos a trabalhar juntos. Devo
acrescentar que ele ficar satisfeito em me ter de volta a qualquer hora.
- Entendo.
- Entende? No tenho muita certeza disso. De qualquer maneira, posso assegurar que ele no se daria ao trabalho de dirigir cento e tantos quilmetros para pular
a janela do meu banheiro e deixar um bilhete ameaador. John  muito sofisticado para uma coisa dessas.
68
. Entendo. Voc ainda o ama?
Ela no esperava por isso.
- O qu?
- Perguntei se ainda o ama.
- Voc tem que saber tudo sobre todo mundo? Por que tenho que lhe dizer? Isso lhe interessa?
- Se quer dizer que o caso me interessa como seu patro, a resposta  no. Mas voltando ao bilhete: Jerry acha que pode ter sido uma brincadeira de mau gosto. Mesmo
assim tome muito cuidado, Midge. Nos prximos dias, at Jerry dar uma investigada por a, fique perto do hotel ou do jornal, est bem?
- No sou criana, Brian. Ele riu, divertido.
- No ? Tem certeza?
Midge pensou que, com um telefone especial, como o que Brian devia estar usando naquele momento, ele podia ouvir muito bem.. Podia at imagin-lo no outro lado da
linha, a cabea loira levemente inclinada, o queixo altivo... Umedeceu os lbios. Lembrou que tinha ainda uns dois meses e pouco de trabalho no Voice e isso a preocupava.
Como poderia suportar ficar to perto e ao mesmo tempo to longe de Brian Vandervelt durante todo aquele tempo?
As provas tipogrficas da edio especial estavam sobre a mesa de Midge na segunda-feira de manh. Trent Clayton esperou que ela chegasse e se aproximou para examin-las.
Enquanto folheavam as pginas, Midge disse, animada:
- Adorei o jeito como Ellen fez estes gatos pretos. Eles parecem ter vida! Por falar nisso... onde est Ellen?
- Ela est doente - respondeu Ciem Thorne. - Dor de garganta ou algo parecido.
- Quero que leve um conjunto destas provas, Ciem - disse Trent. Talvez consiga vender mais alguma coisa. O texto de Midge est brilhante
- todos j haviam descoberto o apelido e agora o usavam.
Ele colocara a mo no ombro dela enquanto falava, segurando-a com um ar de posse.
- No sei o que faramos sem voc - disse suavemente, com os lbios muito prximos ao ouvido de Midge.
69
Mas a rudeza da voz que veio da porta fez com que ambos erguessem a cabea como crianas pegas no meio da travessura.
- com licena - disse Brian, fitando-os friamente.
Midge sentiu-se enrubescer e mordeu o lbio, sabendo que esse gesto significava a confisso de uma culpa que no existia. Afinal de contas no havia motivo algum
Para se sentir culpada.
Ouviu a voz de Trent:
- Precisa de mim, Brian?
- No. Quero falar com a srta. Boardman. Venha para o saguo, por favor.
Ela o seguiu, notando o olhar surpreso de Lucille Mueller quando passaram pela mesa de recepo. Notou tambm que Lucille parecia bastante plida, tensa,
como se tivesse alguma coisa em mente.
Brian a levou at as Brandes janelas que davam para a rua principal e fez um sinal para que se sentasse.
Midge sentou-se, consciente do descontentamento dele. Sabia muito bem qual era o motivo de estarem ali, embora fosse ridculo:
Brian preferia que os funcionrios se limitassem
ao trabalho durante as horas de servio, e a pequena cena que presenciara entre ela e Trent lhe
pareceria ntima demais. Entretanto, dizer-lhe isso s daria ao episdio
mais importncia do que merecia. Portanto ela cruzou os braos, fitou-o e
ficou esperando.
Ele tambm se sentou
- Conversei com Jerry esta manh. Como espervamos, nada encontraram de importante no bilhete. Jerry me pediu para lhe perguntar se existe algum por aqui que talvez
no goste de voc.
Midge pensou um pouco e sacudiu a cabea.
- Ellen ficou um pouco ressentida no incio. Pelo menos era o que parecia. Mas trabalhamos muito bem juntas e cada vez nos damos melhor. No posso dizer que sou
amiga de Ciem, mas ele  muito quieto; o que me surpreende, pois geralmente os vendedores no so reservados.
- E Trent? - ento sorriu com ironia. - Acho que nem preciso lhe perguntar isso. Vocs pafecem se dar muito bem.
- Trent e eu estvamos vendo as provas,para a edio especial quando voc chegou. Nada mais.
-  mesmo?
- Claro! Que mais poderia ser?
70
- Voc se encontra com ele fora do jornal? Aquilo era demais!
- No acho que voc tenha alguma coisa a ver com isso - disse ela temente, e tomou a deciso de aceitar o prximo convite de Trent.
- Tenho, sim, se o que os meus empregados fazem comea a interferir no trabalho deles.
- Est querendo dizer que o meu relacionamento com Trent est interferindo no meu trabalho?
- Ah, ento existe um relacionamento! Midge se irritou.
- Brian Vandervelt, voc agora passou dos limites! S porque  dono de quase tudo por aqui no pense que pode dominar as pessoas!
Ele lhe observava atentamente os lbios, o que significava que no ' estava confiando apenas no aparelho de surdez; queria ter certeza de compreender o que ela dizia.
Isso indicava que, o que quer que Midge tivesse a dizer, era realmente importante para ele, o que a surpreendeu. Havia momentos em que Brian ficava to insuportavelmente
seguro que parecia no se importar com o que qualquer pessoa no mundo falasse ou pensasse.
- Suponho que voc j tenha descoberto que a minha famlia  proprietria do hotel, entre outras coisas. Mas isso nada tem a ver com .a atual situao, Midge. Eu
nunca imaginaria dominar voc, em nenhum sentido.
- No?
- No, e no adianta continuar com esse assunto. Pense um pouco, e se chegar a alguma concluso que possa ser ltil a Jerry, sugiro que telefone diretamente
a ele. Lucille pode lhe dar o nmero. Depois disso ele se levantou, acenou com a cabea e voltou para o escritrio. Midge se sentiu miservel enquanto o observava.
Novamente ele lhe havia dado as costas; novamente havia encerrado o assunto sem lhe dar sequer a chance de retrucar, de tentar penetrar no muro invisvel que o cercava.
71

CAPTULO VII

Midge trabalhou bastante durante a semana que se seguiu. Havia muito que fazer, por causa da edio especial.
Quando Trent sugeriu que tomassem um drinque juntos, depois que o jornal ficou pronto, na quinta-feira  tarde, Midge aceitou.
Enquanto atravessavam o saguo rumo  sada, ela pensou que seria timo se Brian Vandervelt a estivesse observando; queria desafi-lo, contrari-lo, e sair com Trent
Clayton era motivo mais que suficiente para isso.
Alis, Lucille Mueller tambm parecia desaprovar aquilo. Havia uma expresso estranha nos encantadores olhos escuros dela quando os fitou.
Midge pensou que fossem ao Murphy's, como da outra vez, mas Trent tinha outros planos.
- H um lugar novo perto da auto-estrada. Chama-se Flamingo e ouvi dizer que  muito bom. Existe um barzinho ao lado do restaurante
que parece ser excelente. Portanto,
se tivermos fome, poderemos jantar.
Ela notou que Trent estava sendo discreto e gentil porque queria conquistar-lhe a confiana. Bem, pois dessa vez ela o surpreenderia.
A questo imediata de Midge era o que fazer com o carro, estacionado perto do jornal. Trent sugeriu que ela o deixasse ali mesmo.
- Posso lev-la para casa e amanh cedo passo para peg-la. Que tal? Ela concordou, embora sabendo que Trent criaria problemas se
resolvesse entrar no hotel. Mas depois percebeu que isso no aconteceria se se despedisse dele no
saguo. Trent no faria coisa alguma sob o olhar atento de Dora
Prescott.
72
O Flamingo era um lugar encantador. Trent era agradvel, muito agradvel. Procurava manter animada a conversa, falando bastante sobre
si mesmo, sobre a infncia numa
fazenda em Illinois, o colgio e depois o primeiro emprego como publicitrio numa cidade perto de onde morava, ais tarde passou uns tempos numa agncia em Chicago
e, quando ela demonstrou surpresa por ele ter deixado uma cidade to grande
ara viver num lugar to pequeno como Coxsackie, Trent sorriu
melancolicamente e disse:
- Eu tambm estava tentando esquecer um romance desfeito, Midge.
O meu caso, entretanto, foi um casamento. Ns nos casamos logo depois
que terminamos o colegial e no deu certo. No foi culpa dela, nem
minha. Um engano mtuo, isso  tudo.
- Vocs tiveram filhos?
- No, ainda bem. Por um bom tempo eu no consegui pensar em
casamento novamente, mas j estou comeando a reconsiderar a ideia.
Ele no continuou o assunto, mas Midge teve certeza de que tinha algo
a ver com aquela mudana de opinio, e isto era algo que no desejava.
Seria tolice encorajar Trent, especialmente porque a principal razo
para isso era irritar Brian. Comeou a se arrepender por ter concordado em sair com ele. Mas ento lhe ocorreu que podia ver as coisas sob outro ngulo. Trent era
um dos chefes de departamento do jornal, um dos quatro que receberiam a herana caso Brian falhasse. Devia saber muita
coisa sobre o testamento, o perodo experimental e todo o resto. Ento...
Ento comeou a falar, com cautela:
- H quanto tempo voc est no Valley Voice, Trent?
- Quatro anos.
- Ento conheceu Horace Vandervelt, no conheceu?
- Sim, foi ele quem me contratou. Por qu? Voc parece surpresa.
- E estou. Pensei que Brian tivesse feito isso, pois voc  o mais novo dos chefes de departamento.
-  verdade, mas Horace no era avesso a novas pessoas e ideias, apesar do que possa ter ouvido a respeito dele. Era um velho obstinado, com quem era muito difcil
trabalhar. Eu sempre tinha a sensao de que me cortaria a cabea se a publicidade no desse bons resultados. Ele planejava transformar o Valley Voice num jornal
dirio, mas nunca fazia
73
as coisas num repente; analisava tudo para ter certeza de que daria certo. E morreu antes de ver esse sonho transformado em realidade.
- Brian j estava no jornal quando voc veio para c?
- No. Ele veio logo depois. Foi diretamente para a redao. Parece que, quando estudante, Brian trabalhou em alguns jornais. Acho que  por isso que escreve to
bem. Voc deve saber que  ele quem redige os editoriais; no ano passado ganhou um prmio por isso. Acho que Mike Stabler o influenciou muito: desde garoto Brian
vem aprendendo com ele. Sabe, apesar dos problemas que tem, Stabler  um jornalista de primeira classe.
- Brian voltou ao jornal como reprter? Trent sacudiu a cabea.
- No. Ele se tornou assistente do tio, e eu diria que tem justificado a confiana que Horace depositou nele.  justo com os funcionrios e uma pessoa mais fcil
de se lidar se comparado ao tio. Admiro a maneira como mantm o controle, apesar da tenso por causa do testamento.
Ela fingiu-se de inocente.
- O que  que tem o testamento?
- Bem... se no fosse por Brian Vandervelt, eu seria um homem muito rico a partir do dia primeiro de novembro. Abe Weissman, Wilson Strathmore e Fritz Handel tambm.
Se Brian tivesse se sado mal nos negcios nesses dois ltimos anos, ns quatro herdaramos o jornal, mais algumas propriedades do imprio Vandervelt, no fim deste
ms. Mas ele se saiu muito bem. Pediu a nossa cooperao desde o incio, o que foi uma atitude de muito bom senso. Entretanto, h mais uma coisa sobre o testamento.
-  mesmo? O qu?
- Caso Brian no esteja vivo na manh de primeiro de novembro, ns quatro receberemos a herana.
- Que coisa horrvel!
- Eu no a culpo por ficar to chocada.  realmente algo terrvel, pior que a ma no jardim do den. Tentao.  uma coisa vil, diablica, corrosiva. No podemos
censurar Brian Valdervelt se ele ficar pensando que estamos torcendo para que quebre o pescoo antes do fim do ms.
Ela respirou profundamente.
74
- E voc est torcendo para que isso acontea?
Seria imaginao ou havia mesmo algo estranho nos olhos de Trent? (ilesmo assim ele falou com cuidado, sem demonstrar qualquer sinal de ter sido ofendido:
- Acho que posso falar em meu nome, e no nome dos outros chefes de departamento, quando digo que no desejamos nenhum mal a Brian. Tambm no gostamos dessa situao.
Suponha que lhe acontea alguma coisa; cada um de ns seria suspeito e, mesmo que fssemos inocentes, como  que poderamos trabalhar juntos depois? Seria como se
o tivssemos assassinado pelo desejo...
Ela estremeceu e Trent assegurou:
- No se preocupe, Midge. No vai acontecer nada a Vandervelt. Ele  inteligente, cuidadoso e tem o controle completo da situao. Quanto a ns, como j lhe disse,
estamos satisfeitos em ter cooperado para o sucesso do jornal aps a morte de Horace. Brian nos explicou a situao, foi muito franco a respeito de tudo, e nos ofereceu
uma boa participao nos lucros para que fizssemos o Voice progredir nestes dois anos.  verdade que essa participao no se compara ao que poderamos herdar,
mas  mais dinheiro do que provavelmente ganharamos num ano e preferimos que seja assim. Dessa forma poderemos viver em paz com nossas conscincias. Bem, mas chega
de falar em negcios. Vamos jantar?
Midge se viu tentada a recusar, mas mudou de ideia. Por que no jantar com Trent, afinal de contas? No era nada agradvel ir comer sozinha nos Maple.
Conversaram sobre vrios assuntos e riram muito durante o jantar. Midge percebeu que era muito bom estar com algum, e Trent podia ser uma excelente companhia.
Ficaram em silncio enquanto se dirigiam ao hotel e, ao chegarem, o beijo de Trent foi quase fraternal, o que a surpreendeu. Midge foi sincera quando o agradeceu
pela noite, e ele respondeu, alegre:
- Vamos repeti-la, ento. No havia motivo para dizer no.
Por isso, na sexta-feira, Trent foi busc-la exatamente s oito e meia, como havia combinado.
75
Foram tomar caf juntos nos Maple e Midge desejou fervorosamente que Brian no resolvesse aparecer por l, como fizera na semana anterior.
Ele no apareceu. Mas, quando estavam saindo, um carro da polcia estacionou e Midge viu Jerry Mueller ao volante. Ele desceu e se aproximou do automvel de Trent,
parando junto  janela de Midge.
- Pensei em entrar em contato com voc, mas estes ltimos dias tm sido muito ocupados - disse ele. - De qualquer maneira, imagino que Brian esteja alerta.
- Sim, ele est.
- Olhe, s voc se lembrar de alguma coisa me telefone, est bem? Midge prometeu que telefonaria e em seguida fechou o vidro, sabendo
que seria impossvel impedir as perguntas de Trent. E no se enganou.
- O que est acontecendo, Midge?
- Nada importante. No se preocupe.
O olhar de Trent era sarcstico, e ela no podia culp-lo por isso Entretanto, ele limitou-se a comentar:
- Mueller e Vandervelt parecem ser muito amigos.
- Se no me engano, os dois se conhecem desde crianas.
-  mesmo? Ento voc sabe mais do que eu a respeito deles - o tom de Trent era curioso.
- No sei muito, Trent - ela respondeu, um tanto enfastiada. Acho que ningum sabe muito a respeito de Brian Vandervelt -
procurou mudar de assunto. - Olhe, voc
precisa ir ao jornal hoje, no ?
- No, se voc puder pensar em alguma coisa para fazermos.
- Prefiro trabalhar. Preciso rever uns textos.
- Midge, voc no est trabalhando para o New York Times!
- No importa. Gosto de dar o melhor de mim onde quer que esteja trabalhando.
Ele a deixou  porta do Valley Voice. Ela entrou devagar, cumprimentou Luclle e se dirigiu  sua sala. No havia ningum l. Midge sentou-se e comeou a trabalhar.
Logo depois algum bateu. Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu e Brian Vandervelt entrou.
Ele a fitou to intensamente que Midge ficou vermelha e sem graa. Em seguida enfiou a mo no bolso da cala e tirou um pedao de papel, que entregou sem uma palavra.
76
Consternada, ela viu que era uma multa.
- Foi multada por deixar o carro estacionado l fora a noite. Por que fez isso?
- Porque me pareceu a coisa mais simples a ser feita. Ele ergueu as sobrancelhas. - Voc foi a p at o hotel?
- Sabe muito bem que no. Mas o que  isso, um interrogatrio? - Tenho o direito de fazer algumas perguntas, Midge, quando um funcionrio deixa o carro l fora
a noite toda - disse ele com firmeza. Como  que a polcia ia saber o que lhe aconteceu? Como  que eu ia saber? Passei pelo hotel depois que o sargento Dolan me
avisou, mas Dora disse que voc j havia sado e que Trent Clayton tinha ido busc-la.
- Todo mundo  espio nesta cidade, ?
- Voc passou a noite com ele? Ela se levantou, furiosa.
- Se tivesse passado, o problema seria meu! Eu nunca lhe diria!
- Talvez fosse melhor dizer. Se passou a noite com Clayton, pode considerar o seu emprego no Valley Voice acabado!
Ela o fitou.
- Essa  a coisa mais ridcula que j ouvi!
- Eu no me preocupo nem um pouco com a sua opinio.
- Oh, eu sei! Voc no se preocupa com a opinio de ningum, esta  que  a verdade! Bem, se a sra. Prescott me viu saindo com Trent esta
manh, ela certamente pode
lhe dizer se estive ou no no hotel esta noite.
- Ela no estava vigiando voc - disse Brian, de maneira cansada.
- Acontece que viu o carro de Trent saindo. O que voc faz ou deixa de
fazer no interessa  maioria das pessoas.
- Ento por que interessa a voc?
- Porque voc  funcionria deste jornal e exijo um certo cdigo moral entre as pessoas que trabalham para mim. O que voc faz longe de Coxsackie no me diz respeito,
mas esta  uma cidade pequena e no vejo motivo para escndalos.
- Est com medo de perder a sua preciosa herana?
- Isso nada tem a ver com a minha herana - disse ele tranquilamente. -No faa dramas, Midge. Diga-me por que deixou o carro l fora a noite toda. Onde esteve?
77
Midge olhou para ele e teve a sensao de ter sido condenada por u m juiz impiedoso que chegara a um veredito por conta prpria. Bem, se era isso que ele queria,
assim ia ser!
- Descubra sozinho - ela desafiou. - Nunca lhe direi. Se isso significar a minha demisso, pode ir em frente!
Deu-lhe as costas e tentou sair, mas ele a segurou pelo brao.
- Solte-me!
- Midge...
- Solte-me!
- vou soltar, espere um minuto. Olhe, eu...
Ela sacudiu a cabea, determinada a no ouvi-lo, obcecada em tentar convencer a si prpria de que o odiava mais do que tudo na vida. Mas era difcil, se no impossvel,
acabar to violentamente com as emoes quando o homem envolvido nelas era Brian Vandervelt. Midge lutou para se livrar dele; no queria encar-lo, pois sabia que
assim lhe revelaria sua fraqueza.
- Midge, voc esteve com Trent a noite toda?
- Acreditaria em mim, no importa o que eu dissesse? No, no acreditaria. Deixe-me ir, Brian. Voc no precisa me despedir. Eu peo demisso.
Foi um dia horrvel. Midge parou num supermercado, no caminho de volta ao hotel, e comprou po, queijo, presunto e leite. Fez um sanduche na hora do almoo, outro
no jantar e passou o resto do dia tentando ler.
No sbado, acordou com o barulho da chuva no telhado. O dia estava sombrio e ela desistiu de passar o fim de semana em Boston, como planejara. Queria retirar as
palavras "eu peo demisso", que havia jogado no rosto de Brian no auge da discusso. Contudo, j as dissera e no estava disposta a se humilhar, pedindo a Brian
que as esquecesse.
Na verdade os dois haviam ido longe demais. Quando ela e Brian se zangavam um com o outro, no conseguiam agir com bom senso.
Suspirou, vestiu a capa e resolveu ir at os Maple, almoar. Pegou o carro e saiu.
Em seguida tudo aconteceu to rapidamente que ela nunca poderia se
78
lembrar nitidamente dos detalhes. Viu um automvel branco surgido no sabe de onde, que vinha velozmente em sua direo, forando-a a sair
da pista. Lutou para controlar
seu carro, ao ver as rvores  sua frente, e
procurou desesperadamente se desviar delas, indo cair numa valeta.
Foi a ltima coisa que sentiu.
79

CAPITULO VIII

A luz azul se moveu em crculo, uma safira brilhante na escurido. Midge ouviu vozes e teve conscincia de vagas formas se inclinando sobre ela.
Algum disse:
- Ela est abrindo os olhos. Em seguida outra pessoa falou:
- Aqui est o mdico - e ela sentiu que mos delicadas a tocavam.
- Como est a nossa paciente? - perguntou uma terceira voz, que parecia angustiada.
Mdge teve certeza de que quem estava falando era Brian, e no podia entender por que parecia to aflito se fora ele quem havia provocado o acidente.
Ela se moveu, tentando afastar aquele pensamento, e tentou falar. Mas as palavras no saram e algum disse:
- A est a ambulncia.
Ela no queria uma ambulncia. Tentou dizer isso, mas novamente as palavras no saram. Sentiu dores fortes ao ser colocada na maca. Virou a cabea e, ironicamente,
uma nica coisa apareceu diante de seus olhos: o carro esporte branco, estacionado ali perto.
Brian, Brian... Por que ele faria uma coisa to horrvel?
Este simples pensamento comeou a lhe dar nuseas. Ento, misericordiosamente, a escurido veio de novo, descendo como uma cortina de veludo bem-vinda.
Quando recuperou a conscincia, Midge estava num leito de hospital.
80
ainda que seu corpo todo doesse, ela descobriu que podia se mover,
abriu os olhos devagar, e algum a seu lado chamou, ansiosamente: Midge?
Ela fechou os olhos outra vez. No podia olhar para ele. M- Midge...
Brian estendeu a mo para toc-la, mas Midge se encolheu e ele recuou. Ela ento o fitou, hesitando diante da agonia nos olhos dele.
- Voc pensa que fui o culpado pelo acidente, no ?
- No sei o que pensar. Estou muito confusa. Mas mesmo assim... No, no acho que voc tenha tentado me fazer sofrer um acidente. Brian...
Estendeu a mo, mas Brian havia se virado. Ela percebeu ento que devia ter falado inutilmente.
- vou procurar Jerry - disse, e saiu do quarto.
Jerry Mueller,  paisana, apareceu imediatamente, perguntando:
- Ei, o que h com Brian?
- Pensa que eu acho que foi ele que provocou o acidente. E no comeo achei. Mas...
- Oh, no! No pode estar falando srio! Santo Deus, j no basta o que ele est passando... - Jerry fez uma pausa. - Desculpe-me. Voc tambm passou por um mau
pedao. Mas, para tranquiliz-la, devo dizer que Brian estava comigo.
Midge engoliu em seco.
- No que me diz respeito, ele no precisa de um libi.
- Bem, mas de qualquer maneira vou lhe explicar tudo. Brian, Lucille e eu planejamos jantar nos Maple e estvamos indo para l quando passamos pelo local do acidente.
Brian reconheceu o seu carro imediatamente. A polcia j estava l e havia chamado meu tio, que  mdico. Pegaram o rapaz que provocou o acidente alguns quilmetros
 frente. Ele estava dirigindo em alta velocidade e foi detido por outro policial. Ainda havia um pouco da pintura do seu carro no dele; portanto no h dvida de
que foi o tal moo quem causou o acidente.
Midge se recostou nos travesseiros e fechou os olhos. As lgrimas comearam a fluir; ela no podia impedi-las.
- Srta. Boardman, por favor, no chore.
Ela enxugou os olhos, mas as lgrimas continuaram.
- Sinto-me to horrvel a respeito disso tudo! - disse, soluando. -
81
Brian j tem tantos problemas! Admito que fiquei horrorizada ao ver o carro branco, pois pensei que fosse o dele, mas assim que recuperei
o bom senso...
- Olhe, isso  compreensvel! Agora vamos, pare de chorar.
- No posso. Brian no merecia isso. Realmente no merecia! Voc acha que pode ir procur-lo?
- Sim, num minuto. E oua: voc teve sorte. Meu tio disse que no h nenhum ferimento grave, mas existem algumas escoriaes. Ele quer que voc passe a noite aqui,
apenas por precauo. Mais tarde a polcia vir para lhe fazer perguntas. Enquanto isso, existe alguma coisa que Lucille e eu possamos fazer por voc?
- No, obrigada.
- Midge, no se recrimine. Voc viu um carro, branco atingindo o seu e mais tarde o automvel de Brian estacionado no local. Era natural que pensasse que foi ele
o culpado.
As lgrimas estavam comeando a correr novamente.
- No precisa procurar desculpas para mim, Jerry.
- No estou procurando, e gostaria de v-la se acalmar e descansar um pouco.
- Eu estou bem, obrigada.
- No sei... - Jerry sacudiu a cabea. - Se meu tio no fosse mdico e se eu no fosse policial, provavelmente teriam impedido a minha entrada aqui. E eu a cansei
demais. Olhe, vou procurar a enfermeira; tenho certeza de que meu tio deixou instrues para lhe darem alguma coisa para dormir.
- No me preocupo com isso. E quanto a Brian?
- Eu o encontrarei - Jerry prometeu, e sorriu. - J o encontrei vrias vezes antes. Agora no se recrimine tanto.
O sedativo logo fez efeito e Midge dormiu profundamente. J amanhecera quando ela acordou, e estava sentindo dores, como previra o mdico. Mas a dor fsica que sentia
nada significava comparada a outra dor, que estava alm da cincia mdica.
Logo depois um policial veio lhe falar, e ela respondeu s perguntas rotineiras.
O dr. Mueller chegou depois que o policial saiu. Disse-lhe que receberia alta  tarde se prometesse repousar. Acrescentou que devia ir ao
82
onsultrio dele para um exame completo na quarta-feira pela manh. At
a ela no deveria voltar ao servio.
Quanto ao carro, ficara imprestvel. Midge estava proibida de dirigir at quarta-feira, quando seria examinada de novo. Mas no devia se preocupar: parecia que iria
receber outro carro na tera-feira. Neste meio-tempo...
O dr. Mueller sorriu quase que conspiradoramente.
- Acho - disse ele - que devemos deixar que a sra. Vandervelt lhe fale sobre isso.
Midge ficou tensa, mas no havia como escapar. Maude Vandervelt entrou no quarto.
Era -uma mulher pequena, rolia e muito simples. Sua figura empertigada estava envolta num conjunto de l marrom e os cabelos grisalhos presos num
coque, Brilhantes
reluziam nas orelhas e nos dedos dela. A sra. Vandervelt se aproximou com as mos estendidas; havia alguma coisa quase vida no cumprimento dela.
- Midge! Mal consigo acreditar! A nossa Becky fala sobre voc h anos!
Sentou-se numa cadeira ao lado da cama e em seguida observou, com um olhar aprovador:
- Becky disse que voc era bonita, mas eu no esperava encontrar uma moa assim to linda! - Depois sorriu e fingiu-se brava: - Foi muito feio de sua parte no
me ter procurado assim que chegou a Coxsackie. Brian disse que voc est morando no hotel, mas acho que devia ter ido nos procurar. No entanto no estou aqui para
lhe passar um sermo; talvez mais tarde, mas no agora! Prometi a Herman Mueller que me calaria at voc estar completamente boa. Mais tarde, muito mais tarde, poderemos
conversar sobre isso. O principal agora  que voc v para casa conosco.
Midge olhou para ela, incrdula.
- Sra. Vandervelt - ela comeou a falar -, no est sugerindo que eu v para a sua casa, est?
- No, no estou sugerindo - disse Maude Vandervelt, alegre. Estou insistindo. Na verdade - acrescentou, parecendo muito satisfeita -, Herman Mueller a deixou sob
os meus cuidados.
Apesar da cabea dolorida, Midge sentou-se rapidamente.
83
- No posso. Quer dizer, no posso ir para a sua casa. Seu sobrinho nunca concordaria.
- Ao contrrio: foi Brian quem sugeriu. Agora vamos, minha cara; voc vai se vestir e vamos sair daqui. tom est nos esperando l fora com
o carro.
Um Rolls-Royce cor de vinho estava estacionado na entrada do hospital. tom abriu a porta e, depois que viu que Midge estava bem acomodada no banco traseiro, ajudou
a sra. Vandervelt a sentar-se.
- Vamos para casa, tom - insistiu a velha senhora, - Depois voc pode ir buscar as coisas da srta. Boardman no hotel. Dora Prescott prometeu arrumar tudo.
Midge pensou novamente em protestar, mas acabou desistindo. O acidente a afetara mais do que imaginara, embora no houvesse ferimentos graves. Sentia-se entorpecida
fsica e emocionalmente.
Parecia inacreditvel que Brian tivesse sugerido que a sra, Vandervelt a levasse para casa quando deixara bem claro, antes, que no queria que ela entrasse em contato
com a tia. Parecia tambm impossvel que a sra. Vandervelt j soubesse de sua existncia.
Midge arriscou timidamente:
- Sra. Vandervelt... tem certeza de que seu sobrinho est sabendo disso?
- Naturalmente! E, afinal de contas, no h motivo algum para que voc no fique conosco. Aquela velha casa  muito grande para mim e para Brian. Est nos prestando
um favor, querida.
- Mas seu sobrinho...
- No se preocupe com Brian. Ele sempre se isola. No  de muita conversa, como j deve ter notado. E mora na torre.
- Na torre?
- Sim.  um lugar confortvel, mas muito isolado.  assim que ele prefere - os olhos de Maude Vandervelt estavam tristes. - No que haja qualquer problema entre
ns, embora eu ache que nunca fomos to amigos quanto devssemos. Meu marido e eu j estvamos bem maduros quando Brian e Becky entraram nas nossas vidas, e Horace
era um homem cheio de hbitos. A algazarra das crianas o irritava. Foi por isso que Becky e Brian foram mandados para o colgio, e nas frias passavam a maior parte
do tempo fora de casa. Eram muito alegres, sabe? Sempre
84
desejei ter feito mais por eles. De qualquer forma, agora  tarde demais. Antes do acidente eu ainda podia conversar com Brian, mas agora ele se fecha e se isola
- ento ela sorriu, esperanosa. - Talvez, se ficar conosco, voc consiga transform-lo.
Chegaram  manso e tom ajudou-a a sair do carro. Midge descobriu, horrorizada, que seus joelhos estavam to trmulos que andar era difcil. Cambaleou.
Tom a segurou
pelo brao, e Maude Vandervelt disse:
- Cuidado agora, querida. - Aproximaram-se da porta macia, que foi aberta por uma mulher pequena e magra, com um uniforme preto impecvel.
- Clara - disse Maude, alegre -, esta  Midge Boardman. Ela encontrou Becky recentemente, portanto, assim que se sentir mais forte, poder nos contar tudo. No 
maravilhoso?
Clara concordou.
- , sim! - disse sorrindo.
- Clara sempre adorou Becky - contou Maude. - Bem, minha filha, eu gostaria que tomasse um xerez comigo, mas Herman Mueller me fez prometer que a levaria diretamente
para o quarto.
:- Acho que ser melhor mesmo. Estou me sentindo fraca. Maude virou-se para a governanta:
- Clara, voc e tom podem ajudar Midge a subir?
- Naturalmente, senhora.
- Ento eu a verei mais tarde. Descanse, querida.
Amparada por tom e Clara, Midge subiu a escada. Enquanto caminhava devagar, pde ver outra escada que levava ao terceiro andar. Devia ser por ali que se chegava
 torre.
- Agora eu posso lev-la, tom - disse Clara quando chegaram l em cima. - Por que no vai at o hotel buscar as coisas da srta. Boardman?
- Est bem.
- A sra. Vandervelt mandou preparar a sute principal para voc informou Clara, enquanto levava Midge para a parte da frente da casa.
Ela ficou desolada ante a ideia de ocupar os aposentos outrora pertencentes a Horace Vandervelt e protestou:
- A sra. Vandervelt no devia ter feito isso.
- Oh, ela no ocupa mais aquele quarto. Est vivendo l em baixo desde a morte do sr. Vandervelt. Brian transformou duas grandes salas
85
num apartamento s para ela. O corao da sra. Vandervelt no est muito bom e o dr. Mueller pediu que evitasse ao mximo a,escada. O choque causado pela morte do
sr. Vandervelt acabou com ela.
- Ele morreu de repente?
- De repente? Eu que o diga! - e apontou para a escada que tinham acabado de subir. - Ele caiu dali e quebrou o pescoo!
Midge estremeceu.
- Que horror!
- Foi mesmo - admitiu Clara. - Aconteceu exatamente h dois anos. Ele tinha voltado de uma reunio na cidade e subiu para trocar de roupa. A sra. Vandervelt estava
na biblioteca, vendo televiso, como sempre fazia quando ele estava fora. Quando o ouviu entrar desligou o aparelho, pois o sr. Vandervelt no suportava televiso.
E j ia preparar uma bebida quando ouviu o barulho.
- Brian estava aqui?
- Sim, mas no ouviu nada. Quando est naquela torre, fica com o aparelho de surdez desligado. tom e eu estvamos jantando na cozinha quando a sra. Vandervelt gritou.
Quando Brian desceu, pediu para tom chamar o mdico, mas j era tarde.
Nesse momento Clara abriu uma porta e anunciou:
- Bem, aqui estamos.
Midge entrou num quarto em estilo vitoriano. Tudo ali ressaltava o pior do que havia sido uma poca desagradvel, na melhor das hipteses.
Em seguida Clara lhe mostrou o banheiro, cuja decorao combinava com a do quarto.
- A sra. Vandervelt quer que se sinta em casa - disse a governanta. Havia uma camisola de cetim azul sobre uma das cadeiras e ela falou: Agora vista isso. A sra.
Vandervelt achou que lhe serviria.
Midge trocou de roupa; Clara disse que iria deix-la descansar e que, se precisasse de alguma coisa, devia apertar a campainha ao lado da cama.
- Obrigada, Clara.
A governanta parou junto  porta.
- Srta. Midge, estou muito contente por ter vindo ficar conosco.
Quando Midge acordou j estava escuro. Tocou a campainha e logo Clara chegou, com uma bandeja
com sopa e pezinhos quentes. tom veio junto, trazendo suas coisas.
86
Ela se alimentou, tirou a camisola e vestiu outra, que lhe pertencia, e dormiu novamente. Quando
tornou a acordar, j era dia. . Midge se mexeu e viu que as dores
haviam diminudo. Resolveu ento procurar a cozinha.
Depois de se vestir com um pouco de dificuldade, desceu a escada com cuidado e, uma vez no andar trreo, dirigiu-se para os fundos da casa, onde achava que devia
ficar a cozinha.
E ficava mesmo. Era um lugar grande e, ao contrrio do resto da casa, claro e alegre. Embora o equipamento no fosse moderno, servia perfeitamente. Havia um grande
fogo e uma geladeira enorme. Clara estava parada na frente do fogo, mexendo alguma coisa numa panela imensa. Ela se virou quando notou Midge e no conseguiu reprimir
um rpido sorriso, mas disse, com ar reprovador:
- Voc devia ter-me chamado. No havia necessidade de vir at aqui.
- Estou tima. Apenas um pouco dolorida, mas no vejo por que continuar na cama. vou comer um pouco, pois j deve estar quase na hora do almoo.
- So dez e meia. A sra. Vandervelt j foi  reunio do clube de jardinagem;  praticamente o nico lugar-onde vai atualmente. Deve almoar com as amigas, mas achou
que voc iria ficar repousando e pediu para lhe dizer que a ver na hora do jantar.
Serviu Midge e prosseguiu:
- Agora, se me der licena, vou chamar Brian. Ele pediu que o avisasse assim que voc acordasse.
- No precisa incomod-lo. Ele deve estar em reunio. Hoje  segunda-feira, se no perdi a noo do tempo.
Clara sacudiu a cabea.
- Ele j esteve na reunio. Voltou e vai trabalhar aqui, hoje.
- Aqui?
- Sim. s vezes prefere fazer o servio em casa; h uma escrivaninha na biblioteca. Ele diz que aqui no h tantas interrupes, e assim pode trabalhar melhor.
- Ento no o interrompa agora. De qualquer maneira, acho que vou voltar ao meu quarto assim que acabar de
tomar o caf. Voc e a sra. Vandervelt esto certas: acho
que devo repousar hoje.
Clara inclinou a cabea para o lado, o olhar astuto.
87
- Voc est se sentindo bem? Talvez Brian deva chamar o dr. Mueller.
- Oh, no  necessrio. Estou me sentindo muito bem. Pensei at em dar um passeio. O dia est to bonito!
- timo, ento - disse Clara, acrescentando, com ar sbio: - Brian no iria gostar se eu no o interrompesse desta vez!
88

CAPTULO IX

Midge compreendeu que no havia como deter Clara. Pensou em escapar antes que a governanta voltasse, mas isso no iria adiantar nada. Mais cedo ou mais tarde teria
que enfrentar Brian.
Ouviu passos e ergueu a cabea. Viu-o entrar na cozinha, usando uma cala jeans desbotada e uma blusa amarela. Aqueles trajes o faziam parecer mais novo, mas, quando
Midge o observou com maior ateno, viu que a fadiga deixara sombras profundas ao redor daqueles olhos sempre to frios.
Ento sentiu uma fraqueza, algo que deixou suas pernas bambas, e se viu sem saber o que falar. O que poderia dizer aps aquela ltima, dramtica discusso que haviam
tido?
Alm disso, no tinha muita certeza de quanto tempo poderia ficar a ss com ele para esclarecer tudo. Meio sem jeito, murmurou:
- Onde est Clara?
- Foi fazer compras com tom. Mas deixou caf para ns dois. Voc toma mais um pouco, no toma?
- Sim, tomo. Obrigada.
Enquanto ele enchia as xcaras, Midge ficou observando-lhe as mos. Eram bonitas, com dedos longos e finos, como as mos de um pianista. Ela j sabia que podiam
ser ardentes ou muito ternas, e engoliu em seco ao se lembrar do toque dele, das emoes traioeiras que aquele homem lhe despertava to facilmente.
- Clara deve ter lhe contado que minha tia est numa reunio do clube de jardinagem - ele comeou a falar. - Ela nunca gostou muito de atividades sociais, a no
ser as do tempo do meu tio, que eram
89
obrigatrias. Mas a jardinagem  algo que ela parece mesmo apreciar, e o dr. Mueller no se ope a que participe disso.
Brian estava falando mais rapidamente do que o usual, e Midge compreendeu que ele tambm no estava  vontade. Estendeu a mo para pegar a xcara mas tremia tanto
que derrubou o caf sobre a mesa.
Brian pegou um pano e num instante limpou tudo. Tornou a encher a xcara, mas Midge no queria mais saber do caf. Percebeu que ia chorar e que no havia como impedir
isso. Virou-se para o lado da janela, para esconder as lgrimas. Mas Brian aproximou-se na mesma hora e a encarou.
- Oh, Brian, como fui tola! O que voc no deve estar pensando de mim! Sinto muito, muito mesmo!
Ele segurou-lhe o queixo com delicadeza, dizendo baixinho:
- No precisa se desculpar, Midge.
Ela sacudiu a cabea, incapaz de falar e de reprimir as lgrimas. Sem perceber, aninhou-se nos braos dele, soluando.
- Querida Midge... - disse Brian, num tom muito suave. - Olhe, no tenho nem um leno comigo. Vai ter que se contentar com um guardanapo de papel.
Mas, em vez de lhe dar o guardanapo, manteve-a bem junto ao corpo por um longo momento. Midge sentiu que havia uma espcie de comunho entre eles; uma troca de carinho
e de energia. Ento ele a soltou lentamente.
- Voc passou por uma pssima experincia e ainda est abalada. Sente-se, vamos tomar um pouco de caf quente.
Ela aquiesceu, pois estava mesmo abalada.
Ele se sentou do outro lado da mesa e, sem olhar para ela, disse:
- Olhe, no tem que se desculpar. Desta vez a culpa foi minha. Eu no a ouvi no hospital, e Jerry depois me contou que voc tentou me dizer que eu estava errado...
- Sim, voc estava. E tentei mesmo lhe dizer isso. Mas voc me deu as costas e saiu.
Ela no conseguia olhar para ele. As lgrimas no paravam de rolar por seu rosto abatido.
- Pelo amor de Deus, no chore mais. Oua, Midge, est tudo acabado, voc est bem e  isso que importa. Quando vi o seu carro na valeta...
90
Por um momento a voz dele pareceu insegura. Ento a firmeza voltou:
- No adianta ficar pensando nisso - havia tanta determinao naquele tom que Midge teve certeza de que o momento de intimidade tinha passado. - Acho que voc deve
voltar para o seu quarto e descansar. Quanto a mim, vou tentar continuar o meu editorial.
Ela concordou, indiferente, pois sabia que seu corao no iria deix-lo. No, seu corao estava com aquele homem; parecia ter-se tornado parte dele. Sentia-se
ligada por um elo forte e invisvel  vida de Brian Vandervelt, apesar do olhar distante que ele lhe dirigia agora.
Brian havia desenvolvido uma capacidade incomum de se afastar das pessoas. Uma capacidade de buscar refgio no prprio mundo silencioso. E quanto fazia isso costumava
deixar claro que naquele mundo no havia lugar para mais ningum. Midge imaginou, desanimada, se haveria alguma forma de entrar na fortaleza que ele criara.
- O que h, Midge? Alguma coisa errada?
Pronto. Ele a flagrava de novo no ato de observ-lo com aquele ar de sonho, devaneio. Enrubesceu e tentou encontrar um assunto que lhe disfarasse o embarao.
- Eu estava apenas pensando... Bem, sua tia me contou que foi voc quem sugeriu que eu viesse para c.
- E  verdade. De certa forma, agora me sinto responsvel por voc. Midge notou que a voz dele soou indiferente; no havia sinal de
, contentamento naquela afirmao, nem existia calor ou nfase. Isso a i frustrou um pouco, e ela logo retrucou:
- No existe motivo algum para que se sinta responsvel por mim.
- Ao contrrio, h, sim. Voc veio para c a pedido de minha irm, e agora o seu carro est destrudo. Graas a Deus no ficou gravemente ferida e...
- Voc nada teve a ver com isso.
- Eu sei que no. Entretanto, voc recebeu uma espcie de aviso para deixar Coxsackie, naquele bilhete. Quando penso nisso, acho que devia ter insistido para que
sasse do hotel e viesse para c.
- Voc no est pensando que o bilhete tem alguma coisa a ver com o acidente, est?
- No, no estou. No entanto a polcia vai verificar tudo para esclarecer o caso. Jerry me adiantou que o rapaz que provocou o acidente
91
estava bbado. Portanto, no parece haver motivo para pensar que foi algo planejado.
- E o bilhete?
- Ainda acho que foi uma brincadeira de mau gosto. Contudo, tenho que levar em considerao o fato de que o perodo experimental do testamento est chegando ao
fim e algum por aqui pode pensar que, pelo fato de ser amiga de Becky, voc tambm est envolvida na herana. De qualquer maneira,  melhor no correr riscos. Prefiro
t-la segura na minha casa.
Ele hesitou um pouco, mas em seguida acrescentou:
- Existe outra razo para t-la aqui, Midge. Talvez uma razo egosta de minha parte. Minha tia est sem nimo desde a morte de tio Horace. Exceto pelas reunies
do clube de jardinagem, uma vez por semana, ela  muito sozinha.  verdade que o seu corao no anda muito bom, o que a faz perder as energias facilmente, mas no
 s isso. Tia Maude viveu tantos anos  sombra de meu-tio que no  fcil se acostumar  ideia de que agora pode fazer tudo que quiser. Tio Horace era uma espcie
de tirano. Acho que Becky j lhe falou sobre isso.
- Sim, falou um pouco.
- Acho que far bem a tia Maude ter algum jovem por perto e... bem, algum que converse com ela - Brian hesitou um pouco, em seguida acrescentou calmamente: - Sei
que no sou boa companhia.
Ele a observava to atentamente que Midge podia sentir aqueles olhos cinzentos em seus lbios.
- Voc fica? Ela o fitou e disse:
- Por enquanto sim. Mais tarde voc pode mudar de ideia sobre a minha estadia aqui.
Brian esboou um sorriso.
-  mais fcil voc mudar de ideia, sabia? - voltou a ficar srio. Tenho que trabalhar no editorial. Que tal ir descansar um pouco?
Midge olhou pela janela da cozinha e viu um gramado verde que contrastava vivamente com o cu azul. Perguntou, ansiosa:
- Voc acha que sua tia se importaria se eu desse uma volta l fora?  to bonito! Honestamente, acho que um pouco de ar fresco e sol s me faro bem.
- Concordo. Ento vou com voc.
92
- Mas voc tem o que fazer! Ele encolheu os ombros.
- Aquilo pode esperar mais um pouco. Vamos.
Depois de darem uma volta pelo jardim e pelo pomar, chegaram a um mirante. Por um longo momento Midge ficou olhando para o rio Hudson e suas margens, onde os carvalhos
estavam prontos para enfrentar o outono. Uma brisa suave balanava as folhas das rvores e em algum lugar um pssaro cantava. Ela suspirou.
- Que lindo!
Ento se virou, surpreendendo uma expresso to triste nos olhos de Brian que ficou desolada.
- Eu nunca vi nada to bonito!
Ele meneou a cabea, no rosto a mscara fria novamente, os olhos cinzentos sombrios.
- Sim, eu sei - respondeu, e Midge teve a impresso de que ele se encontrava a quilmetros de distncia.
Quase desesperada, suplicou:
- Brian, por favor, no faa isso! Ele ficou surpreso.
- No fazer o que, Midge?
- No se retraia desse jeito! Percebi que voc no tinha ouvido o que eu disse e por isso repeti. O que h de errado?
- No h nada errado nisso. E o problema no era com voc, era comigo. Por um momento eu... eu esqueci que era surdo... Ento voc me deu as costas e o sonho acabou
- deu-lhe uma palmadinha na mo, tentando sorrir. - Vamos at a margem. Quero lhe mostrar uma coisa.
De mos dadas, eles foram at uma pequena praia de areia escura que ficava atrs de um pequeno bosque.
- Becky e eu costumvamos vir nadar aqui. Escondidos - o olhar dele era travesso.
- Ela me contou. Ele riu.
- Um dia tio Horace descobriu e ficou furioso. Acho que pensou que estvamos nuas.
- Podemos descer at l?
-  melhor no. Voc deve se fortalecer antes. Mais tarde, talvez.
93
Mais tarde. Havia esperana naquelas palavras.
Assim que chegaram  casa, Midge foi descansar. Estava exausta por causa do passeio e no protestou quando Clara lhe trouxe o almoo no quarto. Passou a maior parte
da tarde dormindo.
s seis horas desceu para encontrar Maude Vandervelt e tomar um copo de xerez antes do jantar.
Clara trouxe a bebida e Maude a serviu com cuidado em belos copos de cristal.
- Suponho que seja antiquado de minha parte, mas gosto de um copo de xerez antes do jantar.
Midge experimentou a bebida e em seguida respondeu:
-  excelente!
- Obrigada, querida. Essa foi uma coisa que aprendi com meu marido: apreciar bons vinhos.
A lareira estava acesa. Midge se recostou na cadeira e ficou observando as chamas, enquanto esperava que Maude continuasse a conversa.
- Desculpe-me por t-la abandonado esta manh, querida. Mas Clara contou que Brian tomou conta de voc.
- Sim, ele foi muito bondoso.
- - O clube de jardinagem tinha uma demonstrao especial, um perito em ikebana. Eu no podia faltar.
- Ikebana?
- A arte japonesa de fazer arranjos de flores. Estive tomando umas aulas.
Midge mal pde disfarar o sorriso; no podia imaginar duas coisas mais diferentes no mundo que a decorao da sala de estar da sra. Vandervelt e um clssico arranjo
de flores japons.
Brian jantou com elas. Parecia distrado e se levantou assim que terminou, pedindo desculpas. Logo depois Midge o ouviu subindo a escada.
Foi at a biblioteca com Maude e as duas ficaram vendo televiso por algum tempo.
- Est na hora de eu me deitar, querida, mas se quiser pode continuar aqui.
- Acho que tambm vou me deitar. Posso levar um livro?
- Pegue o que quiser - e fez um carinho no rosto de Midge,
94
acrescentando: -  maravilhoso ter voc aqui - e, quando ela se virou, Midge viu que estava com os olhos cheios de lgrimas.
Virou-se para uma das estantes e escolheu O Vermelho e o Negro, de Stendhal, que sempre tivera vontade de ler. Ento viu uma enciclopdia na prateleira inferior,
pegou o volume da letra S e procurou o verbete "surdez".
Havia muita coisa a respeito e ela decidiu que em outra ocasio leria tudo. Ento um subttulo lhe chamou a ateno: "Problemas do surdo". Devorou o primeiro pargrafo:
"Embora o homem tenha percorrido um caminho longo e tortuoso desde a era pr-crist no que diz respeito  compreenso do problema da surdez, grande parte da sociedade
ainda considera o surdo uma pessoa dependente. Como o defeito no  to visvel como o de um cego ou de um mutilado, o surdo frequentemente se v em situaes embaraosas
e humilhantes, porque os outros no compreendem seus problemas".
Midge lembrou que, naquela manh, Brian dissera que por um momento havia esquecido que era surdo. Mas que o sonho tinha acabado quando ela se virara.
"No devo fazer isso de novo", pensou. "Nunca mais vou lhe dar as costas. Nunca mais."
95

CAPTULO X

O tempo estava lindo. Tera-feira foi outro belo dia de outubro, e Midge acordou depois das nove. Raramente dormia at to tarde.
Vestiu uma cala bege e um suter cor de laranja. Estava ansiosa por sair um pouco, caminhar, explorar as redondezas, e gostaria de encontrar um meio de convidar
Brian para ir junto. Mas na certa ele j havia ido para o jornal.
Clara estava na cozinha.
- Bem, desta vez voc dormiu bastante, hein?
- Pois veja s! Nunca fico na cama at esta hora!
- Foi bom para voc. Espere, vou lhe servir o caf.
Enquanto o tomava, Midge ficou observando Clara se movimentar agilmente pela cozinha, tagarelando sobre vrias coisas. Maude Vandervelt, contou, sempre ficava na
cama pelo menos at o meio-dia, ou at mais tarde. Tinha um aparelho de televiso no quarto e parecia contente em assistir aos programas por horas a fio. Geralmente
combinava o caf da manh e o almoo numa nica refeio, que Clara lhe levava ao quarto.
- Ela diz que  melhor para o corao - a governanta prosseguiu -, mas no concordo com isso. Parece-me que o melhor seria que fizesse um pouco de exerccio. Entretanto,
eu e tom achamos que devemos satisfazer todas as vontades dela. A coitada nem podia respirar sozinha quando ele estava vivo!
Ele. Horace Vandervelt novamente. tom e Clara pareciam nunca ter gostado dele; na verdade, davam a impresso de ter ficado com a famlia aquele tempo todo apenas
pelo bem de Maude.
96
- Depois que o sr. Vandervelt morreu, arranjamos um interfone Clara explicou. - Se ela precisar de ns a qualquer hora da noite, s ter que apertar um boto. Ficamos
um pouco mais tranquilos depois que Brian colocou este aparelho.
Midge estava louca de vontade de descobrir tudo que pudesse a respeito de Brian, da tia dele e da manso. Clara, naturalmente, era uma valiosa fonte de informaes,
mas infelizmente logo mudou de assunto, passando a falar sobre os planos para o Dia de Ao de Graas e o Natal.
- Gostaria que Becky e a famlia viessem para c nas frias - disse ela, esperanosa. - Ainda no consigo imaginar Becky com dois filhos, sabe? Gostaria de v-los
aqui.
- Brian mencionou qualquer coisa sobre reunir a famlia no Dia de Ao de Graas - Midge se aventurou a dizer, e viu Clara arregalar os olhos.
- Oh, ele falou mesmo isso?
- Clara, talvez seja melhor no contar que eu lhe disse. Pode ser que ele no goste. Quero dizer, no sei se j tomou uma deciso e... Clara sorriu de forma conspiradora.
- Minha boca  um tmulo! - prometeu, com um largo sorriso. Midge passou a manh sozinha e sentiu-se contente quando Clara
avisou que havia algum ao telefone querendo lhe falar.
- Midge! - disse Trent Clayton do outro lado da linha. - Meu Deus, como voc est? Vandervelt acabou de me contar que j est em p novamente. Tentei falar com voc
ontem, mas a governanta contou que estava descansando...
Clara no havia dado o recado. Talvez tivesse esquecido.
- Estou bem, Trent. Por mim, teria ido ao jornal hoje, mas tenho uma consulta com o mdico esta tarde e ele no est disposto a me deixar voltar ao trabalho antes
de me examinar.
- Ento pode ser que volte amanh?
- Espero que sim - disse ela, rindo. - O tempo no passa quando a gente no faz nada, no ?
- E para mim os minutos parecem horas - disse ele. - Para piorar as coisas, no posso deixar de sentir que a esto mantendo prisioneira a nesta casa horrvel.
- De maneira alguma, Trent. Voc est enganado.
97
- Talvez esteja. Mas voc podia ter voltado ao hotel depois que saiu do hospital, no podia?
- Bem, Brianpensou...
- Oh, claro! - interrompeu Trent, e Midge no gostou do cinismo na voz dele. - Tenho certeza de que Brian pensou numa poro de coisas. Oua, vamos jantar juntos
amanh?
- Honestamente, no posso assumir compromisso algum antes de ver o mdico - ela procurou se esquivar. - Ele disse que sofri uma leve concusso e quer que eu repouse
durante alguns dias.
- Est bem, querida - Trent respondeu, com uma risada melanclica. - Suponho que terei de esperar pelo diagnstico, ento. Entretanto, espero poder v-la amanh.
- Eu tambm!
A consulta estava marcada para o comeo da tarde, no consultrio do dr. Mueller, em Coxsackie. Midge tinha certeza de que tom a levaria, embora, ela se lembrava,
algum - talvez Jerry - tivesse mencionado que haveria um- carro  sua disposio. Se esse carro chegasse em tempo, talvez pudesse ir dirigindo.
Para sua surpresa, contudo, ao voltar de um pequeno passeio antes do almoo, viu Brian abrindo a porta do automvel branco. Suas pernas ficaram bambas. Parou, esperando
que ele se aproximasse, desejando ardentemente que o fato de v-lo no a deixasse mais daquele modo.
- Voc est plida, Midge. No andou abusando, andou?
- No - ela comeou a sentir-se melhor. - Dei apenas uma pequena volta.
- timo - enquanto comeava a andar ao lado dela, ele perguntou:
- Como est tia Maude esta manh?
- Ainda no a vi. Clara disse que ela fica na cama at tarde. Pensei em ir v-la, mas achei que no devia perturb-la.
Ele a observara atentamente enquanto falava, e ento disse:
- No acho que voc a teria perturbado. Na verdade, acho que seria bom que algum a tirasse dessa rotina. vou v-la antes de sairmos.
- Sairmos?
- Sim. Vim para lev-la ao consultrio do dr. Mueller - ele explicou. - Mas ainda temos bastante tempo,  claro. Vamos almoar primeiro.
98
Brian dissera que era responsvel por ela, e agora Midge achava que ele estava levando esta responsabilidade longe demais, de um jeito que a fazia sentir que poderia
se tornar uma carga. Ento sugeriu, embaraada:
- tom poderia me levar, no poderia?
- Acho que sim. Por qu? Prefere ir com tom?
Ser que estava imaginando coisas ou havia mesmo um tom zombeteiro na voz dele?
- Naturalmente que no. Mas imagino que voc esteja ocupado.
- Terminei o editorial ontem  noite. E uma das vantagens de se dirigir uma organizao  que, apesar das horas extras que a gente  obrigado a cumprir, depois que
tudo termina pode-se fazer o que se quiser. Agora mesmo... ?agora mesmo vou fazer o que quero.
Depois do almoo, os dois foram ver Maude, por sugesto de Brian. Ela parecia bem, apoiada numa pilha de travesseiros, confortavelmente instalada na cama. Entretanto,
aquela no parecia, a Midge, uma forma muito sadia de viver.
Logo depois Brian levou Midge a Coxsackie. O mdico se mostrou satisfeito, mas insistiu em que ela repousasse mais alguns dias antes de voltar a trabalhar.
- Se voc tem muito servio, pea a Brian que o leve para casa e faa-o l. Pelo menos por enquanto - ele sugeriu. - Apenas prometa Ique no vai ficar queimando
as pestanas at tarde da noite. Brian sorriu e disse: - Pode deixar que tomo conta dessa menina, doutor.
 Enquanto voltavam para a manso Vandervelt, Brian falou sobre a fundao e o progresso de Coxsackie, para grande deleite de Midge.
Em seguida, afirmou que traria o servio para ser feito em casa durante Bquela semana.
Midge odiou quando o carro parou em frente  porta da manso. Gostaria de prolongar aquele momento, de estar ao lado dele para sempre.
- Pronto, chegamos. Tenho que voltar ao jornal, e voc vai prometer que ir para o seu quarto dormir um pouco.
- Mesmo se no estiver com sono?
- Mesmo se no estiver com sono - ele respondeu, inclinando-se para lhe dar um rpido beijo.
99
Midge esperou que Brian se reunisse a ela e  tia para jantar aquela noite, mas ele no apareceu.
- Brian est no jornal - Maude afirmou. - Algum tipo de problema; parece que ele est sempre tendo que resolver problemas. s vezes acho que aqueles homens com quem
trabalha dificultam as coisas de propsito.
Infelizmente no havia jeito de saber se isso era verdade ou apenas imaginao de Maude, mas Midge no pde deixar de pensar que talvez os chefes de departamento
no colaborassem tanto com Brian como deveriam. O prprio Trent deixara bem claro que havia muito dinheiro em jogo.  verdade que ele dissera preferir a participao
nos lucros a uma herana que somente seria dele se acontecesse alguma desgraa a Brian, e Midge acreditava nisso. Entretanto, podia ser que algum dos chefes de departamento
pensasse de maneira diferente.
Na quarta-feira  noite Brian tambm no veio jantar em casa e na quinta Maude observou que ele iria  reunio no clube masculino. Midge sentiu-se grata por ter
o que fazer. Afinal, toda noite, depois de assistir a um pouco de televiso com Maude, subia para trabalhar um pouco.
Na sexta-feira, entretanto, j tinha acabado tudo, e de manh desceu com a esperana de que Brian no tivesse ido ao jornal aquele dia. Neste caso, talvez pudesse
convid-lo a ir at a pequena praia e caminhar um pouco ao longo do rio. Ou, ainda, se ele estivesse de muito bom humor, poderia at pensar num passeio at Coxsackie.
Midge estava tomando caf quando ouviu passos, e por um momento lhe pareceu que seus sonhos iriam se transformar em realidade. Mas no foi Brian quem entrou na cozinha,
e sim Jerry Mueller.
Ele estava sem uniforme e trazia uma raquete de tnis. Sorriu ao ver Midge.
- Como vai? Brian contou que voc tinha vindo para c e achei timo.
- Estou bem, obrigada. Entretanto, j ando um pouco impaciente. Estou mais do que ansiosa para voltar ao trabalho.
Os olhos de Clara, Midge notava agora, estavam pousados na raquete. Ento a governanta perguntou:
- Ele no vai jogar?
100
No - disse Jerry, com certa melancolia. - Bem que queria, mas
no se sente disposto.
Diante do olhar curioso de Midge, Jerry explicou:
Brian e eu jogamos tnis juntos sempre que temos uma
oportunidade. S que esta manh ele est com muita dor de cabea hesitou um pouco. - Voc joga, por acaso?
- Muito mal, Jerry!
- No quer tentar um pouco?
- Por que no? - ela sorriu.
- Vejam s! - Clara protestou. - Midge acabou de sair do hospital! No que  que est pensando, Jerry Muellr?
- Se ela se cansar, a gente pra - Jerry sorriu. - Espere um minuto, Midge, vou buscar uma raquete para voc.
Depois que ele saiu, Clara sacudiu a cabea.
- Vocs dois no tm juzo - resmungou, e em seguida sorriu. Ele  um tmo rapaz.
 casado com uma tima garota. Jerry e Lucille so os nicos amigos verdadeiros
de Brian. Eu no daria um figo podre pelos outros.
Midge criou coragem e perguntou:
- E quanto  mulher de quem ele estava noivo?
- Grace De Witt? Eu no daria nem meio figo podre por ela! - Clara resmungou. - Assim que ficou sabendo que ele estava surdo, deu o fora e se casou com outro!
Ela estava disposta a continuar, mas Jerry chegou com a outra raquete.
- J podemos ir.
- Onde fica a quadra? - Midge perguntou. - Na cidade? Ele riu.
- No, do outro lado da garagem. Os Vandervelt tm dessas convenincias... exeto uma piscina. Vivo sugerindo a Brian que instale uma, mas ele diz que tem de fazer
uma coisa de cada vez. Construiu a quadra de tnis no ano passado, e o velho Horace deve estar revirando no tmulo por causa disso.
Saram e caminharam at uma parte da propriedade que Midge ainda no explorara. Depois que passaram pela garagem ela viu a cerca de arame que rodeava a quadra.
Jerry - perguntou -, havia algum que gostasse de Horace Vandervelt?
101
- Duvido.
- Ele era assim to horrvel?
- Voc nem acreditaria!
- E quanto  mulher de quem Brian estava noivo? - ela prosseguiu, um pouco aborrecida consigo mesma pois no tinha nenhuma inteno de fazer esta pergunta ao melhor
amigo de Brian. - Maude e Clara no parecem apreci-la muito, mas na certa ela deve ter tido os seus motivos, no ?
Jerry parou um pouco, os olhos se estreitando.
- Suponho que sim, se  que se pode justificar o fato de abandonar o homem com quem estava prestes a se casar no momento em que ele mais precisava de amor e compreenso.
- Eu no estava pensando nisso. Estava pensando em... bem, no que precipitou tudo. Brian se encontrava com outra na hora do acidente, no ?
- No sei que tipo de histria lhe contaram, mas a verdade  que Brian estava passando uns dias naquela casa. Havia trs ou quatro casais l. Estavam fazendo uma
fogueira na praia; iam preparar um lanche e Brian foi buscar algumas cervejas na geladeira. A garota, cuja famlia era dona do chal, tinha entrado, alguns minutos
antes e havia ligado um aquecedor na sala de estar, para espantar o frio. Entretanto, o aparelho h muito no era usado e estava com defeito. Alguma coisa saiu errada
e houve a exploso. Brian desmaiou com o impacto. Quando voltou a si, estava no hospital. Disse que percebeu aos poucos que as pessoas a seu redor estavam falando,
mas que no podia ouvi-las.
Midge estremeceu.
- Deve ter sido horrvel. No existe nada que possa ser feito por ele? Quero dizer... Brian  jovem, tem dinheiro... com o progresso da medicina, voc no acha que
poderia haver algum tipo de operao que...
- No - o tom de Jerry era firme. - A leso nos ouvidos dele foi provocada pela exploso.  permanente, no tem cura. Pelo que entendi, um aumento agudo da presso
produz a onda, que, quando entra em contato com o corpo humano, causa destruio em certas partes, como os tmpanos.
- Ento - ela refletiu lentamente -, ele ser surdo para sempre.
- Sim. - Havia uma expresso estranha no olhar de Jerry. Sempre, - Ele encolheu os ombros, ento, jogando a raquete para cima e
102
pegando-a. - Est bem, srta. Boardman - disse com voz alegre. - O que
diz de jogarmos, agora?
Midge no praticava tnis h muito tempo e logo comeou a se sentir cansada. Ao notar isso, Jerry sugeriu que parassem.
Enquanto se dirigiam  manso, ele olhou para o relgio e disse:
Acho que vou passar pelo jornal e convidar Lucille para almoar.
Qualquer noite dessas, quando todos estivermos livres, que acha de sairmos para jantar? H um restaurante francs em Albany que podamos experimentar.
Midge percebeu que Jerry estava se referindo a ele,  esposa, a Brian e a ela. E no tinha muita certeza de que Brian Vandervelt aceitaria de bom grado sua companhia.
Mas, antes que pudesse responder, Jerry prosseguiu:
- Teremos que insistir um bocado com Brian. Ele no sai muito. Vivo lhe dizendo que desse jeito vai se transformar num eremita - ele sorria enquanto falava, mas
logo ficou srio. - Ele pensa que  uma companhia detestvel por ser surdo.
- Isso no  verdade.
- Eu concordo, e Lucille tambm. Mas temos que convencer Brian. Vamos insistir com ele, est bem?
Acenou e foi embora.
Clara sugeriu que Midge almoasse com Maude, no quarto. E j havia mencionado a dor de cabea de Brian  velha senhora, pois, depois de certo tempo, Maude disse:
- Estou preocupada com Brian. Sei que tem recebido as melhores atenes mdicas, mas mesmo assim...
- No se preocupe. Na certa estas dores esto relacionadas  tenso - Midge se aventurou a dizer.
Maude acenou com a cabea e Midge conseguiu mudar de assunto; mas, quando a velha senhora comentou que ela parecia um pouco cansada e que precisava tirar uma soneca,
concordou rapidamente. Uma vez no quarto, entretanto, no conseguiu se concentrar em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, nem dormir.
S conseguia pensar em Brian, sozinho na torre...
A tarde passava lentamente. At mesmo o tempo parecia corresponder ao silncio opressivo da casa: s trs horas o cu estava nublado.
Brian ainda se encontrava isolado na torre, e isso significava que as
103
dores deviam ser to fortes que a preocupao de Maude se justificava: Midge pensou se Clara havia se lembrado de levar-lhe o almoo; afinal, percurso at a torre
era longo e a governanta j tinha uma certa idade.
Midge ficou impaciente, sem saber o que fazer. No tinha direito algum de invadir a privacidade de Brian; no entanto ele havia sido
to bondoso desde o acidente
que imagin-lo sofrendo, sozinho l na torre era demais.
- Que se dane a privacidade dele! - disse em voz alta e saiu do quarto.
Foi at a torre. No adiantava bater  porta, e por isso ela se armou de coragem, girou a maaneta e entrou.
Uma vez l dentro parou, perplexa. A viso que se descortinava dali era magnfica. Era como estar no topo do universo. Havia janelas de todos os lados, abrindo-se
para um mundo que se estendia em todas as direes. Ao leste as majestosas montanhas de Catskills; a oeste, o rio Hudson corria lentamente. Um panorama sem fim...
No era de admirar que Brian amasse tanto aquele local.
Midge o encontrou deitado numa cama enorme, to quieto que por um momento seu corao se contraiu. Ento aproximou-se mais, viu que ele respirava regularmente e
sentiu um grande alvio.
Ele parecia to jovem e to vulnervel... Enquanto o olhava, Midge pensou em quanto o amava. Sim, o amava muito, mais que a prpria vida. No entanto, no tinha nenhuma
esperana.
Sabia que sua estada naquela casa terminaria com o ms de outubro. Ento Brian herdaria a fortuna Vandervelt e ela estaria definitivamente fora daquele mundo.
Se tivesse um mnimo de bom senso sairia de Coxsackie o mais rpido possvel. Do contrrio, sofreria muito, mais do que seu corao poderia suportar.
Enquanto pensava nisso, ela percebeu que os olhos cinzentos a fitavam atentamente.
- Mas que diabo voc pensa que est fazendo?
A voz dele era furiosa e ela se virou, to embaraada que esqueceu que ele no podia ouvir suas palavras confusas de explicao. Tambm no pde ouvi-lo levantar-se
e, quando ele a segurou e fez com que se virasse, Midge ficou to perplexa que quase perdeu o equilbrio.
- Nunca mais faa isso - disse Brian, controlando a raiva.
104
Ela o fitou, envergonhada, aborrecida por ter-lhe dado as costas, pois essa era uma coisa que prometera a si prpria nunca mais fazer. Tentou falar, mas, antes que
pudesse dizer qualquer coisa, ele a apertou com fora, fazendo-a gritar:
Voc est me machucando!
Dessa vez foi ele quem se virou, dando-lhe as costas.
- Brian! - ela suplicou, mas ele no se mexeu. Midge o puxou ento pela manga da camisa.
Brian olhou para ela, o rosto cheio de dor.
- V embora, Midge. Por favor, v embora. Ela meneou a cabea.
- No, no vou. Voc me perguntou o que estou fazendo aqui e vou lhe dizer.
- Est bem, ento. Diga-me. :
- Vim porque estava preocupada.
- Preocupada? E por qu?
- Bem, eu estava na cozinha tomando caf quando Jerry Mueller entrou e disse que voc no podia jogar tnis por estar com muita dor de cabea.
Brian ergueu as sobrancelhas.
- Ento isso a preocupou tanto que foi jogar tnis com ele, certo?
- Joguei um pouco de tnis com ele, sim.
- E conversaram bastante tambm, no conversaram? - ele observou asperamente. - O que foi que ele lhe contou sobre Grace?
Ela o fitou, furiosa.
- Como foi que ficou sabendo? Jerry telefonou?
- No. No tenho telefone aqui - ele mostrou um par de binculos sobre o parapeito de uma janela. - Eu os vi.
- O que est querendo dizer?
- Que me levantei para tomar um comprimido e vi voc e Jerry na quadra de tnis. Portanto peguei o binculo e fiquei observando. Eu no podia ver o rosto de Jerry,
apenas o seu.
Ela compreendeu na hora.
- Voc leu os meus lbios!
- Sim, li. s vezes tento fazer isso a distncia para ver se d certo. Geralmente no sou bem-sucedido, mas voc tem uma dico perfeita e...
Essa  uma coisa vil!
105
-  uma questo de opinio - disse ele com indiferena. - No que me diz respeito, se as pessoas esto falando s minhas costas, nada vejo de ultrajante em tentar
descobrir o que esto dizendo.
- Isso no foi falar s suas costas!
-  o que voc fez - ele respondeu friamente. - O que h, Midge? Tem que tentar impressionar todos os homens que conhece? Trent Clayton est apaixonado desde o dia
em que voc entrou no jornal; agora tem que dar em cima de Jerry tambm?
- O que  que est dizendo? Jerry  casado!
- E isso significa alguma coisa para voc? O homem com quem estava envolvida em Nova York era casado, no era?
- John era divorciado.
- Antes ou depois de ter cado nas suas garras?
Ela o olhou firmemente mas, antes que pudesse falar, ele continuou:
- Jerry  casado, sim, mas neste momento o casamento deles no est na melhor das fases. Lucille viu a carta que minha irm lhe mandou.
- E o que tem isso?
- Ela juntou os fios da meada. Sabe que voc  amiga de Becky, e acontece que Jerry estava apaixonado por minha irm quando morvamos aqui. Se no fosse por meu
tio, eles poderiam at ter-se casado.
- Becky nunca me contou isso!
- No? Bem, talvez ela no amasse Jerry tanto assim, no ? De qualquer maneira, o fato de voc estar por aqui despertou um velho fantasma de Lucille, que est muito
consciente dos seus encantos e conhece Jerry. Ele gosta de mulheres bonitas, embora eu no tenha qualquer dvida de que ama Lucille. Mas seria melhor se voc o desencorajasse.
Ela fechou os olhos, desejando fazer ou dizer alguma coisa que perturbasse tanto aquele homem quanto a perturbara. Mas, antes que pudesse falar, ouviu-lhe a voz
furiosa.
- Agora quer sair daqui?
- No antes de lhe dizer como... como voc est completamente enganado!
- No quero ouvir - ele respondeu secamente, os olhos se estreitando enquanto a fitava. - Mas, se no quer sair, pelo menos vamos aproveitar melhor o nosso tempo.
Antes que ela percebesse, Brian a tomou nos braos e a beijou
106
selvagemente. Mas havia uma premncia naquele beijo, uma premncia contagiante. Ela podia sentir alguma coisa em seu ntimo se inflamar e pequenas labaredas pareciam
arder em seu corpo, fundindo-se numa mistura de puro desejo.
Ele afrouxou o abrao, mas suas mos passaram a lhe explorar o corpo, enfiando-se por baixo do suter, acariciando-lhe costas e seios. Ento, num nico movimento,
Brian a levou at o sof, onde a deitou.
Midge no ops qualquer resistncia quando ele lhe retirou o suter. Seu corao se acelerou, seus seios ficaram eretos, os mamilos rijos, prontos para as carcias
dos dedos e dos lbios dele.
Brian desabotoara a camisa e a tirara, deitando-se ao lado dela, o corpo to prximo e quente que no lhe deixava qualquer dvida sobre a intensidade do desejo dele.
Midge gemeu, desejando-o tanto que nada mais importava. Ento viu-o levar a mo at a fivela do cinto e naquele momento olhou para o rosto dele, descobrindo a paixo
que o deixava lvido. Havia um brilho nos olhos de Brian que era quase atemorizador, mas tambm havia algo mais,. Ela no conseguia pensar em outra palavra que no
"desdm" para o que via na expresso dele, e sentiu-se mal. De repente tudo se transformou em cinzas. Seu sonho virou um pesadelo.
Ela o empurrou, lutanto para ficar em p. Lentamente, cheia de dor, colocou o suter, dirigindo-se a uma das enormes janelas enquanto fazia isso. Sentiu-se incapaz
de reprimir as lgrimas que lhe vieram aos olhos.
Procurou desesperadamente se controlar. Ouviu os passos dele e sentiu-lhe as mos no ombro. Ento recuou, assustada.
- Oua - disse Brian, a voz perturbada -, por que tudo isso? Voc me deseja tanto quanto eu te desejo... por que negar? Desde aquela primeira vez, no meu escritrio,
estivemos esperando por isso. Por que agir como uma virgenzinha ofendida?
Oh, Deus, que amargura!  verdade que no era mais virgem, mas isso no significava que fosse obrigada a ter relaes com qualquer homem, principalmente se este
homem no soubesse seduzi-la. Mas com Brian... com Brian era diferente, era forte, e era exatamente isso que lhe dava medo.
- No est tentando me dizer que  virgem, est? - ele desafiou, e cada palavra era uma zombaria.
107
Ela estendeu a mo cegamente, atingindo-o com toda a fora de que era capaz.
- Midge! Oh, meu Deus, Midge... por favor!
Ela sacudiu a cabea. No queria ouvir nada, nem desculpas nem explicaes.
Virou-se e saiu correndo. J estava quase l embaixo quando o ouviu chamar seu nome de novo, mas no parou nem olhou para trs.

CAPTULO XI

108
Naquela noite Brian desceu para jantar, para surpresa de Midge. Estava plido e parecia cansado. Mas quando Maude lhe perguntou sobre a dor de cabea, ele conseguiu
sorrir e explicou que j estava bem.
Fez uma tentativa de conversar enquanto comiam, quando Midge falou sobre a beleza das montanhas.
- As Catskills so bastante antigas - disse Brian -, e h muito constituem o prazer dos gelogos. Embora ,no sejam muito altas, do uma impresso de eternidade;
a gente tem a sensao de que elas sempre existiram e que existiro, embora eu tenha certeza de que os cientistas no concordam com isso. A Terra est sempre mudando,
alterando a sua superfcie. Ento, naturalmente, surgem as lendas.
- Como a de Rip Ban Winkle, quer dizer? - ela perguntou.
- A de Rip  a mais famosa.
- Ele existiu mesmo?
Brian ergueu as sobrancelhas, olhando para a tia.
- O que  que posso dizer a ela? Maude riu.
- Voc no deve perguntar a mim. No que me diz respeito, Rip sempre foi muito real.
- Eu devia saber que diria isso - ele caoou. - No posso mentir para ela, tia Maude; por outro lado, talvez Rip fosse um personagem real, mas com outro nome. O
Rip Van Winkle que todos conhecem  Personagem de uma histria escrita por Washington Irving. The Sketch
ook. Segundo a histria, Rip era um colonizador holands, um sujeito
comum. Era importunado por uma esposa resmungona e aproveitava todas
109

as oportunidades que tinha para fugir da sua lngua ferina. E tambm no era avesso a tomar um ou dois drinques. No muito antes do incio da Revoluo Americana,
ele foi caar nas montanhas. Estava andando a esmo quando encontrou alguns homenzinhos muito estranhos que jogavam boliche. Rip ficou muito satisfeito em se juntar
a eles, principalmente porque tinham um bom suprimento de bebida. Rip sabia que havia algo estranho, o que foi reforado quando eles lhe contaram que eram membros
da tripulao de Henry Hudson. Ele percebeu ento que eram fantasmas, pois Hudson havia morrido uns cento e cinquenta anos antes, mas isso no o incomodou. Nada
havia de irreal na bebida, e Rip continuou a beber at adormecer. E dormiu durante vinte anos. Quando acordou, descobriu que tinha uma longa barba branca e que j
no era to gil. Voltou para a cidade onde vivia e ficou sabendo que ela fazia parte de um novo pas, os Estados Unidos. Alm disso, sua esposa havia morrido e
sua filha tinha se casado.
- Que interessante...
- Quando BecKy e eu ramos crianas e havia tempestades com raios, Clara costumava dizer que o trovo era o barulho de Rip Van Winkle jogando boliche l nas montanhas.
Lembra-se disso, tia Maude?
- Sim, eu me lembro. Brian, voc devia levar Midge para dar uns passeios pela regio de Catskill. H belos lugares para se visitar nas montanhas.
Brian esboou um sorriso.
- No tenho certeza se Midge gostaria de ir s montanhas comigo. Em seguida, antes que qualquer uma das duas pudesse responder, ele continuou: - Por falar nisso,
pedi que entregassem outro Volvo para voc amanh cedo.
- Meu carro ficou mesmo imprestvel?
- Sim, ficou. Mas tenho um amigo em Albany que lida com carros estrangeiros e encontrou outro, mais novo que o seu. Espero que o ache satisfatrio.
- Voc o alugou?
- No. Eu o comprei.
- Comprou? Mas Brian, eu no posso aceitar... Ele fez um sinal para que se calasse.
- Depois, sim?
110
Mas no lhe deu oportunidade de voltar ao assunto. Retirou-se logo depois do jantar.
Midge esperava encontr-lo na manh seguinte e, quando perguntou onde estava, Clara informou que ele havia ido mais cedo para o jornal.
O novo carro chegou s dez horas. Midge ficou desolada quando Clara a chamou para pegar as chaves. Era bem mais bonito que o outro; na verdade, parecia quase novo.
Ela sabia que no poderia pag-lo, mas no parecia haver alternativa. Exceto, claro, devolv-lo e tentar encontrar outro, mais barato. No estava disposta a aceitar
presentes de Brian.
Enquanto observava o carro, sua animosidade em relao a Brian aumentou. Era verdade que dinheiro no significava muito para ele, mas aquilo j era humilhao. Nem
todo mundo era um Vandervelt, afinal.
Ela enrubesceu ao se lembrar da cena na torre. Brian estava certo ao dizer que se desejavam. O que fazia se sentir assustada era o fato de saber que Brian poderia
t-la possudo facilmente se no tivesse visto aquela expresso no rosto dele. O desdm.
Midge tentou dizer a si mesma que o odiava, mas admitiu que isso seria impossvel.
Aborrecida, nem experimentou o carro novo. Guardou as chaves e voltou para seu quarto. No estava com nimo para conversar com Clara ou com Maude, nem queria enfrentar
Brian, caso ele voltasse ao jornal.
Midge aprendera a gostar muito de Maude naquele curto espao de tempo, e de Clara e tom tambm, mas lhe parecia impossvel continuar a viver na manso Vandervelt
por mais tempo. No, o melhor que tinha a fazer era voltar ao hotel. Depois, assim que terminasse o ms, poderia conversar com Trent sobre o contrato que haviam
feito.
At ento no iria embora. Independentemente da situao entre ela e Brian, no sairia de Coxsackie antes do dia primeiro de novembro. Precisava esperar que o perodo
experimental passasse; queria ter certeza de que estava tudo bem.
Depois...
Ao entrar no prdio do Valley Voice na segunda-feira de manh, Midge teve a impresso de ter ficado fora bem mais do que uma semana. Lucille Mueller, j  mesa de
recepo, sorriu e fez agumas perguntas.
111
Mas, agora que Midge sabia do impasse entre ela e Jerry, suas respostas
foram formais.
Trent estava sozinho no departamento de publicidade e se aproximou rapidamente, abraando-a de uma forma que ela no estava disposta a encorajar. Em seguida, talvez
sentindo-lhe a indiferena, ele recuou um pouco e a olhou da cabea aos ps.
- Bem, voc est tima! Estou muito contente que tenha voltado. Entretanto, h uma coisa... - hesitou e foi fechar a porta que dava para o corredor. - Estou satisfeito
por voc ter chegado antes de Ciem e de Ellen - disse enquanto ela o fitava, perplexa. - Midge, detesto dizer, mas voc continua a me esconder as coisas.
Ela franziu a testa.
- Sobre o que est falando?
- Bem, todo mundo sabe que voc  amiga da irm de Brian Vandervelt, e que por isso foi para a velha manso da famlia - disse ele com um toque de sarcasmo. - E
eu, naturalmente, fui o ltimo a saber.
- E o que tem isso de importante? - disse ela, impaciente porque j estava farta desse tipo de coisa. - Fui para a manso Vandervelt porque eles acharam que eu no
devia ficar sozinha aps o acidente.
- Quanta considerao da parte deles!
- Trent, por favor, poupe-me a sua ironia. Tenho tido muitos problemas; no me crie outros.
- Voc se importa em me responder uma pergunta?
- No, no me importo.
- Brian Vandervelt tentou... conquist-la?
- Oh, pelo amor de Deus!  s nisso que sabe pensar?
- Quando estou com voc, querida, talvez seja. Tenho cimes admito. Vandervelt pode ser surdo como uma porta, mas 
muito atraente e...
Ela se indignou.
- Esta  uma coisa muito desagradvel de se dizer!
- Que ele  atraente? - perguntou Trent, fingindo inocncia.
- No,  claro que no! Voc sabe muito bem sobre o que estou falando. "Surdo como uma porta"  uma expresso horrvel e devia sei abolida! Mas, mesmo assim, no
se aplica a Brian.
- Como voc o defende, hein?
- E como voc pode ser detestvel, hein? Estou comeando a me
112
arrepender de ter voltado - Midge lhe entregou um pacote. - Aqui esto os textos da edio especial.
Ele ficou surpreso.
Ento voc esteve trabalhando?
Sim, estive. O que acha que andei fazendo todo esse tempo? No,
no responda. com a sua mente venenosa, s poderia haver uma resposta.
Acalme-se, Midge. Ellen e Ciem logo estaro aqui e voc est com
cara de quem gostaria de me ferir no corao.
- Talvez eu quisesse mesmo fazer isso!
Voc j fez - disse ele, e Midge sacudiu a cabea, desolada. -
Jante comigo esta noite e eu a convencerei.
- No quero ser convencida - ela retrucou. - Voltando ao assunto:  verdade que Becky Vandervelt  uma das minhas melhores amigas, e admito que uma das razes que
me trouxeram a Coxsackie foi conhecer o lugar onde ela vivia. Entretanto, o emprego no jornal  um assunto diferente. Acho que posso dizer que o consegui pelos meus
prprios mritos, no?
- Isso  verdade.
- Ento no vejo por que o fato de conhecer Becky ou estar vivendo temporariamente na manso Vandervelt tenha alguma coisa a ver com o meu trabalho aqui. Foi Brian
quem lhe falou sobre isso?
Trent pareceu confuso.
- Naturalmente que no. Ele no me disse nada. No somos to ntimos assim.
- No gosto do termo "ntimos" quando usado neste contexto.
- Oua, Midge, que posso fazer?  como se tudo que se relaciona com voc tivesse assumido uma importncia vital para mim, sabe? Outro dia Ellen disse que eu estava
apaixonado - ele sorriu de maneira estranha. - No sabia que era to evidente assim. Nunca misturei negcios com prazer, e posso ver que essa no  uma boa ideia.
Gostaria que tivssemos nos conhecido em outras circunstncias, mas tenho que admitir que, alm de ser uma mulher muito atraente, voc  a melhor redatora com quem
j trabalhei, e odiaria ter que perde-la. Acho que  isso que me preocupa quando fico sabendo que os Vandervelt tm voc nas garras deles.
Os Vandervelt no me tm nas garras deles.
Midge, oua... - ele comeou a falar, mas foi interrompido por en Brent, que acabava de chegar.
113
Midge sentiu-se enrubescer, pois no era comum aquela porta permanecer fechada; um olhar para o rosto cheio de suspeita de Ellen lhe disse que a garota havia interpretado
aquela situao da pior maneira possvel.
- Oi, Ellen - Trent cumprimentou, recuperando-se. Ento voltou-se para Midge. - Como ia lhe dizendo, como j terminou o seu texto, pode trabalhar agora numa conta
publicitria que Ciem trouxe outro dia. Algumas pessoas de Nova York abriram uma espcie de restaurante-butique em Athens, que parece bastante incomum, e querem
ver o que podemos fazer em termos de campanha publicitria.
- vou conversar com Ciem assim que ele chegar - ela prometeu.
E foi o que fez, mas seu corao estava longe do trabalho. No via Brian desde sexta-feira  noite e, sem poder ir at a torre - no tinha inteno nenhuma de fazer
isso -, parecia no haver outro meio de entrar em contato com ele. Midge percebeu que Brian a estava evitando e se ressentiu disso.
Essa situao se estendeu por toda a semana. Ele no apareceu para jantar e, como nem Maude nem Clara pareciam esper-lo, Midge resolveu no fazer perguntas.
Trent convidou-a novamente para sair, dessa vez para irem a um restaurante alemo que parecia ser muito bom. Sugeriu jantarem juntos na noite seguinte e, depois
de imaginar outra madrugada solitria em seu quarto, Midge concordou em ir.
O clube de jardinagem iria realizar o banquete de outono naquela quinta-feira  noite e Maude a convidara; ela, porm, recusou o convite dizendo que precisava fazer
algumas compras. Na verdade, queria ficar sozinha, o que significava estar longe do Valley Voice e da manso Vandervelt. Assim, ao sair do jornal, foi diretamente
para os Maple.
Uma garonete que nunca vira antes levou-a at uma mesa junto  janela, e Midge estava consultando o cardpio quando uma voz familiar disse:
- Espero que no pretenda jantar sozinha - ela ergueu a cabea e viu o rosto sorridente de Jerry Mueller, que prosseguiu: - Vi o seu carro vindo para c e a segui.
Posso me sentar?
- Claro!
- Que tal um aperitivo antes do jantar?
- Sim. Um Manhattan on the rocks.
114
.- Traga dois - ele pediu  garonete. Acredite ou no, estou trabalhando; tenho um servio especial para mais tarde. Entretanto, ainda tenho tempo para
uma bebida.
Foi muita sorte t-la encontrado. Estava precisando falar com voc.
Ela riu.
- s ordens, comandante. Ele sorriu melancolicamente.
- Eu no podia telefonar para o jornal, pois  Lucille quem atende o telefone. E tambm no queria procur-la na manso porque encontraria Brian.
Midge franziu a testa e Jerry desviou o olhar, brincando com os talheres.
- Ele acha que no ando sendo justo com Lucille, o que no  verdade. Acho tambm que o meu amigo est um pouco cego no que lhe diz respeito - ele ergueu a cabea,
os olhos azuis muito srios. - Sei que nada tenho a ver com isso, mas no posso deixar de me preocupar com Brian. Ele no merece ser magoado novamente!
- E acha que eu estou disposta a mago-lo?
- Voc parece atingi-lo como ningum mais consegue!
- Est enganado, Jerry. No creio que algum consiga atingir Brian, especialmente uma mulher. Voc sabe como Brian se sente em relao s mulheres. Ele parece uma
fortaleza. vou ser Honesta: no incio tive vontade de chegar at ele, mas agora tenho certeza de que no h chance alguma.
- Ento  isso!
- Sim. Ou melhor: era. No vai ser mais.
- Voc vai desistir, ento.
- Sim - disse Midge com mais firmeza do que sentia. - J vivi um romance infeliz. Foi por isso que deixei Nova York e fui para San Francisco. Por isso e porque meu
pai se casou de novo e eu queria conhecer a nova esposa dele. Tambm queria rever Becky,  claro, o que foi maravilhoso... exceto por me envolver nessa histria.
- Ento veio para c s por causa de Becky?
- Sim. Ela achava que havia acontecido algo srio a Brian na hora da exploso, e me pediu para descobrir o que era. Becky tem dois filhos Pequenos e no pde vir.
- Voc lhe contou o que aconteceu?
115
- No.
- Por que no?
- Isso  algo que s diz respeito a Brian.  ele quem tem que contar  irm sobre a sua surdez. Alm disso, tive que concordar que seria melhor que Becky no viesse
para c enquanto tudo no estivesse resolvido. Todo este estranho caso a respeito do testamento, quero dizer.
- Por que voc diz que  um caso estranho?
- Porque !  irreal, pelo menos para mim. Simplesmente no posso entender por que algum deixaria um testamento to diablico.  muita tentao!
- Voc no conheceu Horace Vandervelt - disse Jerry. - Lembro que me perguntou, outro dia, se havia algum que gostasse dele. Bem... era mais do que uma questo
de gostar e no gostar, Midge. Por exemplo, quando eu era garoto e costumvamos ler Um Cntico de Natal, de Dickens, tinha certeza de que Scrooge e Horace Vandervelt
eram a mesma coisa... exceto que o corao de Horace nunca mudou - fez uma pausa e continuou: - Eu s o conheci quando Brian e Becky vieram viver aqui, aps a morte
dos pais. Eles foram para a escola, mas vinham durante as frias e por algum milagre conseguimos ficar amigos, apesar de Horace. Meu nico irmo morreu quando tinha
quatro anos; portanto, acho que posso dizer que Brian se tornou um irmo para mim. E ainda .
- Imagino. Ele parece gostar muito de voc, tambm.
- Pois . E apesar de ser um Vandervelt, com tudo que isso significa, Brian nunca pareceu se importar. Quando ramos garotos, ele costumava olhar para o rio e ficar
observando os navios que se dirigiam para Albany, dizendo que era o que gostaria de fazer: ir para o mar. Acho que sentia que era a nica maneira de escapar de Horace.
Ento se candidatou  escola de Annapolis e conseguiu ser admitido. O velho ficou furioso. Sempre imaginou que Brian iria para a escola que ele escolhesse e que
depois voltaria para tomar conta do jornal e do resto do patrimnio. Foi por isso que, depois do acidente, quando Brian estava muito fraco, tanto fsica como emocionalmente,
Horace tirou vantagem da situao e forou-o ao contrato.
- Contrato?  o tal de perodo experimental sobre o qual Becky falou?
- Sim. Brian assinou um contrato concordando em ficar com o Hudson River Valley Voice por um perodo de dois anos aps a morte de
116
Horace. Durante esse tempo seria necessrio que o jornal demonstrasse um crescimento acelerado e uma mudana mnima de pessoal. Nesse nterim, a responsabilidade
pela direo das Empresas Vandervelt, que compreendem no apenas o Valley Voice, mas tambm todas as propriedades e todos os negcios que Horace conseguiu juntar
durante anos, permaneceria nas mos de Wilson Strathmore, o gerente de negcios, e de Andrew Summers, que mora em Catskill e foi procurador de Horace durante anos.
- E da?
- Bem, Brian assinou o contrato e um ano depois Horace morreu. O testamento veio em seguida. Voc deve saber a respeito do testamento, no?
- Acho que sei o suficiente. Deduzi que, se Brian cumprir os termos desse contrato, herdar o jornal e eventualmente a manso, aps a morte da tia, e metade de todo
o patrimnio. Mas, se no cumprir o contrato, ento ser deserdado, ficando com apenas um dlar. Os quatro chefes de departamento do jornal recebero a herana e
alguns tambm sero beneficiados. Becky deve herdar metade das Empresas Vandervelt, no importa o que acontea. Certo?
- Certo. Mas, se Becky e Brian morrerem antes do fim do contrato, os chefes de departamento herdaro tudo.  por isso que Brian quer que Becky fique longe daqui.
117

CAPTULO XII

Midge foi fazer algumas compras ao sair dos Maple e ficou contente quando comeou a voltar para casa.
A conversa de Jerry a perturbara e, enquanto dirigia pela estrada de Athens, sentia-se estranhamente preocupada por Becky, Brian e por si prpria. Comeou a gelar
ao pensar na terrvel vulnerabilidade de Brian Vandervelt.
Suspirou. Havia-se envolvido demais, mas sabia que uma vez terminado o ms e com Brian em segurana, no haveria mais por que ficar em Coxsackie. Midge no pertencia
ao mundo de Brian Vandervelt, e isso a fazia sentir-se solitria como nunca.
Ao chegar  manso, viu o carro de Brian. Enquanto descia olhou para a torre e em seguida para o relgio. Ainda no eram dez da noite, mas a torre estava na mais
completa escurido. Brian j devia estar dormindo...
A luz brilhava no cu e Midge resolveu ir at o mirante. J estava subindo os degraus quando viu Brian, sentado, olhando o rio. O luar deixava os cabelos dele dourados,
lindos.
Ela comeou a recuar e estava disposta a voltar quando ele chamou:
- Midge?
Ela parou, sobressaltada.
- Sim?
Brian levantou-se e se dirigiu lentamente para ela.
- Onde voc esteve? - perguntou. E como Midge no respondesse, acrescentou: - Est bem, pode dizer que no tenho o direito de perguntar.
Foi a mesma coisa que atear fogo na palha. Ela esqueceu tudo, exceto o
118
fato de que, incapaz de se reprimir, estivera  procura dele durante a semana toda, pensando e se preocupando com ele.
- Voc nunca pensa nos direitos dos outros! - ela explodiu. - Onde foi que "voc" esteve?
Em seguida parou, horrorizada, desejando que ele no tivesse escutado. Mas ele a ouvira.
- Por acaso sentiu a minha falta? Estou certo em pensar que voc quer saber por onde andei? Bem, segunda e tera-feira tive que ir a Nova York a negcios. Na quarta-feira
me enfiei no escritrio para recuperar o tempo perdido. Depois que o jornal saiu, esta tarde, fui procur-la, mas voc no estava. Tive o maldito jantar no clube
esta noite, mas consegui escapar cedo e voltar para casa. S que... voc no estava aqui.
Ela fechou os olhos, como se flutuasse, e aps um momento de intenso silncio ouviu-o dizer:
- Bem, eu j lhe contei os meus "segredos". Que tal fazer o mesmo? Midge engoliu em seco.
- Fui fazer compras em Catskill. Antes parei nos Maple para jantar, pois havia avisado Clara que no viria para c. Ento Jerry Mueller chegou e... .
- Vocs se encontraram por acaso?
- No. Ele viu o meu carro... quero dizer, o seu carro. Voc no devia t-lo comprado.
- Midge, por favor, no faa disso um cavalo de batalha. Em primeiro lugar, se no tivesse vindo para c, o seu carro ainda estaria inteiro. De qualquer maneira,
isso ainda  muito pouco para voc.
- No concordo. Mas veremos isso mais tarde. Bem, como eu estava dizendo, Jerry e eu jantamos juntos.
- S vocs dois?
- Oua, no d uma de moralista, sim? Jerry estava em servio, e posso lhe afirmar que no est sendo infiel a Lucille, comigo ou com qualquer outra mulher.
- Puxa! Acalme-se! Eu no a censuro por procurar companhia l fora: viver aqui deve ser como estar presa num tmulo, s vezes. A casa parece sada de uma histria
de terror, e tia Maude tem l as suas manias. E quanto a mim....
- Sim? E quanto a voc, Brian?
- Eu j disse antes que tenho plena conscincia de que no sou a melhor companhia do mundo.
119
Falou isso sem qualquer emoo, como se fosse um simples fato consumado, e essa atitude a enfureceu.
- Voc sabe muito bem que no  assim!
- Ao contrrio - disse ele tranquilamente. - Acredito que seja isso mesmo.
Midge sacudiu a cabea.
- Voc no poderia estar mais errado! No h motivo algum para ficar assim to na defensiva! L na torre...
- Sim?
Ela podia sentir o rosto corar.
- No quero falar sobre isso. Mas desculpe-me se invadi a sua privacidade. Eu no devia ter feito aquilo.
- Est bem, est bem. Entretanto, h uma coisa que eu gostaria de saber.
- O qu?
- Voc disse que estava preocupada comigo. Por qu? Ela hesitou.
- Jerry me contou que as vezes voc tem dores de cabea muito fortes. Imaginei se no poderia ajud-lo.
- Como? Na verdade, tenho feito algo a respeito. s vezes tentar ouvir pode criar uma tenso horrvel, que  aumentada por outros rudos que me deixam zonzo... Por
causa dessa maldita dependncia de um aparelho de surdez. Estou melhorando, embora ainda tenha dores fortes de vez em quando. Mas no  nada fatal. No estou prestes
a sucumbir a um tumor cerebral ou algo parecido. Foi isso que voc pensou?
- No sei o que pensei, mas eu queria dizer que...
- Sim?
- No quero que acontea mais nada a voc.
Eles ficaram se olhando e, para Midge, o tempo parecia ter parado. Ento ele a tomou nos braos, e dessa vez a beijou de forma totalmente diferente; de um jeito
terno, como se fosse a essncia mais pura do amor, e Midge ficou to fascinada que demorou para perceber que ele a havia soltado.
Antes que pudesse acreditar no que Brian estava fazendo, viu-o se afastar a passos largos. Ouviu o rudo do motor do carro e um momento mais tarde viu-o na estrada
que ia para Athens.
120
Depois de certo tempo Midge voltou lentamente para casa. Ficou acordada, esperando que Brian voltasse. Finalmente adormeceu e, quando acordou, de madrugada, correu
para a janela. Ficou aliviada ao ver o carro branco estacionado no lugar de sempre.
Voltou para a cama, para dormir mais um pouco... e dormiu demais. O que no era muito importante, pois Trent lhe dissera que no precisava ir ao jornal, a no ser
que desejasse.
Entretanto, havia alguns detalhes que ela queria acertar antes que outra semana comeasse, e assim se dirigiu ao Valley Voice no meio da manh.
J estava trabalhando h uma hora quando o telefone tocou. Para sua surpresa era Jerry, que parecia quase furioso.
- O que aconteceu com Brian? Ontem  noite, depois que sa daqui, tive que ir at o outro lado da cidade. Na volta, estava passando pela auto-estrada quando vi o
carro dele estacionado junto a um bar...
- O mundo est cheio de bares, Jerry. Que tem isso de mais?
- Tem que resolvi entrar e Brian estava l, sozinho, tomando um usque atrs do outro! Tudo que consegui tirar dele foi que havia conversado com voc no mirante.
- Ento  isso!
- Que diabo voc disse a ele?
- Nada que j no tivesse sido dito antes.
- Alguma coisa deve ter acontecido. Fiquei com ele at o bar fechar, e Brian mal podia parar em p. Tive que lev-lo para casa. Voc o viu esta manh?
- No.
- Imagino que esteja dormindo, ento. Midge, no espero que se transforme num guarda-costas, mas no  a coisa mais segura para Brian estar agindo dessa maneira,
principalmente agora. Tente facilitar as coisas para ele, est bem?
A conversa com Jerry a preocupou; ela resolveu parar o servio e ir comer um sanduche num bar prximo.
Dissera a Clara que iria jantar fora, mas prometera que tomaria um copo de xerez com Maude antes de sair. Sentia-se tocada pelo pensamento de que a velha senhora
realmente gostava de sua companhia, pois esta era a nica coisa que podia oferecer a ela, o que lhe parecia muito pouco; gostaria de poder fazer mais.
Estava pensando nisso quando entrou no bar. Parou na hora ao ver
121
Brian sentado, sozinho, a um canto. Naquele exato momento ele ergueu a cabea e seus olhares se encontraram.
Ela criou coragem para ir ao encontro dele. Puxou uma das cadeiras e perguntou.
- Posso me sentar?
- Sim. - Havia um copo vazio perto do prato dele e, ao ver que Midge o notara, explicou: - Joe jura que isso cura ressaca - fez um gesto em direo ao homem no balco.
- Talvez cure, mas tem um gosto horrvel!
- No pense que estou com pena de voc, Brian.
Para surpresa de Midge, ele sorriu, e foi um sorriso to natural e to maravilhoso que ela o olhou, incrdula.
- Voc  pior que Jerry! - disse ele, rindo.
- O que quer dizer com isso?
- Bem, apesar de ter certeza de que ele lhe disse que eu no estava em condies de lembrar nada, eu me lembro de tudo que aconteceu. Depois que Jerry me colocou
na cama, ficou me vigiando uns quinze minutos para se certificar de que eu no sairia de novo.
Midge comeu um pedao de sanduche.
- Voc est sendo infantil.
- No. Apenas prudente. Midge, quanto  noite passada... eu tinha que deix-la. No vou tentar explicar a minha atitude. S vou lhe dizer que... estava com medo
de arruinar tudo se tentasse prolongar aquele momento. Assim, fugi. Logo depois vi um bar e o resto voc j sabe. Olhe, sei que foi uma tolice, ou... uma infantilidade.
Ela no conseguiu resistir:
- Mas no foi prudente.
Terminou o sanduche e levantou-se para sair. Brian a acompanhou. Ele parecia hesitante, e ela o olhou com certa curiosidade.
- O que ?
- Jerry me contou que lhe falou alguma coisa a respeito de um restaurante francs em Albany. Gostaria de ir at l esta noite?
Midge ficou desapontada.
- No posso. Trent me convidou para ir ao Bergnof.
-  um bom lugar - disse ele, e Midge sentiu que se fechara de novo.
Seu corao doa ao se afastar dele.
122

CAPITULO XIII

Havia um carro estranho estacionado junto  manso Vandervelt quandcfMidge chegou. Clara foi correndo ao encontro dela, dizendo:
- Que bom! Estava torcendo para que chegasse logo. A sra. Strathmore est aqui, e a sra. Vandervelt disse que gostaria que voc tomasse ch com elas.
A ideia no era de todo atraente, mas Midge estava disposta a fazer algo por Maude.
- Clara, eu gostaria de me arrumar um pouco. Existe algum jeito de subir sem ser pela escada principal?
-  claro que sim.
Clara a levou at o outro lado da cozinha e abriu uma porta que dava para uma escada estreita.
Uma vez no quarto, Midge passou um pouco de batom e escovou os cabelos. Raramente via Wilson Strathmore, mas nas poucas ocasies em que se encontravam ele se mostrava
muito educado.
Fora educado at mesmo quando quase se chocara com ela  porta do escritrio de Brian. Mas estava visivelmente perturbado naquele dia, e agora Midge tentava adivinhar
por qu.
Ela desceu e entrou na biblioteca, onde se encontravam as duas senhoras.
Maude, ao v-la, disse:
- Que bom v-la, querida! Moira, esta  Midge Boardman.
- Muito prazer em conhec-la - disse Moira Strathmore com um sorriso sincero. - Agora compreendo por que todo mundo est mais feliz desde que voc se juntou ao pessoal
do Valley Voice. Acho que a nica
123
coisa que preocupa os executivos  que qualquer dia desses voc os abandone! Maude ficou apreensiva e interveio rapidamente:
- Tolice! Ela est aqui para ficar.
Midge, tentando manter o tom alegre, respondeu com um sorriso:
- Na verdade estou num perodo de experincia. Vamos ver o que acontece.
- Voc no tem com o que se preocupar, acredite - afirmou a sra. Strathmore.
Maude se alegrou.
- Moira me trouxe o ltimo arranjo de ikebana que fez - disse a Midge, mostrando um arranjo de flores que estava sobre a mesa. - No  encantador?
Estudando-o, Midge o achou esquisito. Moira colocara folhas de outono com trs crisntemos cor de bronze num vaso verde, baixo. O efeito era chocante.
Maude passou a ponta do dedo numa flor e disse:
- Veja: o mais alto, no centro, representa o Cu. O segundo  o Homem e o terceiro a Terra. Cu, Homem e Terra. Esta  a filosofia do ikebana. Est tudo aqui, e
no entanto  to simples.  disso que gosto. De linhas claras e em ordem.
A sentena era estranhamente reveladora. Maude estava usando o ikebana para explicar o prprio comportamento. Para ela, ficar na cama at a hora que quisesse e assistir
 televiso era um protesto, uma forma de revoluo, pois sua vida fora presa, bloqueada, pelo puritanismo de Horace Vandervelt. Embora ainda vivesse  sombra daquela
casa repleta de objetos de uma era hipcrita, Maude havia se voltado para uma forma de arte que- ressaltava a simplicidade ao ponto de austeridade. Era uma de suas
primeiras formas de expresso, o que Midge achou altamente significativo.
Ento uma ideia formidvel comeou a invadi-la e ela pensou, muito agitada, que talvez pudesse ajudar Maude. Como? Incitando-a a redecorar a manso inteira, algo
que a velha senhora, na certa, sempre quisera fazer.
Midge ficou to encantada com a ideia que precisou de muita fora de vontade para no entrar diretamente no assunto.
124
Depois que Moira saiu, Midge contou a Maude que iria jantar com Trent Clayton mas que, antes, tomaria o habitual copo de xerez.
Foi para o quarto trocar de roupa e, depois de pronta, desceu a escada, despreocupada, e j estava quase l embaixo quando viu Brian parado no corredor que levava
 cozinha. Automaticamente diminuiu o passo e, quando ele veio em sua direo, percebeu o quanto ele a afetava.
- Voc est linda! J est na hora de Trent vir busc-la? Midge sacudiu a cabea.
- No, ele s vir daqui a uma hora.  que prometi  sua tia que tomaramos xerez juntas antes de eu sair. - Ento riu e caoou: Passou a ressaca?
Brian tambm riu.
- Sim, embora eu deva admitir que j me senti melhor.
Ele a fitava com muita ateno, mas Midge estava ficando acostumada a isso; sabia que aquela era uma forma de comunicao. No entanto, percebia que agora a expresso
dele mostrava alguma coisa totalmente diferente da necessidade de ler os lbios. Os olhos, sempre to frios, brilharam e, num repente, Brian a abraou e a beijou.
Quando as mos de ambos se moveram para acariciar, para explorar, o tempo parecia ter parado. Foi um momento to bonito que Midge desejou que fosse eterno. Ento
Brian falou com voz rouca, os lbios contra os cabelos dela:
- Se eu no a soltar agora, voc ter que subir e se arrumar de novo!
- Brian...
- No, querida. No dificulte as coisas... por favor - endireitou-se e acrescentou, quase abruptamente: -  melhor ir tomar o seu xerez com tia Maude.
Midge concordou como se estivesse em transe, e s voltou  realidade quando, parada  porta da biblioteca, viu Maude sentada em sua poltrona favorita. Sobressaltou-se:
a velha senhora parecia mortalmente plida.
Ela est doente, pensou Midge. Ela est realmente doente!
Mas naquele momento Maude ergueu os olhos e sorriu, alegre.
- Clara j trouxe o xerez. Querida, voc est encantadora! - E comeou a encher os copos. - Brian esteve aqui agora h pouco. Eu o convidei para se juntar a ns,
mas ele no gosta muito de xerez. Na verdade, disse que est morto de cansao, vai comer qualquer coisa l no quarto mesmo e dormir cedo. s vezes ele faz isso.
125
- Ento a senhora vai ficar sozinha! Maude lhe entregou o copo de xerez e falou:
- No me importo em ficar sozinha, querida. Acho que posso dizer que estou acostumada. Fiquei sozinha a maior parte da minha vida. Mas s agora percebo isso.
O Berghof era um lugar agradvel, e Trent uma companhia divertida. Em circunstncias normais teria sido uma noite adorvel, mas estava faltando alguma coisa e Midge
sabia que Trent era astuto demais para no perceber isso.
J era quase meia-noite quando saram do restaurante. O tempo estava frio, o cu estava nublado e as rvores tocadas pelo vento pareciam gemer baixinho.
Trent falou, olhando para o cu:
- Parece at que j estamos no inverno. Voc est com frio?
- Oh, no. Apenas assustada: o inverno sempre me pareceu atemorizador.
J haviam chegado ao carro e ele lhe abriu a porta.
- Bem, tente no se preocupar. Logo vai se acostumar ao inverno daqui, que no  nada fcil. Geralmente h mais neve do que eu gostaria de ver.
- Eu no disse? No h como escapar do frio.
Trent deu partida no carro e olhou para Midge, perguntando:
- Midge, onde est e onde esteve a noite toda? Ela tentou sorrir.
- Fui uma companhia assim to ruim?
- No. Ter voc por perto  maravilhoso. Admito, entretanto, que gostaria que tivesse me dado mais ateno.
- Desculpe-me.
- No se desculpe - ele tentou sorrir enquanto prosseguia: - O que estou tentando lhe dizer  que me apaixonei por voc.
- Oh, Trent!
-  Brian Vandervelt, no ?  ele que voc ama, certo? No adiantava fugir.
- Sim.
- Por que, Midge?
- No creio que possa responder satisfatoriamente, Trent.
126
- Apenas aconteceu, no ? Est bem, est bem - ele exclamou, enquanto a fitava. - No vou entrar no mrito da questo. Aconteceu para mim tambm. Eu no pretendia
me apaixonar nunca mais.
Midge se viu tentada a dizer que duvidava que ele tivesse se apaixonado mesmo, mas se conteve, e um momento depois ele ps o carro em movimento.
- O que  que Brian Vandervelt tem? - ele perguntou, meio intrigado. - Est bem, vamos admitir que ele  atraente, mas no creio que isso seja suficiente. Falando
francamente, nunca conheci algum to frio.
- Pare com isso, Trent.
- Est bem, est bem. No se zangue. Mas se fosse outra mulher e no voc, eu diria que  a fortuna dele que a atrai.
Por um momento ela o detestou, e ele sentiu isso.
- Desculpe-me, Midge. Acho que sou um mau perdedor, isso  tudo. Entretanto, no pense que vou sair da histria. vou esperar at o ltimo momento.
Ela o fitou, imaginando o que queria dizer com aquilo, mas se sentiu estranhamente hesitante em perguntar.
J estavam nos subrbios de Coxsackie quando um dos pneus do carro furou. Ento ela viu um restaurante em frente, as luzes ainda acesas e Trent sugeriu:
- Podemos ir at l e, enquanto troco o pneu, voc toma um caf quente.
Midge concordou e estava tomando uma xcara de caf quando percebeu que algum parava a seu lado.
- Srta. Boardman - disse um homem, e ela se virou, vendo Mike Stabler.
O rosto do editor de negcios estava corado e ela suspeitou que ele andara bebendo, ainda que falasse claramente:
- Que tal levar o seu caf para minha mesa enquanto Clayton troca o pneu? Eu estava mesmo querendo lhe falar.
Ela concordou e foi at a mesa de Mike, que tentava se manter sbrio. Midge sentiu pena dele.
Ciem Thorne mencionara que Mike Stabler fora considerado um jornalista de primeira classe em Nova York, no muitos anos atrs. Na certa tivera problemas pessoais
e procurara refgio na bebida.
127
Ele acendeu um cigarro com dedos trmulos e disse:
- Nunca tenho chance de conversar com voc no jornal, no ? Aquilo foi uma surpresa para Midge: nunca imaginara que Mike
quisesse falar com ela. Mas disse apenas:
- Bem, acho que  porque sempre temos muito trabalho. Ele concordou.
- Publicidade no  o meu forte, mas reconheo um bom trabalho quando o vejo. E voc est fazendo um timo trabalho.
- Obrigada. Ele sorriu.
- Voc  bonita; posso entender por que Brian Vandervelt est to apaixonado. - Ento, antes que Midge pudesse responder, ele disse: Olhe, se pensa que sou um intrometido,
no a censuro. Eu pensaria o mesmo se estivesse no seu lugar.
- No penso que seja um intrometido - ela se viu dizendo. - Na verdade, tenho a impresso de que  o nico amigo verdadeiro que Brian tem no jornal.
- Voc est certa - disse ele solenemente, e em seguida perguntou abruptamente: - Voc conheceu Horace Vandervelt?
- No.
, - No perdeu nada. Ele poderia ter dado aulas ao marqus de Sade!
- Midge percebeu que os olhos vermelhos dele eram muito astutos. Voc se preocupa com Brian, no ?
Ele no tinha direito algum de lhe fazer tal pergunta. No entanto, ela se viu respondendo:
- Sim. Sim, eu me preocupo.
- Ento - disse Mike asperamente -, no o deixe fugir. Brian tem umas ideias loucas a respeito da prpria vida e vai ter que domin-las qualquer dia destes, mas
no vai ser fcil. Ele d a impresso de ter tudo na palma da mo, mas o livro nem sempre corresponde  capa, voc sabe. Quando perdeu a audio, perdeu muito da
sua autoconfiana tambm, e s vezes  muito inseguro. H momentos em que  difcil se chegar a ele.
- Eu sei, e admito que s vezes acho isso muito... desanimador. Creio que Brian perdeu a confiana nas mulheres quando a noiva lhe deu o fora, mas h mais do que
isso. A garota com quem estava naquele horrvel acidente morreu. Esta  uma lembrana com a qual ter que viver pelo resto da vida.
128
Mike sacudiu a cabea, impaciente.
- Brian no estava envolvido com a garota que morreu.
Perplexa, Midge lembrou que Jerry havia mencionado algo parecido. Mas as circunstncias do acidente de Brian ainda no estavam claras para ela, portanto insistiu:
- O que est querendo dizer?
- A garota que morreu estava com outro homem, tambm aspirante da Marinha - Mike explicou. - Brian me contou toda a histria, e o que aconteceu  que ela foi at
o chal porque estava frio e resolveu ligar o aquecedor. Era uma daquelas coisas obsoletas, sem nenhuma segurana; Brian disse que no era usado h muito tempo.
No sei todos os detalhes tcnicos, mas parece que j estava escapando gs, ou no teria acontecido o que aconteceu. A verdadeira acompanhante de Brian estava na
praia, com os outros, no momento da exploso. Parece que o nome dela era Sally; costumava ir v-lo quando ele estava no Centro Mdico Naval em Bethesda, Maryland.
Brian havia ido buscar mais cervejas... Tinha acabado de entrar quando houve a exploso.
Midge estremeceu.
- Ele foi expulso de Annapolis?
- No. Na verdade, era um aluno to bom que se formou mesmo sem poder fazer os exames finais. Recebeu o diploma no hospital. Mas no havia mais chance de seguir
carreira como oficial da Marinha.
- Parece que a mulher de quem estava noivo agora est casada e mora em Albany, no ?
Mike a fitou atentamente.
- Foi o que ouvi dizer. Fiquei sabendo tambm que o casamento no vai indo muito bem; na verdade algum mencionou que ela telefonou para Brian ainda outro dia -
Midge sentiu um n na garganta e Mike continuou: - Olhe, no tire concluses precipitadas. Brian no  tolo, sabe o que faz. E nunca amou profundamente Grace. Quando
ela lhe deu o fora, acho que foi mais o orgulho dele que ficou ferido. Os dois se conheceram numa regata no rio Hudson; em seguida ela foi para um colgio no sul,
e fiquei sabendo que comearam a namorar quando Brian j estava em Annapolis. Ele a pediu em casamento no Natal, no ltimo ano que passou l. Tenho a impresso de
que foi tudo consequncia do vinho e do champanhe. Se ele se importasse com Grace no teria ido  praia com outra garota. Mas o que me preocupa agora  que falta
apenas
129
llllil
uma semana para o dia primeiro de novembro. Voc sabe a respeito do testamento?
- Sim.
- Sabe da reunio que vai haver? Midge franziu a testa.
- Reunio? Que reunio?
- Est marcada para o meio-dia do dia primeiro de novembro, no escritrio de Brian no jornal. Todos os que foram mencionados no testamento tero que estar l. Isso
significa os chefes de departamento, Maude Vandervelt, a turma toda. A irm de Brian tambm, se quiser proteger os prprios interesses.
- No creio que Becky planeje vir.
- Talvez voc possa convenc-la do contrrio - Mike sugeriu, acrescentando, diante da expresso de surpresa dela: - Sim, sei que vocs so amigas. Brian confia um
bocado em mim, Midge, e eu nunca tra essa confiana. Jamais farei isso. Nunca falei sobre Brian como estou falando agora. Ele  uma tima pessoa. No merece o
que est passando. Espero apenas que consiga vencer. A tentao  uma coisa diablica!
Ela o fitou, sentindo um arrepio na espinha. com poucas palavras Mike Stabler fizera o perigo que pairava sobre Brian parecer mais tangvel, mais real do que nunca.
- Se Brian ainda estiver vivo no dia primeiro de novembro - ele prosseguiu -, vai herdar muito dinheiro. Se estiver morto, ento a irm dele herdar a metade e os
quatro chefes de departamento recebero o resto. Oh, acho que haver mais alguns beneficiados, mas no eu, pode ter certeza disso. Eu no era um dos favoritos do
velho. Se a irm de Brian tambm estiver morta no dia primeiro de novembro, ento os chefes de departamento recebero tudo, at mesmo a casa, assim que a velha Maude
morrer. Se apenas trs deles ainda estiverem vivos, s os trs recebero. E assim por diante.
Midge arregalou os olhos. O conceito era fantstico, ia quase alm da compreenso.
- Que coisa terrvel! Mike a observou.
- J vi muita coisa na minha vida, mas acho que nunca encontrei um motivo melhor que este para um assassinato. Estive tentando me convencer de que talvez ningum
seja assim to ambicioso, mas de que
130
adianta ser ingnuo? Este  um jogo louco, parece uma roleta russa. Voc conhece Jerry Mueller. Converse com ele, est bem? Brian deve ser protegido esta semana.
Alis, todos os que devero estar na reunio tm que ser protegidos. Faa Mueller compreender isso, est bem?
- vou tentar.
Nesse momento Trent entrou e ergueu as sobrancelhas ao v-los juntos. Mike se levantou e disse:
- Oi, Clayton, sente-se aqui. J estou de sada.
E se afastou, cambaleando, o que levou Midge a pensar que ele estava mais bbado do que imaginara. No entanto, falara de uma forma to coerente!
- Por que  que voc e Stabler estavam juntos?
- Ele me convidou para sentar  mesa. Trent franziu a testa.
- Ele  um bbado. Mas, apesar de toda a bebida,  muito mais astuto do que se pode imaginar. E conhece muito bem os negcios dos Vandervelt. Ele  cunhado de Andrew
Summers, o advogado que redigiu o testamento louco de Horace Vandervelt. Stabler era casado com uma irm de Summers, e tinham uma filha que morreu afogada com onze
anos. A esposa dele sofreu muito, e Stabler achou que seria bom voltarem para Coxsackie. Summers lhe arrumou um emprego no jornal. Ele no bebia muito naquela poca
e era um timo editor. A esposa adoeceu e morreu na poca em que Brian saiu do hospital. Na verdade, Brian ainda estava convalescendo quando Horace o transformou
em editor do jornal. Foi uma situao desagradvel, mas tenho que estender a mo a Stabler. Ele conhecia Brian desde que este era criana e lhe ensinou muita coisa
sobre jornalismo. Quando ele foi nomeado editor, Stabler nada fez contra isso; ao contrrio, ajudou Brian no que foi possvel. Nesse meio-tempo, entretanto, comeou
a beber cada vez mais. Horace nunca soube disso porque Brian escondia, e muitas vezes assumia a responsabilidade por erros de Stabler. Os dois criaram uma amizade
muito forte. Eu diria que Brian confia mais nele do que em todos ns juntos.
Depois que saram do restaurante, Midge ficou pensando nas coisas que Mike Stabler lhe dissera. Torceu para ter uma chance de conversar logo com Jerry Mueller. Porm,
mais do que tudo, estava preocupada com Brian...
131

CAPTULO XIV

O ltimo sbado de outubro estava realmente espetacular. Midge acordou e desejou estar mais descansada para aproveitar o dia. Sabia que seria bom tomar um pouco
de ar; assim, vestiu um jeans, um suter cor-de-rosa e foi at a cozinha.
Clara no se encontrava l, mas Brian sim. Ele usava jeans e um velho suter azul, e estava to lindo que Midge no pde conter um suspiro.
Examinando-lhe o rosto, ele disse:
- Voc parece ter tido o mesmo problema que eu tive ontem.
- No. Apenas no dormi muito bem. O olhar dele era arguto.
- Pegue um pedao de torrada. vou fazer mais. - E, apesar do protesto dela, de que podia se arrumar sozinha, ele lhe serviu um suco de laranja. Depois perguntou:
- Voc se divertiu ontem  noite?
- Sim.
- Sabe, no conheo Trent fora do ambiente de trabalho, mas imagino que seja uma pessoa interessante.
- Oh, ele . E sabe ser divertido. Mas houve um contratempo ao voltarmos para casa e isso no o deixou muito alegre.
- Voc chegou tarde - disse Brian, e ela no escondeu a surpresa. Ao notar-lhe a expresso, ele comentou rapidamente: - No pense que eu a vigiei.  que no conseguia
dormir e estava olhando pela janela quando a vi chegar.
Midge sorriu; um sorriso que demonstrava sua incredulidade. Ento ele insistiu:
132
- Eu no estava olhando para o relgio e contando os minutos que faltavam para voc chegar!
- Se eu achasse que estava, ficaria lisonjeada.
A voz dela soou travessa e alegre, mas ele acabou com sua descontrao. Fez uma cara sria e disse:
- Vamos mudar de assunto? No gosto desse tipo de conversa. Aquilo a irritou.
- ... parece que voc prefere mesmo a ao direta, no ? Nada de palavras. S atos.
Ele franziu a testa.
- Se est querendo dizer que no sou capaz de manter as minhas mos longe de voc, admito que est certa. Mas nunca encontro resistncias... Por acaso  essa a sua
maneira de ser caridosa?
Midge resistiu ao impulso de lhe jogar o suco de laranja na cara e falou, exasperada:
- Ser que tem que confundir tudo? A vida seria bem mais fcil se voc no ficasse tanto na defensiva!
- No estou na defensiva - disse ele friamente. - Entretanto, sou realista.
- ? Pois parece que passa boa parte do tempo remoendo as suas desgraas. No seria boa ideia pensar um pouco em outras coisas?
- Ento voc agora resolveu se tornar minha psicloga, hein?
Ela o conhecia o suficiente para saber que sua observao o magoara demais.
- Brian, desculpe-me.
- Sei o que est insinuando, Midge. Como muitas outras pessoas, voc acha que tenho sorte, pois, a no ser que me acontea alguma tragdia dentro de uma semana,
vou herdar a fortuna de meu tio - cada palavra parecia uma pedra de gelo, e a expresso dele era irnica ao continuar: - Gostaria de esclarecer umas coisas. Na verdade,
me sinto um homem de sorte em muitos sentidos, mas herdar a fortuna de meu tio, se  que vou herd-la, no  necessariamente um deles. O dinheiro no compra tudo,
embora funcione em muitos casos. Por exemplo: eu poderia comprar uma esposa, mas no seria o tipo de mulher que desejo. Teria que ser uma atriz muito boa para me
fazer acreditar que no est cansada de viver comigo. Tenho certeza de que sabe que a minha noiva me deu o
133
fora quando descobriu que eu estava surdo. Bem, no lamento isso; foi melhor para ns dois.
Brian parou de falar assim que Clara entrou na cozinha.
Midge ficou satisfeita com a interrupo. Sabia que aquela conversa terminaria, como sempre, em discusso.
Clara olhou para os dois e ps as mos nos quadris.
- Seus moleires! Um dia to lindo como este! Por que no vo jogar um pouco de tnis?
Brian olhou para Midge e perguntou, num tom de voz quase normal:
- Voc quer?
- Sim - Midge respondeu, lembrando a si mesma que qualquer dia teria que abenoar Clara.
Brian pegou as raquetes e eles saram pela porta da cozinha.
- Voc vai se aborrecer jogando comigo. No sou muito boa nisso.
- Bem, eu tambm no.
Mas era. Jogava bem melhor que Jerry Mueller e a venceu facilmente. Quando tinham terminado dois sets, ela insistiu:
- Eu disse que no seria muito divertido, no disse?
- Mas foi. Na.verdade, se voc mudasse um pouco a tcnica...
Brian se aproximou e comeou a lhe ensinar como segurar melhor a raquete. Aquela proximidade fez com que o corao de Midge disparasse, e foi com alvio que ela
ouviu uma voz familiar:
- Que maneira inteligente de jogar!
Era Jerry Mueller. Brian sorriu, malicioso.
- Acha que eu iria desperdiar uma oportunidade dessas?
- Essa  tambm a minha filosofia - Jerry respondeu, mas o sorriso nos lbios dele no correspondia  expresso em seus olhos. - Acho que eu j devia estar acostumado
a dar ms notcias, Brian, mas no me acostumo com isso. Bem,  sobre Mike Stabler. Ele morreu esta madrugada.
Brian, que ainda segurava o brao de Midge, apertou-o como a buscar amparo.
- Como aconteceu?
- Ele foi atropelado. O motorista fugiu. Dizem que ele morreu na hora.
O dia perfeito se acabara. Brian saiu com Jerry e Midge foi at o mirante, onde se sentou, pensando na noite anterior e na conversa que
134
tivera com Mike Stabler. Lamentava-lhe a morte, especialmente porque era amigo de Brian e queria proteg-lo.
A tarde estava quase no fim quando Brian voltou. Assim que ouviu o barulho do carro, Midge foi se encontrar com ele.
- J conhece os detalhes do acidente? Ele sacudiu a cabea, desolado.
- No. Calculamos que ele devia estar indo para o jornal. Parece que aconteceu depois da meia-noite.
- Deve ter sido... Brian, lembra-se que lhe contei que tivemos um contratempo ontem  noite? Um dos pneus do carro de Trent furou. Estvamos perto de um restaurante
na estrada e eu entrei para tomar um caf. Mike estava l e... bem, ns ficamos conversando.
-  mesmo? Ento suponho que dali ele tenha ido para o jornal. A polcia acha que estava atravessando a rua quando algum o atropelou e prosseguiu, com ar triste:
- Ainda no posso acreditar. Mike era um bom amigo e um timo jornalista. vou sentir falta dele...
- Quer beber alguma coisa? - perguntou Midge, ao ver a expresso sombria de Brian.
- Sim. Vamos pegar alguma coisa do estoque particular de meu tio. A propsito: tia Maude j sabe sobre Mike?
- No.. Ela ainda est no quarto - Midge franziu a testa. - No acho que ela deva ficar trancada tanto tempo assim.
- Eu sei, e preciso falar com o dr. Mueller sobre isso. Ainda no sei se foi ele quem prescreveu este tipo de comportamento ou se foi ela quem adotou por conta prpria
- olhou para o relgio. - J so quase cinco e meia. No vejo motivo para ela ainda estar na cama. A no ser que no esteja bem.
Midge o acompanhou at a sala de jantar, onde havia um armrio com um grande estoque de bebidas.
- Bem - disse ela, aproximando-se para ler os rtulos -, Hairge Haig Pinche, Jack Daniels, Tanqueray, Benedictine e Brandy. Seu tio gostava das melhores marcas,
no ?
Brian, inclinado sobre o armrio, tinha apanhado uma garrafa de usque. Endireitando-se, perguntou:
- Voc disse alguma coisa?
- Sim. Eu estava admirando o bom gosto de seu tio.
135
Midge notou que aquela mscara de frieza comeava a dominar-lhe o rosto, como sempre acontecia quando ele se lembrava da surdez,
- Brian, por favor! No fuja novamente! Ele sacudiu a cabea.
- Midge, oua... No quero falar...
- Mas vai falar, e vai ouvir. Voc se retrai todas as vezes que alguma coisa o faz lembrar da surdez. Voc parece mesmo fugir... e eu no consigo acompanh-lo.
- Voc no gostaria de me acompanhar - disse ele secamente. No h nada a ser dito no mundo do silncio, acredite.
- Mas o seu mundo no  feito s de silncio!
-  verdade. Tenho o meu aparelho de surdez. Mas ouvir com um aparelho eletrnico no  algo real, agradvel. Alm disso, alguns sons podem me deixar zonzo, como
um co latindo ou um grupo de pessoas conversando numa festa, especialmente numa sala onde a acstica  ruim. Sou grato ao aparelho de surdez, mas s vezes mal posso
esperar para deslig-lo - sorriu, melanclico. - Isso j  suficiente? Porque no  meu assunto predileto.
- Est bem. Voc venceu.
Ele hesitou; em seguida encolheu os ombros.
- Oua, admito que existe uma razo pela qual s vezes eu pareo fugir.  que quando estou com voc quase esqueo que sou surdo. Ento acontece algo que me faz lembrar,
o que piora tudo. Pode entender isso?
- Acho que sim. Sabe, quando conversei com voc pela primeira vez pensei que ouvisse to bem quanto qualquer outra pessoa.
Ele a fitou, perplexo.
- O que est querendo dizer?
- Que s fui perceber o seu problema quando me contaram. At ento eu o tratava como uma pessoa... digamos... normal.
Ele sorriu.
- Quando me lembro do nosso primeiro encontro, tenho vontade de rir. Foi muito maluco, no foi? - levantou uma garrafa e disse: - No consigo suportar a decorao
vitoriana desta casa.  por isso que passo grande parte do tempo na cozinha. Vamos at l para beber?
- Vamos.
Enquanto se sentavam  mesa, Brian disse:
136
- Se tia Maude no aparecer logo, vou ter que procur-la. Voc ouviu algum rudo no quarto dela?
- No, no ouvi. Mas vamos esperar mais uns quinze minutos. Depois irei at l. Neste momento Clara entrou na cozinha.
- Bem, a sra. Vandervelt acabou de me chamar pelo interfone. O que vocs dois esto fazendo? Brian! Uma bebida forte! Seu tio vai virar no tmulo!
- A bebida  dele - disse Brian calmamente. - Clara, tia Maude sempre fica no quarto at to tarde?
Clara pensou um pouco e concluiu:
- Sim. Parece que cada vez est ficando at mais tarde. Exceto nos dias de ikebana.
- O que ela fica fazendo?
- Vendo televiso e comendo chocolate. .
- Mas isso prejudica a sade! - protestou Midge.
- A sra. Vandervelt no est pensando na sade. No nesta altura do jogo - respondeu Clara. - Ela est recuperando o tempo perdido.
Midge e Brian jantaram com Maude naquela noite, e depois ele ficou assistindo televiso com elas, para grande satisfao da velha tia.
Domingo foi um dia quieto. Brian saiu com Jerry, e Midge imaginou que isso tinha algo a ver com a morte de Mike Stabler. Escreveu algumas cartas e passou o resto
da tarde lendo.
Brian chegou para jantar, mas subiu logo em seguida. Quando saiu da sala, inclinou-se e beijou a testa de Maude, que corou de prazer.
- Brian est voltando ao que era - observou a velha senhora. Vocs dois formam um lindo casal.
- Sra. Vandervelt, no deve pensar...
- No estou tirando nenhuma concluso precipitada, querida.  que tenho olhos para ver!
Ento sorriu e mudou de assunto antes que Midge pudesse responder. Ficou falando sobre ikebana e logo estava ouvindo as ideias de Midge sobre o que devia ser feito
com a decorao da casa.
Os olhos de Maude brilhavam.
- Se ao menos eu pudesse modificar essa velharia...
137
- Existe alguma razo para que no possa?
- Horace - Maude suspirou e, ao ver o rosto surpreso de Midge explicou: - No fique to assustada, querida. No  que eu acredite eni fantasma; apenas no consigo
imaginar Horace se permitindo morrer. E mudar a casa ser como enterrar para sempre a lembrana dele.
- Sra. Vandervelt... - Midge hesitou um pouco e prosseguiu com cautela: - Ele sempre foi assim to cruel?
- No. Horace nunca foi uma pessoa extrovertida; nunca foi fcil, para ele, fazer amigos. Mas, no comeo, no era o homem amargo que se
tornou depois. Fui eu quem o fez ficar assim...
- A senhora?
- Sim. Eu fui infiel. Era inacreditvel.
- Desculpe-me. Eu no devia ter feito uma pergunta dessas.
- Oh, mas eu quero falar sobre isso. Nunca contei a ningum, mas quero que voc saiba - sorriu debilmente. - Aconteceu h muito tempo, no incio da Segunda Guerra
Mundial. Horace e eu estvamos casados h sete anos; no tnhamos filhos, e eu queria desesperadamente um. Ele estava imerso nos negcios e eu me sentia solitria,
vagueando por esta casa enorme. Ento Mark Vandervelt, o pai de Brian e irmo mais novo de Horace, veio para c no Natal. Horace nunca foi atraente, mas Mark...
Bem, Mark era parecido com Brian. Um dia depois do Natal, Horace nos encontrou juntos. Imagine s, eu era dez anos mais nova que Horace e Mark era mais novo que
eu, o que tornava tudo ainda mais escandaloso. Alm disso, eu  que era casada. Assumi toda a responsabilidade, mas Horace culpou a ns dois. Nunca mais permitiu
que Mark entrasse nesta casa. Alguns anos mais tarde Mark se casou com uma-jovem de Richmond, e depois de certo tempo os gmeos nasceram. Eles tinham apenas dez
anos quando Mark e a esposa morreram. Horace queria coloc-los num orfanato, mas jurei que o abandonaria
se fizesse isso. Ele tinha l seu orgulho, preocupava-se
com o que a comunidade pensava, e teria sido uma desgraa se a esposa o abandonasse. Fizemos um trato, ento. Concordamos que as crianas iriam para um colgio mas
que viriam para c nas frias. Agora penso que, todas as vezes que Horace olhava para Brian, tudo o que podia ver era Mark. At aquele Natal ns sempre compartilhamos
os aposentos onde voc est agora, mas depois nunca mais vivemos como marido e mulher. Fui para o quarto do
138
outro lado do corredor, de onde se podia ver o rio. Ento, aps a morte de Horace, o dr. Mueller disse que seria melhor eu ficar aqui embaixo, por causa do corao.
- Sra. Vandervelt, eu...
- No conte para ningum, minha querida. Nunca.
- Pode ficar sossegada - Midge prometeu, comovida. O sorriso de Maude era ansioso.
- Eu o amava. Amava Mark, quero dizer. Quando ele se casou com a
me de Brian chorei muito. Tolice, no ? Mas mesmo agora, quando Colho para Brian, parece que estou vendo Mark...
139

CAPITULO XV

Segunda-feira era sempre um dia de muito trabalho no jornal, e essy no constitua uma exceo. S que havia mais um problema alm dos habituais.
A morte de Mike Stabler chocara a todos. A atmosfera estava carregada, as pessoas tendiam a falar em voz baixa e Midge notou que at mesmo Lucille Mueller colocara
um vestido austero, de cor escura.
Por falar em Lucille, ela parecia mais tensa do que nunca, e havia uma certa reserva em suas maneiras ao dizer "bom dia": no havia nenhum toque da alegria habitual.
"Ela no gosta de mim", pensou Midge. Achou que algum devia dizer a Lucille que um homem no estava necessariamente interessado numa mulher s porque falava sempre
com ela.
No conhecia Jerry muito bem, mas ele era o melhor amigo de Brian, e isso bastava. Se ele gostava ou no de mulheres atraentes no era problema dela. Lucille estava
exagerando. Jerry no merecia esse tipo de tratamento.
Enquanto se dirigia para o setor de publicidade, Midge teve a sensao desagradvel de que algum contara a Lucille que Jerry estivera com ela nos Maple.
Ciem e Ellen j estavam no escritrio quando Midge entrou. Ciem nunca fora extrovertido, mas Ellen estava absolutamente desolada. Os olhos vermelhos, ela parecia
ter chorado muito, e Midge imaginou se aquelas lgrimas teriam sido mesmo derramadas por Mike Stabler. No poderia imaginar que ela e Mike fossem amigos.
J acomodada em sua escrivaninha, Midge notou a prova do texto da
140
edio especial sobre o tempo. Fora impresso no fim de semana e seria distribudo com o jornal daquela quinta-feira. Parecia muito bom. Midge ficou satisfeita com
o prprio trabalho e entusiasmada com os desenhos de Ellen. Mas aquele no lhe parecia o momento certo para dizer isso 
moa. Ultimamente Ellen andava muito esquisita;
vrias vezes Midge percebera olhares cheios de suspeita que ela lhe lanava. Por qu? Por causa de Trent? Era verdade, Ellen estava apaixonada por pent; pelo
menos parecia. Mas que culpa tinha Midge se as coisas no corriam como Ellen queria?
E Trent, onde estaria? Talvez na reunio rotineira de todas as segundas-feiras, o que se confirmou quando ele entrou, alguns minutos depois, parecendo austero
e preocupado. Depois de acenar ligeiramente para os membros da equipe, fechou-se em sua sala.
Um momento mais tarde chamou Midge, que entrou e sentou-se ao lado da escrivaninha dele.
- Maldito Vandervelt!
Ela ergueu os olhos, confusa, e Trent observou secamente:
- Desculpe-me! Eu esqueci os seus sentimentos em relao a ele.
- Trent, por favor...
- No se preocupe - disse ele, fazendo um gesto de indiferena. No  nada pessoal em relao a Vandervelt. Ele apenas estragou o jornal desta semana.
- De que jeito?
- Quer imprimir um tributo especial a Mike Stabler e isso vai acabar com a parte de propaganda. vou ter que suprimir muitos anncios para acomodar o editorial que
ele planejou. Que diabo! Stabler est morto!
No era a primeira vez que Midge se via invadida por um sentimento de antipatia por Trent. Procurando se reprimir para no dizer o que tinha vontade, observou:
- Acho que Stabler merece isso, Trent.
- Por qu? Voc o viu na sexta-feira  noite; ele ficou babando o tempo todo. No conseguia nem mesmo andar em linha reta. Acho que ele  que foi de encontro ao
carro, e que o motorista est com medo de contar isso.
Midge o fitou friamente.
- Esta  a sua opinio. Pessoalmente no creio que ele estivesse assim to bbado. Cansado, talvez, e havia tomado alguns drinques, mas isso
141
no significa que estivesse to embriagado como voc parece pensar que estava.
- Voc sempre defende a vtima, Midge?
A insinuao estava clara: Trent tambm inclua Vandervelt entre as vtimas. Midge ficou magoada mas disse, em tom firme:
- No importa. O que quer que voc pense, ou o que eu pense, no vai devolver a vida a Mike. E me parece que o mnimo que o jornal pode fazer  um editorial em homenagem
a ele.
 medida que o dia passava, Midge comeou a perceber que uma nova sensao desagradvel estava pairando no Valley Voice.  morte de Mike Stabler tinha trazido 
baila o fato de que o perodo experimental do testamento de Horace Vandervelt estava chegando ao fim. Cada hora que se passava era um lembrete de que no sbado haveria
alegria ou tristeza para os quatro chefes de departamento, dependendo do que acontecesse a Brian.
A tenso se tomara uma coisa to tangvel que ela tentou se concentrar no servio, mas isso se tornou impossvel. Para piorar, Trent no os deixava em paz. Estava
tenso, e no s ele: Fritz Handel tambm.
Ela sabia que Brian confiava muito em Handel mas, naquele momento, ao ver o olhar inamistoso que ele lhe dirigia por trs dos culos espessos, Midge chegou bem perto
de odi-lo. Viu-se imaginando o que poderia significar herdar uma fortuna para algum como Handel, e esse no foi um pensamento agradvel.
Mais tarde, Wilson Strathmore passou por ela sem mesmo parecer v-la; e, quando Midge saiu para almoar, Abe Weissmar cumprimentou-a com ar distante.
Quanto a Brian, ficou fechado no escritrio o dia todo. Midge no u viu e, quando deixou o jornal, no fim da tarde, sentia-se esgotada, fsica e emocionalmente.
Na verdade, estava to cansada que, quando chegou  manso, no percebeu que o carro branco dele estacionou atrs do seu.
- Voc me assustou, Brian.
- Parece que hoje no  mesmo o meu dia - caoou ele, mas em seguida examinou-a com maior ateno e franziu a testa. - Voc parece exausta.
- Bestou.
- No h necessidade de trabalhar tanto assim. Trent est exigindo muito?
142
- Oh, no.
Brian no pareceu acreditar.
- Voc no precisa proteg-lo.
- Eu no o estou protegendo, Brian.
- Suponho que ele lhe contou como ficou aborrecido esta manh, porque eu cortei a publicidade desta semana.
No adiantava fingir para Brian; h muito ela aprendera isso. Hesitando um pouco, respondeu:
- Sim, ele me contou.
- E qual  a sua opinio sobre o assunto?
- Acho que Mike Stabler merece essa homenagem. Ele a observou atentamente.
- Obrigado, Midge. Quando tomei a deciso, no pude deixar de imaginar qual seria a sua opinio a respeito.
- Voc duvidava que eu concordaria?
- No, mas existe muita diferena entre os pontos de vista publicitrio e editorial. Temos que considerar a renda, naturalmente, -e tento manter uma proporo lgica
entre as duas coisas. No entanto, existem momentos em que os lucros deixam de ser a coisa mais importante.
Havia um significado especial na maneira como ele dissera isso e ela o fitou, observando-lhe o olhar atento.
- Continue, Brian.
- Trent no concorda comigo.
- No, no concorda. A filosofia dele  diferente.
- ... bem diferente Midge...
- Sim?
Brian murmurou algo em voz baixa e em seguida pareceu fitar o vazio. A tenso era contagiante; ela sabia que Brian, mais que qualquer outra pessoa, devia estar sentindo
toda a carga daqueles dias decisivos e desejou que houvesse um meio de lhe facilitar as coisas.
"Se ao menos ele me amasse!", pensou. Se ao menosdesse o primeiro passo em direo ao que ambos queriam. Se ao menos a tomasse nos braos e se esquecesse do resto
do mundo...
Brian, entretanto, no estava disposto a esquecer o resto do mundo. Encarou-a e disse abruptamente:
- Trent no  o homem certo para voc, Midge. - e em seguida,
143
enquanto ela o fitava, confusa, acrescentou secamente: - Mas no tenho nada a ver com isso, no ?
Ela custou a se recuperar da surpresa, mas ento j era tarde demais para responder; ele havia-se virado e estava se dirigindo para a biblioteca. Midge sabia que
no devia tentar intercept-lo. A parede, pensou, estaria firme, com cada tijolo devidamente cimentado; nesse momento no haveria fendas por onde entrar.
Brian se uniu a ela e a Maude para jantar. Mas um olhar ao rosto sombrio mostrou a Midge que ainda no era a hora de falar nada. Ele parecia indiferente como nunca;
falou pouco e houve ocasies em que o silncio era to opressivo que Midge tinha a impresso de que seus nervos iriam arrebentar.
Maude j sabia da morte de Mike Stabler; Midge calculou que Brian lhe contara. A velha senhora falou um pouco sobre ele, mas Brian respondia apenas com monosslabos.
Na verdade, parecia no querer ouvir o que lhe diziam. ,
Midge tinha a impresso de que aquela atitude estranha no se devia tanto  morte de Stabler, embora Brian a sentisse muito. Tinha algo a ver com Trent Claytn e
com ela, e isso a perturbou.
Na tera-feira de manh Midge acordou com o barulho da chuva e, quando desceu, encontrou Brian na cozinha, terminando o caf. Para seu alvio, o humor dele melhorara.
Pelo menos a cumprimentou de maneira razoavelmente amigvel e insistiu em lhe servir o caf.
Enquanto lhe entregava a xcara, ele olhou pela janela e observou:
- Que dia para um funeral!
- Ser hoje?
- Sim. s duas horas.
- Se quiser, poderei ir com voc.
Os olhos cinzentos se demoraram um pouco no rosto dela.
- Obrigado, mas no  preciso. Na verdade, os chefes de departamento planejam ir como uma espcie de "delegao" do jornal ele se serviu de outra xcara de caf
e observou, melanclico: - Talvez sejamos os nicos. Ns e Andrew Summers, o nosso advogado, cunhado dele. Mike no tinha mais ningum. Nem muitos amigos. Nestes
ltimos anos andava muito s.
Aquilo doeu. Brian tambm corria o risco de se tornar um homem muito s e sabia disso.
144
- Oh, Brian, eu acho que...
- Poupe a sua caridade. No tenho nenhuma tendncia a ser um eremita. Tampouco tenho averso s mulheres. Bem, eu no odeio os homens nem as mulheres. Na verdade,
acho que j lhe demonstrei isso. Mas s vezes  preciso seguir sozinho.
Ela engoliu em seco; depois se atreveu a perguntar
- Isto se aplica a voc? Seguir sozinho, quero dizer.
- Acho que sim - disse ele aps um momento, desviando o olhar. O que significava que no queria ouvir mais nada.
Midge teve vontade de sacudi-lo violentamente. Gostaria de repreend-lo pela teimosia e ento abra-lo e beij-lo apaixonadamente. Queria atra-lo para um maravilhoso
osis, onde pudessem ficar juntos, longe de todo o resto. Ento disse, quase sem querer:
- As pessoas no foram feitas para viverem sozinhas.
- O qu?
- Nada.
Ele pareceu frustrado e, surpreendentemente, no teve medo de mostrar o que sentia:
- Quando no posso entender o que voc diz, apreciaria se repetisse. Sei que  aborrecido, mas...
Midge o fitou, impaciente.
- Voc nunca disse algo de que se arrependesse?
- Sim, mas muitos de ns no tm essa opo. A pessoa com quem falamos ouve o que dizemos na primeira vez.
L estava aquela frieza novamente; Midge parecia sentir a fragilidade dele e suspirou. Brian tinha um jeito especial de se distanciar dos outros, de se esconder
num abismo impossvel de ser transposto.
- Voc vai ou no repetir o que disse?
- Muito bem - ela respondeu, tentando enfrentar a indiferena dele.
- Foi s uma observao. Eu disse que as pessoas no deviam viver sozinhas. Acho que isso  uma verdade, acredite ou no.
- No creio ter dado indicao de que no acreditava.
- Ento a solido s  ideal quando se aplica a voc, no ? Voc tem o direito de se fechar na sua torre de marfim, independentemente de todas
as outras pessoas.
No diga bobagens! - ele acusou, e Midge viu, com satisfao,
145
que havia conseguido atingi-lo. - Que diabo, voc sabe muito bem sobre o que estou falando! Pelo amor de Deus, eu...
Calou-se de repente e ela pensou que mais uma vez ele queria encerrar o assunto. Mas continuou tranquilamente:
- Infelizmente, qualquer coisa que eu disser a meu respeito  quase como apelar para a autopiedade. E no  isso que quero, acredite. No preciso e no quero a piedade
de ningum, nem costumo sentir pena de mim mesmo. Luto pela minha vida.
- Luta mesmo?
Surpresa, notou que ele enrubescia.
- Bem, at h pouco tempo eu pensava que sim.
Nesse momento foram interrompidos por tom, que estava procurando qualquer coisa na cozinha.
Midge sentiu-se frustrada. Parecia que, cada vez que ela e Brian estavam comeando a se entender, algum chegava para pr um ponto final naquilo.
Depois que tom saiu, Brian olhou para o relgio.
-  melhor eu ir at o jornal - olhou de novo pela janela, observando: - Est chovendo muito. Olhe, no h necessidade de sairmos com os dois carros hoje. Por que
no vai comigo? Voltarei do enterro antes que voc termine o seu servio.
Muito surpresa, Midge aceitou o convite. Alguns minutos depois estava ao lado dele no carro e, estando ao lado dele, tudo lhe parecia maravilhoso.
Logo chegaram ao jornal e Brian estacionou. Em seguida olhou para ela atentamente e comentou:
- Voc parece muito pensativa.
- Eu gostaria que pudssemos continuar. Quero dizer, eu gostaria de continuar rodando pela chuva, e talvez mais tarde parar para almoar em algum lugarzinho onde
houvesse uma lareira...
Calou-se ao ver a expresso nos olhos cinzentos. No havia mais frieza neles.
- Eu estava pensando a mesma coisa - disse ele e se inclinou para beij-la delicadamente nos lbios. - Talvez outro dia - ento, antes que ela pudesse responder,
exclamou, impaciente: - Como fui estpido!
- O que foi?
- Eu devia t-la deixado em frente  porta, pois est chovendo.
146 , ' ?
Rindo saram do carro e correram em direo  entrada. Foi s naquele momento que ela pensou na figura que fariam entrando juntos no prdio. Recuou um pouco.
- Ei, Midge, o que h? Voc gosta de se molhar? Ela hesitou.
- Os outros...
- Voc est pensando no que os outros diro?
- Sim, estou.
- Pois deixe que digam! E riu.
Ellen o olhava de modo estranho e Midge percebeu que at mesmo Ciem notara algo. Trent estava com uma expresso de cimes que sequer tentou dissimular. Ficou assim
a manh inteira e, logo depois do almoo, foi se reunir ao Wilson Strathmore, Abe Weissman, Fritz Handel e Brian, pois todos iriam juntos ao enterro de Mike.
Mas Brian no foi com eles. A porta que dava para o saguo estava aberta e Midge podia ver Trent, Handel, Strathmore e Weissman parados, conversando. Finalmente
saram, e j haviam-se passado uns dez minutos quando Brian passou, correndo, pelo saguo.
Midge mergulhou no trabalho, tentando distrair-se. J eram mais de trs horas quando ouviu vozes no saguo e viu os quatro chefes de departamento chegando. Ficou
imaginando onde estaria Brian.
Mais uma hora se passou e Trent veio avisar que iria embora. Logo depois, Ciem e Ellen deixaram o servio de lado e saram tambm. Midge ficou sozinha. Sua desolao
crescia com o transcorrer dos minutos, transformando-se em temor. Finalmente foi at o saguo e viu que Lucille tambm j estava de sada.
- Lucille, voc teve alguma notcia de Brian?
Por um momento Lucille a olhou com desconfiana; havia algo parecido com hostilidade nos belos olhos da esposa de Jerry. Ento, miraculosamente, ela mudou de atitude.
- No, Midge - disse, e hesitou. - Ele recebeu um interurbano quando estava saindo para ir ao enterro. Ento disse para os outros irem, que iria depois. Provavelmente
parou em algum lugar.
- Provavelmente - Midge concordou, dando um sorriso agradecido. Mas, assim que voltou para a sua sala, sentiu que sua agitao
aumentava.
147
J eram cinco horas quando ouviu a porta da frente se abrir, e suspirou de alvio. Mas no foi Brian quem apareceu, e sim Jerry. Midge deu uma olhada para o rosto
dele e gritou, involuntariamente:
- No!
- Acalme-se. Ele est l fora, no carro da rdio-patrulha. Um pouco atordoado, mas bem.
Ela estava tremendo.
- O que aconteceu?
- Ele pretendia ir ao enterro, mas no ltimo minuto recebeu um interurbano de San Francisco.
- Becky?
- Ele pensou nisso. Ento a telefonista disse algo sobre uma demora e ele resolveu esperar. Quando saiu pegou a auto-estrada e, ao fazer uma curva, descobriu que
estava sem freios e caiu numa valeta. Se tivesse ido de encontro a uma parede ou a uma rvore, seria muito provvel que tivesse morrido, na velocidade em que ia.
- No pode ter sido um acidente?
- Duvido.
- Mas o carro estava perfeito esta manh!
- Ento algum mexeu nele. Choveu o dia todo; no havia muita gente l fora. Deve ter havido uma oportunidade para isso.
- Oh, meu Deus!
- Ei - disse Jerry, num tom gentil. - No o deixe na mo! Ele precisa de voc, Midge.
Ela molhou os lbios.
- Jerry, ele est bem mesmo?
- Apenas um pouco atordoado, como j disse. Venha comigo.
O carro da polcia estava parado bem perto da entrada. Brian estava sentado ao lado do banco do motorista e comeou a sair ao v-la, mas Midge no deixou.
- No. No se mova. vou me sentar a atrs. Ele sacudiu a cabea.
- No, sente-se aqui no meio. L atrs eu no poderia ouvi-la. Havia um curativo perto do olho direito dele. Midge viu e gemeu:
- Voc est ferido!
-  apenas um corte superficial. Vamos, entre!
Depois que ele contou o que havia acontecido, Midge comentou:
148
- Brian, Jerry contou que Becky lhe telefonou.
- No, no foi Becky. Foi um trote. A suposta telefonista me deixou esperando por uns dez minutos, depois disse que me chamariam mais tarde. Mas a os outros j
haviam sado...
Jerry franziu a testa.
- Isso significa que h uma mulher envolvida. Por algum motivo eu no havia pensado nessa possiblidade.
Uma mulher. Se havia uma mulher envolvida no que parecia um atentado contra a vida de Brian, ento devia ser ou uma cmplice ou uma boa mecnica. No entanto, por
que uma mulher iria fazer uma coisa to horrvel para Brian?
Grace De Witt veio  mente de Midge, que afastou esse pensamento imediatamente. Afinal de contas, pelo que sabia, fora a prpria Grace quem pusera um fim ao noivado.
De qualquer maneira, tudo acontecera h muito tempo, h mais de quatro anos, e Grace se casara com outro.  verdade que o casamento no ia muito bem, e Mike Stabler
contara que recentemente Grace entrara em contato com Brian. Ser que ele a tinha visto nesse nterim? Mesmo que tivesse, um encontro desses no resultaria numa
tentativa de assassinato.
As nicas mulheres em que Midge podia pensar eram Maude e Clara, e a simples ideia de v-las participar de um plano sinistro era engraada.
- Por que voc est to quieta, Midge?
- Jerry disse que, deve haver uma mulher envolvida...
- No tm havido muitas mulheres na minha vida ultimamente respondeu ele secamente.
Midge pensou em Lucille. Mas Lucille no tinha motivo algum para estar contra Brian, No, era impossvel pensar que pudesse ser Lucille.
Ainda havia Ellen. Mas, se Ellen estava aborrecida com algum, era comTrent.
com Trent... ou comigo, Midge se viu pensando.
- Uma moeda de prata pelos seus pensamentos - sugeriu Brian.
- No valem tanto assim - disse ela, e em seguida acrescentou, pensativa: - Teria que ser uma mulher que... poderia se beneficiar, no teria? Algum ligada a um
dos quatro homens.
Jerry concordou.
- Foi o que pensei. Brian, voc reconheceu a voz? Ele sacudiu a cabea.
149
- No. Mas eu no consigo diferenciar muito bem os sons.
- Mas existem os sotaques - Jerry insistiu -, ou talvez um jeito especial de pronunciar algumas palavras.
- Moira Strathmore tem sotaque do sudoeste - disse Midge.
- Voc a conhece? - perguntou Brian, erguendo as sobrancelhas.
- Sim. No lhe contei? Ela foi visitar Maude outro dia.
Enquanto falava, Midge se lembrou do breve encontro com Wilson Strathmore no dia em que o vira saindo do escritrio de Brian. Ele parecia agitado com alguma coisa.
Gostaria de perguntar a Brian o que acontecera, mas aquele no era o momento.
- E quanto aos outros? - perguntou Jerry.
- Vamos ficar com os Strathmore por enquanto - Brian sugeriu. Eu diria que Wilson  o que se pode chamar um cavalheiro da velha guarda, um homem muito fino que tem
tido os seus problemas. Moira sempre foi uma pessoa um tanto frgil. Wilson tem gasto mais do que pode com mdicos e hospitais.
- Handel nasceu aqui em Coxsackie.  vivo, mas tem uma filha, que adora. Ela  professora e trabalha em Plattsburgh. Mas Handel  um homem de gostos simples...
J Abe Weissman tem uma personalidade diferente. Ele veio do Brooklyn; poderia dirigir o departamento de circulao de qualquer jornal dirio de uma cidade grande,
e s vezes fico imaginando por que escolheu um lugar desses. Weissman tem uma casa maravilhosa e  casado com uma mulher bem mais nova. Ele tem que sustentar o estilo
de vida dela, o que suspeito nem sempre ser fcil. Abe tambm aposta em cavalos de corrida; s vezes ganha, s vezes perde. Gosta de roupas extravagantes, carros
extravagantes, muita comida e bom usque. Leva a vida como se estivesse sempre indo a uma festa... Brian vacilou um pouco e continuou: - Falta Trent. Acho que sabe
mais a respeito de Trent do que eu, Midge. Sei que ele  divorciado, mas talvez voc possa nos dizer mais coisas.
- No, no posso. Trent nunca falou muito sobre a ex-esposa, exceto para dizer que o casamento no deu certo. Oh, Brian, no conheo Trent assim to bem...
- No? - ele perguntou suavemente, e ela ficou magoada com o tom de desconfiana.
O pior de tudo era que aquela espcie de intimidade que se estabelecera
150
entre eles parecia desaparecer. Ento Brian se recostou no banco e suspirou.
- Voc est bem? - perguntou Jerry.
- Sim - disse ele com uma voz que demonstrava cansao. Gostaria de beber alguma coisa. Posso convid-lo, Jerry?
- Esta noite no. Estarei a servio. Admito que no vou conseguir descansar enquanto esta semana no acabar e este maldito testamento no estiver resolvido de uma
vez por todas. Nesse meio-tempo no faa nenhuma tolice, entendeu?
- O que est querendo dizer?
- Encare o fato de que algum pode desejar aquela herana a ponto de matar por ela. No precisa ser um dos principais beneficiados. Qualquer pessoa ligada a um dos
chefes de departamento poderia tentar algo. Vamos pegar Trent, por exemplo.-Ele pode no ter inteno de receber o dinheiro, mas talvez tenha uma namorada que se
interesse por isso.
- Sim - disse Brian num tom melanclico -, ele pode ter. E os olhos cinzentos demoraram-se pesarosamente em Midge.
151

CAPTULO XVI

Jerry estacionou o carro em frente  porta da manso Vandervelt.
- Tenho algumas coisas para fazer, mas vou ficar de olho aqui at a meia-noite, quando Bill Cleary me substituir. No hesite em entrar em contato conosco se precisar.
Na verdade deixe o seu orgulho de lado estes dias, est bem? Se precisar de ajuda, pea. Isso tambm vale para voc, Midge. Aps este episdio com Brian hoje, fico
imaginando se no pode haver uma ligao com o seu acidente.
Era uma ideia sombria.
O relgio estava batendo seis horas quando Midge e Brian entraram na casa. Ele estava muito plido, o que a assustou,
- Quer que eu lhe prepare uma bebida?
- No, obrigado. Tudo que eu quero  deitar um pouco - dizendo isto, subiu para a torre.
Brian dissera que havia poucas mulheres em sua vida, mas seria verdade? Ser que Grace havia se
tornado importante de novo,, mais do que ele queria admitir?
E haveria mais alguma coisa no testamento de Horace Vandervelt que ningum lhe tinha dito? Horace fora uma pessoa com uma moral muito rgida e a infidelidade da
esposa o tinha ferido, marcando cruelmente sua personalidade pelo resto da vida. Ser que havia colocado alguma clusula no testamento exigindo que Brian s herdasse
a fortuna se no houvesse nenhum escndalo ligado ao nome Vandervelt?
Especulaes, especulaes, Midge pensou, cansada, e comeou a se dirigir  sala de estar para se encontrar com Maude. Ento tom apareceu.
- Brian acabou de me chamar - disse ele, e Midge notou que estava
152
perturbado. - Quando ele toca o sinal trs vezes significa que devemos ir at l porque  importante - ele franziu a testa. - Sabe o que pode ter acontecido de errado?
- Ele sofreu um acidente esta tarde, tom, mas est tudo bem. Tem um corte na cabea que no  muito profundo, e tambm algumas escoriaes e contuses, mas nada
muito srio.
tom se aproximou mais e disse, em voz baixa:
- Est bem, mas no diga nada  sra. Vandervelt, por favor. O corao dela est fraco; adora Brian e, se pensasse que h alguma coisa errada com ele...
- No se preocupe. Acho que o prprio Brian deve contar  tia. tom...
- Sim?
- Se ele quiser alguma coisa, eu posso levar.
Ele agradeceu e disse que atenderia Brian pessoalmente. Midge seguiu para a biblioteca, onde Maude estava assistindo a um humorstico na TV.
- Sirva o xerez para ns, querida. Este programa  realmente divertido. Acho que vai gostar dele. E imagino que, depois do dia que
teve hoje, vai precisar tanto de umas risadas quanto eu.
Depois do dia que teve hoje? Por um monento Midge ficou imaginando se Maude j soubera do acidente de Brian; depois percebeu que ela estava se referindo  morte
e ao enterro de Mike Stabler.
Jantaram e continuaram vendo televiso mais um pouco. Depois subiu, alegando cansao. Estava mesmo exausta, mas sabia que no dormiria enquanto no fosse ver como
Brian estava, no importava quanto ele pudesse se ressentir dessa sua atitude.
Subiu vagarosamente a escada estreita. Uma vez mais parou junto  porta, esperando no estar cometendo um terrvel engano em ir at l. Mas no tinha a mnima inteno
de voltar. Demorou um momento, criou coragem e bateu.
- Entre - disse ele.
Midge abriu a porta e parou, incapaz de se lembrar de ter-se sentido assim to tmida alguma vez.
Ele estava deitado no sof, com um livro na mo; ela, porm, duvidava que estivesse lendo,
havia uma bandeja sobre o criado-mudo com sopa e alguns pezinhos, quase
intocados. Ele estava to plido que Midge teve vontade de chamar o dr. Mueller.
153
- Voc est horrvel, sabe? Devia estar dormindo h muito tempo.
- H muito no que pensar. Peguei um livro de Edgar Allan Pe porque pensei que poderia ser uma boa diverso, mas no consigo me concentrar.
- Suponho, entre outras coisas, que voc est com dor de cabea, no?
- Sim, madame, estou com dor de cabea. Mas tomei um comprimido h pouco e j est passando.
Midge o observou demoradamente. Brian a deixava agitada de um jeito que nunca ficara antes; e ela pensou, desolada, que nunca mais, pelo resto da vida, poderia se
livrar do efeito que ele lhe causava, mesmo que no o visse nunca mais.
O pensamento de no v-lo mais era to horrvel que ela o olhou nos olhos com uma expresso de tamanha agonia que ele perguntou:
- O que h, Midge?
Ela respondeu a primeira coisa que lhe passou pela cabeac
- Voc no comeu nada.
- E isso justifica essa sua cara to trgica? Oua, essa sopa  de batata, que fica mais saborosa depois de fria.
- Voc  ridculo - ela comeou a dizer, mas o fim do "ridculo" se transformou num soluo.
Imediatamente ele a segurou, abraando-a. Midge se aninhou naqueles braos fortes e os transformou num santurio, num lugar sagrado onde no era necessrio reprimir
mais nada, e as lgrimas comearam a fluir livremente. Brian a deixou chorar  vontade.
- Acho que voc devia ter feito isso h horas. O que h, querida?
- Estou com tanto medo! Por voc!
- No se preocupe, no vou me expor. Jerry est certo. Prometo que tomarei muito cuidado, se isso a tranquiliza. Ento, depois de sbado...
Depois de sbado. No momento, "depois de sbado" parecia algo muito remoto. Somente o agora  que interessava.
- Midge, eu no pretendia fazer nem dizer nada antes de sbado. Mas... Oh, meu Deus! Quando penso que posso... morrer...
De certa maneira aquele era um convite, e ela procurou-lhe os lbios, experimentando uma emoo forte, diferente. Uma sensao de posse se fundia com a paixo e
parecia que Brian estava penetrando no mais
154
profundo de seu ser, no deixando nada inexplorado, nada sem ser tocado.
Midge tinha conscincia de que depois daquele dia seria dele para sempre; seria dele mesmo que tivesse que ir embora. Disse isso a si mesma, tomada pelas emoes
que a invadiam enquanto a mo dele lhe acariciava os seios.
Comeou a ajud-lo, tirando-lhe as roupas enquanto ele tirava as suas, at que viu o corpo masculino completamente nu e se sentiu consumida pelas chamas do desejo.
Brian lhe tocava os olhos, os lbios, os ouvidos, os mamilos, agora rijos, orgulhosamente eretos. Havia uma ternura to grande em cada gesto, em cada carinho, que
Midge julgava estar no paraso.
Ele era bonito, de uma beleza que vinha de dentro e se espalhava pelos poros, pela pele, pelo corpo que a levava numa jornada fantstica atravs do amor. O auge
chegou numa sensao de xtase pura e maravilhosa, que a deixou abraada a ele, cheia de amor, enquanto murmurava coisas totalmente sem sentido. Ento Brian selou
aquela paixo com um beijo.
- Querida,  melhor descer e tentar descansar um pouco.
- Brian - ela comeou a falar, mas ele lhe colocou delicadamente os dedos sobre os lbios.
- Voc deve lembrar que fiquei com o aparelho ligado esta noite porque, se voc viesse at aqui, no queria deixar de escutar quando batesse  porta. Sabe - ele
acrescentou num tom que era pouco mais que um sussurro -, eu queria que viesse esta noite, Midge. Voc no faz ideia de quanto eu queria que viesse!
Brian insistiu em ir at o jornal na quarta-feira de manh, sob protesto, e quando tom disse que o levaria ele recusou. Voltando-se para Midge, sugeriu:
- Que tal voc me levar? Ela concordou na hora.
Assim que entraram no carro, Brian disse:
- Midge, sinto muito!
- Sente o qu?
- Ter deixado que voc se envolvesse a ponto de correr perigo. Respirou profundamente. - Acho que no preciso dizer que, se um s fio de cabelo seu for tocado...
155
- Bran - ela o interrompeu com firmeza -, no vai me acontecer nada. Nem a voc.
Ele contou ento que havia conversado com Jerry e que o carro iria ser submetido a uma vistoria geral. A polcia queria ver se o acidente fora provocado.
J estavam quase em Coxsackie e Brian olhava pela janela. Parecia distrado, muito distante. Preocupado seria o termo mais exato.
Entraram juntos no jornal. Lucille sorriu com amabilidade e Midge retribuiu satisfeita. Mas foi s chegar  sua sala e a satisfao acabou: o ambiente l estava
carregado.
Midge fez que no notou e passou a manh toda ocupada. E, depois de um lanche rpido na hora do almoo, voltou a entregar-se de corpo e alma ao trabalho.
Estava totalmente absorta quando Trent parou a seu lado e disse, tenso:
- Midge, preciso falar com voc. Ela ergueu a cabea, perplexa.
- Eu no o ouvi entrar.
-  que voc estava muito concentrada. Oua, quer jantar comigo esta noite?
- No posso. Desculpe-me.
- Voc no tem permisso para sair do castelo Vandervelt?
- No seja tolo, Trent - disse ela secamente, torcendo para que Ciem e Ellen voltassem logo do almoo. - No preciso de permisso. Apenas no quero jantar com voc.
- Bem, Isso  que  ser franca, hein? Midge, venha at o meu escritrio. No posso conversar com voc aqui.
- No que me diz respeito, pode dizer o que quiser em pblico. Na verdade, gostaria que parasse de me perseguir.
Como resposta, ele a puxou da cadeira to repentinamente que ela quase perdeu o equilbrio. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Midge se viu nos
braos dele, lutando para se livrar e sem nada conseguir.
Sentiu os lbios dele sobre os seus e cerrou-lhe os dentes sobre a lngua. Trent recuou, o rosto contorcido pela dor.
- Maldita!
Trent estava de costas para a porta que dava para o saguo. Brian, parado ali, provavelmente no os ouvira e por isso tinha uma expresso de
156
desdm no rosto. Ento se virou, afastando-se em direo  redao.
Ela se voltou, furiosa, para Trent.
No me toque nunca mais! Nunca mais, ouviu?
Enquanto falava, ela notou que ele no percebera a presena de Brian.
O que a deixou assim, Midge?
No lhe passa pela cabea que talvez voc tenha me deixado assim?
Desculpe-me, eu me comportei muito mal. Mas s vezes voc me
deixa quase louco. Eu...
Ciem veio interromp-los. Midge, ento, saiu da sala e foi lavar o rosto, retocar a maquilagem.
Subitamente tomou uma deciso e, antes mesmo que tivesse tempo de mudar de ideia, foi at a sala de Brian.
Entrou sem bater. Viu-o sentado  escrivaninha, a cabea abaixada. Por um momento teve medo que tivesse lhe acontecido alguma coisa terrvel, e o medo foi to intenso
que o mundo inteiro balanou  sua volta.
Ento viu que ele respirava normalmente. Em vez de cham-lo, Midge se inclinou, tocando-o de leve. Ele a encarou com uma mscara de frieza no rosto e um ar de sofrimento
nos olhos.
- Brian...
- No tenho nada para lhe dizer, Midge.
- Pois -queira ou no, voc vai ouvir algumas coisas, nem que eu tenha que ficar esperando que mude de opinio.
Para reforar essa deciso, ela puxou uma cadeira e sentou-se, fitando-o com ar desafiador. Depois de um longo momento, ele falou:
- Acho melhor ouvir o que voc tem a dizer.
- Deixe-me fazer uma pergunta: acha que eu estava me divertindo com Trent?
Ele pensou um pouco e respondeu lenta, quase relutantemente:
- Se est me pedindo para analisar a cena, suponho que devo lhe dizer no. Por outro lado, s vezes  difcil saber
o que d prazer a uma mulher. Trent  atraente,
e eu diria, pelos episdios que testemunhei entre vocs, que ele gosta muito de representar cenas de amor. Eu...
Voc est fugindo do assunto!
Seus olhos se encontraram, os dela suplicantes, os dele claros e lmpidos.
157
- Est bem, vou dizer o que quer: voc no parecia estar se divertindo. Mas estava nos braos dele, deixando que a beijasse.
- Eu no tive muita escolha. Mas, pouco antes de voc chegar, mordi a lngua dele. No creio que Trent consiga comer alguma coisa esta noite...
Brian sorriu, e como sempre o sorriso dele significava uma transformao; era como se o sol aparecesse num dia muito nublado. Em seguida riu, e ela nunca o vira
rir daquele jeito descontrado e contagiante. Logo estava rindo com ele. Quando pararam, Brian sacudiu a cabea, pesarosa.
- Pobre Trent! Sabe, fui at a sua sala para convid-la a ir at aquele restaurante francs em Albany esta noite. com Jerry, Lucille e eu. Jeiry telefonou h pouco
e achou que poderia ser uma boa ideia sairmos um pouco e relaxar.
- Voc est disposto a ir?
- Sim, e voc? Ela sorriu.
- Eu tambm.
- Ento voc me perdoa por aquela horrvel cena de cimes?
- vou pensar nisso - ela prometeu, num tom zombeteiro.
Mas, enquanto voltava ao departamento de publicidade, uma palavra que ele usara lhe voltou  mente. ,
Cimes. Cimes! Ela no conseguia pensar em nada mais maravilhoso do que saber que Brian Vandervelt estava com cimes.
158

CAPTULO XVII

Midge sugeriu que Maude se sentiria menos solitria se tomassem xerez juntos antes de sarem para jantar, e Brian concordou.
Maude estava muito ansiosa porque, segundo explicou, tinha uma aula de ikebana na manh seguinte e queria deitar cedo. Assim, os dois j estavam prontos quando Jerry
e Lucille vieram busc-los, s sete horas.
Midge e Brian sentaram-se no banco traseiro, e ela encontrou um modo de estabelecer uma comunicao com ele, para que no percebesse a conversa. Brian lhe agradeceu
por isso.
O restaurante era encantador, muito ntimo, muito francs, velas acesas em todas as mesas e um garom perfeito para atend-los. Olhando  sua volta, Lucille observou:
-  como estar em Paris!
- Qualquer dia - disse Jerry -, vou lev-la a Paris numa nova lua-de-mel. J esteve em Paris, Midge?
- No, infelizmente no.
- Becky e eu estivemos l um ano antes de nossos pais morrerem disse Brian e Midge ficou surpresa, pois Becky nunca mencionara isso.
- Eu lembro que Becky estava morta de medo de subir  Torre Eiffel, mas eu no, eu me achava muito corajoso. Depois almoamos num bateau-mouche, um daqueles barcos
que navegam pelo Sena. A comida era deliciosa. Foi a primeira vez que comi lesmas; na verdade, comi as de Becky tambm. Voc j comeu lesmas, Jerry?
Nunca tive coragem. Ei, por que voc e Midge no vo a Paris comigo e com Lucille? Assim poderia ser o nosso guia!
159
Brian riu.
Eles estavam alegres, muito alegres, Midge pensaria mais tarde, considerando as nuvens que cresciam cada vez mais no horizonte de Brian.
Estavam se regalando com os deliciosos paupiettes de boeuf quando Midge percebeu que uma mulher havia parado junto  mesa deles. Uma espcie de sexto sentido lhe
avisou de quem se tratava antes mesmo que Brian dissesse:
- Gracet
E se levantou, o rosto expressando uma mistura de surpresa e... seria prazer ou desnimo? Talvez, pensou Midge tristemente, uma mistura de ambos.
Tentou no olhar para a ex-noiva de Brian, mas era difcil desviar os olhos daquela loira escultural e bonita. Ela e Brian formavam um par perfeito.
- Grace, esta  Midge Boardman. Acho que j conhece Lucille e Jerry Mueller.
- Sim - ela apenas deu um breve sorriso. - Brian, meu bem, tentei falar com voc pelo telefone trs vezes...
- Eu sei. Recebi os recados e pretendia ligar para voc. Mas tenho andado muito ocupado.
Midge viu a expresso tensa de Brian e percebeu como estava sendo difcil, para ele, entender tudo o que Grace dizia.
- Eu lhe telefonarei na semana que vem. Temos algumas coisas para acertar.
- Temos muitas coisas para acertar - Grace corrigiu com malcia. Bem, agora preciso ir. Estou com uns amigos. Voc me telefonar mesmo?
A ltima palavra, Midge se viu pensando desesperadamente. Prenda-se  ltima palavra, querido, e voc saber sobre o que ela est falando. E foi isso mesmo que Brian
fez, pois disse:
- Assim que as coisas endireitarem, Grace. Ela ainda se demorou um momento.
- Voc est maravilhoso, querido. Realmente maravilhoso.
Ele no tentou responder, mas nem havia necessidade. Grace o beijou no rosto e em seguida foi se reunir aos amigos, deixando um rastro de perfume e uma dor muito
forte no corao de Midge.
160
Depois que Grace se foi, houve um silncio profundo. Mas logo Lucille comeou a conversar.
- Grace  mesmo deslumbrante! - exclamou. - ela sempre foi muito atraente, mas agora...
- Ela  um produto caro, meu bem - interrompeu Jerry. - Tudo nela  comprado e custa muito dinheiro. Eu no a considero uma beleza verdadeira.
- Jerry est certo, Lucille - disse Brian. - A beleza no  s uma coisa externa. Voc e Midge, por exemplo, so muito bonitas. Mas tambm tm uma beleza interior,
e essa no pode ser comprada. Nenhuma de vocs precisa de enfeites.
Lucille corou de prazer com aquele elogio,- mas Midge pegou-o no contexto; ocorreu-lhe que Brian estava dirigindo aquelas observaes principalmente a Lucille, percebendo
agora como era fcil lhe despertar os cimes. Ento se viu desejando que Lucille tivesse mais confiana em si mesma, que acontecesse alguma coisa que a fizesse ter
certeza do amor de Jerry.
E quanto a si prpria... A noite anterior provara a intensa atrao fsica existente entre ela e Brian, e embora no tivessem se referido mais ao episdio, ele permanecia
na lembrana de ambos. No entanto, ela sabia que isso no significava que Brian no amasse mais Grace.
O tempo estava frio quando Midge acordou, na sexta-feira, e o cu cinzento combinava com seu estado de esprito.
Brian no estava na cozinha quando ela desceu; Clara contou que ele tomara caf mais cedo e que estava na biblioteca.
- Ele disse para voc ir at l quando estiver pronta, mas que no precisa ter pressa.
Midge o encontrou sentado  grande escrivaninha de mogno, trabalhando.
- Gostei da noite passada - disse ele, depois de lhe perguntar se havia dormido bem. - Voc gostou?
- Muito - disse ela; o que fora verdade at Grace aparecer.
- Conversei com Jerry agora h pouco e ele disse que o passeio fez muito bem a Lucille. Apesar da aparncia, ela  uma pessoa tmida. Foi criada por duas tias solteironas
muito repressoras; Jerry disse que s vezes se admira por ter conseguido se aproximar dela o suficiente para pedi-la em casamento. Ele sempre foi popular, extrovertido,
exatamente o
161
contrrio de Lucille. As pessoas so surpreendentes... - ele sorriu. s vezes muito surpreendentes - concluiu enigmaticamente. Este era um assunto que Midge no
queria abordar. Ento perguntou:
- Voc est planejando trabalhar aqui hoje?
- No - disse ele, parecendo surpreso. - Pensou que eu estivesse? Ela hesitou.
- Pode ser aconselhvel. Hoje  quinta-feira, Brian.
- Sei disso, mas no pretendo me esconder. vou ser cuidadoso, mas no vou me encolher de medo. De qualquer maneira, o dr. Mueller quer me examinar esta tarde, e
eu prometi passar pelo consultrio s trs horas.
Mais tarde, j no carro, Brian falou:
- No conte a Clara, mas estou faminto. Vamos parar nos Maple para tomar um caf com rosquinhas?
- No creio que seja bom voc ficar aparecendo em pblico.
- No pretendo ficar me exibindo. De qualquer maneira, Jerry vai se encontrar conosco nos Maple. Ele tem algo para me dizer.
Quando chegaram, Jerry j os esperava numa das salas reservadas, a expresso preocupada.
- O cabo do fio estava cortado - disse ele assim que pediram caf com rosquinhas e gelia. - No h dvida alguma; eu mesmo vi o carro. No foi um acidente, Brian.
Foi um atentado.
Brian concordou.
- Eu j temia isso. No entanto, esperava...
- Oua - interrompeu-o Jerry -, gostaria que voc desaparecesse por hoje. Volte para casa, voc e Midge, e digam a tom e Clara que no querem receber visita alguma
nas prximas quarenta e oito horas.
- Oh, vamos, Jerry! - Brian protestou, aborrecido.
- Ele est certo, Brian - disse Midge. - Olhe, no h nada que voc tenha que fazer, hoje ou amanh, que no possa ser feito em casa.
-  verdade, mas eu preciso estar no jornal. L h atmosfera, cheiro de perigo. No vou senti-lo em casa, Jerry, mas se estiver no jornal saberei detect-lo.
- Esta no  hora para bancar o heri - observou Jerry. Os olhos cinzentos de Brian faiscaram.
- Pelo amor de Deus, este no  um jogo! No no que me diz respeito.
162
- Voc est certo - respondeu Jerry. - No  um jogo.  apenas uma questo de vida ou morte.
- Mas tenho tanto o que fazer! - Brian insistiu. - Alm disso, hoje  noite h a reunio do clube...
- Para o inferno o clube! - disse Jerry, irritado.
- Wilson Strathmore vai falar sobre tendncias do mercado explicou Brian. - A meu convite. Acho que devo estar presente. Pode ir como meu convidado, se isso o faz
sentir-se melhor.
- Combinado.
- Est bem. Depois do clube voc me leva para casa e prometo trancar a porta. Certo?
- Espero que sim - Jerry concordou, o ar sombrio.
Br
Brian ficou em silncio enquanto se dirigiam ao jornal.
Trrent estava no saguo, conversando com Lucille, e acenou antes de
entrar no departamento de publicidade.
Lucille estava alegre.
- Foi to divertido ontem  noite!
- Vamos repetir o programa - Brian prometeu, e em seguida Boltou-se para Midge: - Esteja pronta para sair um pouco antes das duas, est bem?
- Estarei.
Midge se dirigiu  sua sala. Quase que imediatamente Trent apareceu e, dando uma olhada nos papis em suas mos, disse:
- Quero falar com voc sobre isso, Midge. Venha at o meu escritrio.
Ela percebeu um brilho de ressentimento nos olhos de EHen enquanto apanhava sua pasta e se reunia a Trent.
Consternada, viu-o fechar a porta assim que entraram. Em seguida parou, as mos na cintura, olhando-a secamente.
- A minha lngua ainda est doendo muito!
- Sinto, Trent. Honestamente. Mas voc me fez perder a cabea.
- Sei disso. Peo desculpas, Midge. Eu no tinha direito algum de me  impor e prometo que isso no acontecer de novo. Quer ir tomar um aperitivo comigo hoje
 tarde? H algo que quero lhe falar.
- No pode falar aqui mesmo?
- No. Olhe, eu no a prenderei por muito tempo.
163
- Sinto muito, Trent, mas vou ter que sair mais cedo. Briai Vandervelt e eu temos consulta marcada com o mdico.
- No h nada errado, h, Midge? - perguntou ele, ansioso. Voc no sofreu problema algum depois do acidente, sofreu?
- Oh, no se preocupe.
- Voc e Brian Vandervelt bateram o carro num espao de tempo to curto...  uma coincidncia estranha!
Ela quase falou que teria sido assim se Brian tivesse mesmo sofrido um acidente e no um atentado, mas segurou as palavras. No que suspeitasse de Trent, mas aquela
no era hora de falar nada com ningum.
Midge j estava  espera de Brian no saguo quando ele saiu da redao, um pouco antes das duas.
Ela ficara conversando com Lucille e, enquanto se dirigia ao carro com Brian, comentou:
- Lucille est muito mais simptica comigo.
Brian fez que sim com a cabea, mas Midge teve a impresso de que ele estava pensando em outras coisas enquanto respondia:
- Acho que ela est adquirindo um pouco mais de autoconfiana. Foram at o consultrio em silncio. O dr. Mueller j estava  espera e
atendeu Brian primeiro. Depois de examin-lo, disse que dentro de alguns
dias j poderia retirar os pontos.
Brian saiu do consultrio e Midge entrou. Era uma grande sala, com uma moblia que j vira dias melhores, mas havia uma atmosfera aconchegante ali que inspirava
confiana. Quanto ao dr. Mueller, parecia um velho amigo.
- Sei que no devia lhe perguntar isso, mas o ferimento de Brian  srio?
O mdico a examinou atentamente e ela teve a sensao de que estava vendo bem mais do que desejava revelar.
- Brian  um jovem forte, Midge. Ele est timo. O corte est cicatrizando muito bem. Vai ficar um sinal, claro, mas quase imperceptvel. Espero que no se oponha
ao fato de eu estar sendo to pessoal, Midge. Conheo Brian h muito tempo e gosto dele como um filho. Voc se preocupa muito com ele, no ?
- Sim, eu me preocupo.
Fitando-a de modo pensativo, o mdico prosseguiu:
- Voc sabe que a surdez dele  permanente, no sabe?
164
Sim. Jerry me contou.
- Mas a medicina progride constantemente. No interprete mal o que vou dizer, pois a ltima coisa que quero  dar falsas esperanas. Algum dia, entretanto, um desses
avanos pode resultar numa soluo para pessoas como Brian. Agora no h nada a fazer, mas acho que ele conseguir superar o problema.
- Eu diria que j est superando.
- Sim... aparentemente. Entretanto, psicologicamente Brian se considera um peso para os outros. Acho que voc j o ajudou muito neste aspecto - ele lhe dirigiu um
sorriso surpreendentemente atraente. Continue o seu bom trabalho, minha cara.
Voltaram  manso em silncio. Enquanto safam do carro, Brian perguntou:
- O que h, Midge? O dr. Mueller no disse nada que a preocupasse, disse?
- No.
- Falou a meu respeito? - ela corou e ele prosseguiu, rindo: - Voc tem um rosto transparente... um rosto transparente e muito adorvel, posso dizer.
Abraou-a e, antes que ela percebesse o que estava acontecendo, beijou-a com muito amor e ternura.
Parecia-lhe que as mos dele estavam levemente trmulas quando a soltou.
- Ainda no choveu mas, a julgar pelas nuvens escuras, eu diria que ainda vem muita gua por a.
As palavras de Brian tinham um duplo significado. Afinal, faltava apenas um dia para o prazo fatal.
Brian a convidou para um passeio at o mirante, antes de entrarem, e Midge concordou.
Foram at a margem do rio e conversaram bastante. De repente um pingo de chuva caiu no rosto de Brian.
- Vamos embora, Midge. Isto aqui fica muito liso quando chove. Subiram rapidamente e, quando chegaram ao gramado, a chuva
desabou. Era um dia frio de outono, mas eles se deram as mos e comearam a correr, rindo como crianas. Quando chegaram aos fundos da casa, Brian props:
165
- Vamos entrar pela porta da cozinha.
Ela concordou. Assim que entraram deram com Clara, que estava cortando legumes na pia.
- Meu Deus! - exclamou ela. - vou buscar umas toalhas para vocs.
Desapareceu por alguns minutos e voltou com toalhas grossas, que colocou nas mos deles.
- Vo vestir roupas secas antes que fiquem resfriados - ordenou, e eles sorriram.
Naquele momento Midge sentia-se despreocupada e apaixonada. Gostaria apenas que aquele momento pudesse durar para sempre, mas sabia que no era possvel.
166

CAPTULO XVIII

Maude parecia muito fraca aquela noite. Clara trouxera o jantar para a biblioteca e Midge notou que a velha senhora quase no havia tocado na comida.
Por outro lado, seu estado de esprito nunca estivera melhor, e Midge teve certeza de que Maude no conhecia direito a situao insidiosa provocada pelo testamento
do marido. Brian conseguira esconder aquilo da tia e carregara o fardo da herana sozinho.
Midge suspirou e resolveu ficar com Maude at mais tarde. Depois se despediu, beijando a velha senhora no rosto e dando-lhe um abrao afetuoso, ao qual Maude correspondeu
com tocante entusiasmo.
Agora, que no tinha que pensar em Maude, toda sua ateno se voltou para Brian.
Jerry viera busc-lo para o jantar do Clube Masculino. Os dois estavam muito srios. O jovem risonho que pouco tempo antes correra com ela pela chuva havia desaparecido,
dando lugar a um homem consciente do perigo que corria.
Midge deu uma olhada no relgio e viu que eram quase dez e meia; eles j deviam estar de volta. Comeou a ficar preocupada.
Dirigiu-se ao grande saguo e estava olhando por uma das janelas quando viu os faris do carro. Imediatamente correu ao encontro de Brian, que a olhou com uma ternura
imensa. Voc estava me esperando? Sim, estava.
Brian seguiu diretamente para a sala de jantar, pegando uma garrafa de usque do tio.
167
- Vamos acender a lareira na biblioteca e beber um pouco, para relaxar.
- Suponho que ainda estou em servio... - disse Jerry, mas topou o drinque.
- Ento venha - convidou Midge.
Enquanto se sentavam em volta da lareira, Jerry suspirou: - Ainda bem que a reunio acabou. Strathmore  muito bom, mas economia no  um dos meus assuntos prediletos.
- Ele  uma tima pessoa e entende muito do assunto - disse Brian, dirigindo-se a Midge. - Fizeram muitas perguntas, por isso a reunio terminou mais tarde que de
costume.
- Imaginei isso.
-  uma boa turma - comentou, Jerry e Brian concordou.
- Assim que voc se formar, Jerry, quero que entre para o clube. Andrew Summers j est velho; vamos precisar de outro advogado.
- Advogado?
- Sim - disse Jerry. - Estou estudando Direito.  noite. Isso significa ficar em cima dos livros e frequentar as aulas em vez de dar ateno a Lucille. Tem sido
difcil para ela, mas espero um dia poder compens-la por tudo.
- Lucille vai superar isso, Jerry, assim como os cimes que tem de voc. O importante  que ela o ama. Voc tem muita sorte...
Calou-se. Jerry sorriu e resolveu deix-los, lembrando-os de que se revezaria com outro policial para vigiar a casa durante a noite.
Enquanto Midge e Brian voltavam  biblioteca, depois de terem-se despedido de Jerry  porta, ela observou:
- Ele  ambicioso, hein?
- Sim, e tenho certeza de que ser um bom advogado. Brian serviu mais um drinque.
- Tome, Midge. Vai precisar disto esta noite.
- Brian... voc no est com dor de cabea?
- Dor de cabea? No, por qu? Eu deveria estar?
-  o que sempre acontece depois das reunies do clube, no ?
-  verdade. Mas devo lhe agradecer pelo fato de no ter acontecido nada esta noite. Aquele seu truque de me fazer prestar ateno em algumas palavras, especialmente
s ltimas, funciona muito bem. Sabe, at consegui captar grande parte
do que Wilson disse.
168
Por que  que o sr. Strathmore anda to perturbado ultimamente,
Brian? Eu o vi um dia, quando estava saindo do seu escritrio, depois que voc me mandou chamar...
- Sim, eu me lembro. Ele havia descoberto aquele dia que Moira, a esposa dele, est muito doente. Ela vai ter que se submeter a uma cirurgia delicada em poucas semanas,
e as chances que tem no so muito boas.  difcil porque eles no tm filhos e formam um casal muito unido.
- Oh, mas que pena!
Midge se lembrou de Moira e Maude discutindo animadamente uma aula de ikeban e da educao quase fora de moda de Wilson Strathmore.
- Pelo menos - continuou Brian -, eles tm sido felizes h muitos anos. Poucas pessoas so to afortunadas. Alm disso, acho que Moira tem um grande desejo de viver,
e aposto que vai conseguir sobreviver.
Nesse momento Midge ouviu um rudo na porta da frente. Em seguida tocaram a campainha.
- Brian!
Ele ergueu a cabea rapidamente.
- O que ?
Midge tentou controlar o pnico.
- H algum  porta.
A campainha tocou novamente e ele riu, nervoso.
- At mesmo eu posso ouvir.
- Talvez seja melhor voc no atender - ela aconselhou. - Talvez voc deva chamar Jerry.
Ele lanou-lhe um olhar irnico e se dirigiu  porta, abrindo-a e olhando, incrdulo para a mulher que ali estava.
- Becky! - exclamou enquanto a irm entrava, abraando-o e comeava a chorar.
Eles reativaram a lareira e Brian acendeu todas as lmpadas da biblioteca. Midge sabia que ele tinha um motivo para isso: precisava de uma boa iluminao para poder
ler os lbios, e rezou para que se sasse bem. Mais tarde contaria a Becky sobre o seu problema.
Aquela no era a hora certa. Ela soluava sem parar, denunciando um nervosismo prximo da histeria. Brian a abraava.
- Voc est vivo Santo Deus, Brian, voc est vivo!
- Claro que estou vivo, Bec. Fique sossegada.
169

Ela enxugou os olhos e olhou para Midge, perguntando:
- Como foi que pde fazer uma coisa to horrvel? Midge ficou magoada e confusa.
- Becky, o que est dizendo?
- Eu mesma a ouvi - afirmou secamente. - Afinal de contas, falei com voc!
- Falou? Como! Becky, algo estranho est acontecendo. Eu no a procurei.
- Gostaria de poder acreditar nisso. Gostaria muito!
- Bec - interrompeu-a Brian -,  fcil se enganar com a voz de algum.
- No quando se conhece esse algum to bem quanto conheo Midge!
- Bec, no importa o que possa pensar, Midge no lhe telefonou. Posso garantir.
- Obrigada - disse Midge.
- Oh, por favor - Becky suspirou. - Por favor! Vocs dois devem saber que a ltima coisa que
desejo  acusar Midge de alguma coisa. Mas, quando a melhor amiga que
tenho telefona e diz que meu irmo est morrendo e que  melhor tomar o primeiro avio para c...
- Becky - disse Midge, sabendo que Brian no entendera quase nada do que a irm dissera -, posso compreender como tudo isso deve ser Confuso para voc, mas acho
que podemos explicar. H dois dias Brian recebeu um interurbano que no chegou a se completar. Diziam que era voc.
Becky os olhou, espantada.
- Porqu?
- Porque algum queria me deter no jornal. - explicou Brian Queria tambm que voc estivesse aqui antes do fim da semana.  uma longa histria, Bec, mas se voc
se sentar e for paciente, tentarei lhe explicar tudo.
Havia uma intimidade no tom dele, uma afeio profunda que provocou uma estranha sensao em Midge. Ela olhou para os dois e sentiu-se uma intrusa. Eles se pertenciam,
Brian e Becky. Os dois eram Vandervelt.
- vou deix-los sozinhos.
- No - disse Brian, acrescentando: - Por favor, Midge. Isso tambm envolve voc.
170
Ela queria dizer que aquilo no a envolvia e que ele no queria era ficar ozinho com Becky. Ento fitou-o e disse:
- Oua, mais cedo ou mais tarde... Brian sacudiu a cabea.
- No. Por favor.
Ela sentou-se, to confusa quanto Becky, e Brian preparou um drinque para a irm. Enquanto a servia, comeou a falar:
Bec, quando tio Horace morreu, voc telefonou e disse que viria
para o enterro. Eu lhe pedi para no vir, lembra-se?
- Sim.
- Havia uma razo. A mesma razo que me fez mante-la longe de Coxsackie. - diante da expresso perplexa de Becky, ele prosseguiu: Voc conhece os termos do testamento.
Sabe a respeito do perodo experimental e compreende que, se eu no for bem-sucedido, serei deserdado.
- Sim.
- Ento tambm deve saber que, se eu morrer antes de voc, vai ficar com a minha parte. Mas os quatro chefes de departamento ficaro com o jornal.
- Sim, eu sei.
- Mas, se voc morrer antes, receberei tudo, inclusive o jornal. Isto , se eu conseguir me sair bem no perodo experimental. Mas h algo mais. Se ns dois morrermos
antes de primeiro de novembro deste ano, os chefes de departamento herdaro tudo. Sabia disso?
- Oh, no! Que coisa horrvel! Tim e eu lemos o testamento mas, para dizer a verdade, era tudo to confuso que tentei afastar aquilo da mente. Eu estava preocupada
demais com voc para prestar ateno nos detalhes.
Brian lanou um olhar desesperado a Midge, pois Becky estava murmurando isto de cabea baixa. Midge interrompeu rapidamente:
-  compreensvel que voc no prestasse ateno a todos os detalhes, Becky.
Brian sorriu, dirigindo a Midge um olhar de gratido.
-  verdade - respondeu. - Quanto a mim, estava muito preocupado com voc. Ocorreu-me que a sua vida poderia ser muito Perigosa. E agora ns dois corremos perigo.
Bec... tentaram me matar h POUCOS dias.
171
- O qu?
- Voc deve se lembrar de Mike Stabler, no ? Pois ele. morreu na semana passada. Atropelado. O telefonema que Midge mencionou foj feito exatamente na hora em que
eu estava saindo para o enterro dele. Os outros chefes de departamento j tinham ido, portanto, fui no meu prprio carro. Os freios falharam quando eu fazia uma
curva. Foi sabotagem: algum mexeu neles.
Becky estava plida e trmula.
- Oh, meu Deus! Ento, apesar dos seus esforos para me manter longe daqui, eu cheguei na pior hora!
- Sim. Becky hesitou.
- Brian... Acredito em tudo que me disse, mas acho que h mais coisas.
- O que est querendo dizer?
- Eu o conheo muito bem. J havia alguma coisa errada antes de tio Horace morrer. Havia alguma coisa errada desde o seu acidente, na praia. O que aconteceu?
Midge podia ouvir o fogo crepitando no silncio que se seguiu, e percebeu que estava prendendo a respirao. Brian estava muito quieto; ela podia imaginar a dor
que devia estar sentindo. Gostaria de poder fazer alguma coisa, qualquer coisa, para retardar o que certamente seria um momento horrvel para ele, a hora da verdade.
Ento ,ouviu-o suspirar e dizer:
- Eu sa ferido da exploso, Bec.
- Mas como?
As palavras saram lentamente:
- A exploso me fez perder a audio, ou a maior parte dela.
- O qu? - ela o fitou, incrdula, perguntando depois, com voz trmula: - Est tentando me dizer que est... surdo?
Surdo. A palavra caiu entre eles como uma pedra e Midge percebeu que se aproximara de Becky, segurando-lhe as mos.
- Becky - disse com voz emocionada -, no se atreva a chorar novamente! Sim, Brian est surdo, mas isso no tem a menor importncia.
Podia sentir os olhos cinzentos examinando-lhe o rosto, e o tempo parou. Ento ele falou, um tom estranho na voz:
172
No tem mesmo?
No - ela estava lutando contra as lgrimas. - No tem
importncia alguma...
Midge insistiu em que Becky dormisse em seu quarto, pelo menos aquela noite. Alm de toda a tenso, ela agora estava a par tambm da situao de Maude.
Brian deixou-as ao p da escada. Beijou a irm na testa, mas seus olhos se demoraram em Midge. A expresso dele estava sria, apesar do leve sorriso que lhe pairava
nos lbios ao dizer:
- No se preocupe, Midge; vou trancar as portas. Alm disso, Jerry e os colegas estaro nos vigiando.
- De quem Brian estava falando? Por acaso era de Jerry Mueller?
- Sim - disse Midge. - Ele agora  policial. Becky riu.
- No posso acreditar! Ele era um demnio quando garoto. Atraente, entretanto.
- Ainda . E se casou. O nome da esposa dele  Lucille.
- Deve ser Lucille LeClair - disse Becky. -  morena e bonita?
- Sim. Voc e Jerry foram namorados, no foram?
- No exatamente - respondeu Becky, fazendo um gesto indiferente, como se aquela fosse uma velha histria. - Ns nos aproximamos demais num vero, depois cada um
seguiu um caminho diferente. Midge...
- Sim?
- O que aconteceu com Brian e Grace? Eles estavam noivos.
- Ela rompeu o noivado quando descobriu o problema dele. Agora est casada com outro.
- Entendo - os olhos de Becky estavam cheios de raiva, - E quanto a John Pemberton? Voc o esqueceu?
- Eu lhe contei, em San Francisco, que estava tudo acabado. E est mesmo, pelo menos de minha parte. No mais, tenho certeza de .que ele vai se recuperar.
Mas Brian poder no se recuperar...
Talvez. Tenho certeza de que foi profundamente magoado, mas  ma pessoa muito forte para ser destruda por algum. Eu no estava me referindo  ex-noiva dele,
Midge.
173
- No? A quem, ento?
- Vamos, Midge! Ele est to apaixonado que nem consegue tirar os olhos de voc!
Midge sacudiu a cabea.
- Isso no  amor, Becky. Ele precisa olhar para a gente para poder ler os lbios. Est aprendendo cada vez mais a superar o seu
problema. Eu o admiro muito.
- Apenas admirao, Midge?
- Becky, voc sempre conseguiu arrancar as coisas de mim, mas, desta vez vou ficar muda!
Becky sorriu com evidente satisfao.
- Midge... s espero que no seja pena, caridade.  fcil isso com amor, e Brian nunca iria querer piedade.
O sorriso de Midge era cheio de amargura.
- Sei disso. Ela estava parada junto  janela enquanto falava, e viu um carro da
polcia.
- Veja! Deve ser Jerry chegando. Becky se aproximou.
- Quero v-lo de uniforme - disse, rindo. A viatura parou em frente  casa e Jerry saiu. Num impulso Midgej
abriu a janela.
- Jerry! Ele olhou para cima.
- Midge! Voc est bem?
- Sim.
- Ei, Jerry - Becky chamou. Ele hesitou, procurando ver atravs da escurido.
- No  possvel! Becky,  voc? Midge percebeu preocupao na voz dele.
Clara ficou maravilhada quando Midge e Becky entraram na cozinha, na manh seguinte. Sugeriu que Becky tomasse caf com a tia.
Midge foi se despedir da amiga para ir trabalhar, mas Brian no deixou, dizendo que seria melhor que ficasse.
- Voc e Becky no devem sair, est bem?
Midge acompanhou Brian at a porta, pedindo que tomasse muito
174
uidado. Ento ele a beijou apaixonadamente e saiu. Maravilhada ela entrou na casa a tempo de ouvir Becky dizer:
Clara, tia Maude est horrvel! O que  que o dr. Mueller diz?
No muita coisa - respondeu a governanta. - O corao dela est
ruim, mas ele disse que  para deix-la  vontade.
- Acho que  a nica coisa que podemos fazer - Becky admitiu. Ela vai sair para almoar com a sra. Strathmore. Pode fazer isso?
- Ela pode fazer tudo que tiver vontade - disse Clara, resoluta.
Maude voltou do almoo e foi para o quarto, descansar. Midge estava esperando ouvir o rudo de um carro l fora e quando isso aconteceu, s quatro e meia no foi
Brian quem entrou na sala e sim Jerry.
Ela ficou plida de susto. Ento viu os olhos alegres dele ao olhar para Becky, que correu para abra-lo. Midge soube ento que a visita nada tinha a ver com Brian.
Os dois ficaram tagarelando e Midge percebeu, aliviada, que Lucille no tinha motivo para se preocupar com Becky. Ela e Jerry eram amigos, apenas isso.
Brian chegou logo depois que Jerry saiu, e Midge o examinou da cabea aos ps. Ele riu e perguntou:
- Passei na inspeo?
- Sim. Como foi o seu dia?
- Como os outros - disse, e Midge percebeu que ele no estava disposto a falar no assunto.
As seis horas, quando se reuniram a Maude na sala de estar, a velha senhora estava resplandecente num vestido de cetim.
Maude estava deliciada por ter tanta companhia; ela literalmente brilhava enquanto lembrava casos da infncia dos sobrinhos, relatando-os com muito humor. Logo depois
das dez disse que ia se retirar e que aquele fora um dos melhores dias de sua vida. Ento abraou e beijou cada um deles com muito afeto.
Foi a ltima vez que a viram. Antes de ir para os aposentos que dividia corn tom em cima da garagem, Clara, por uma razo que nunca conseguiu explicar, foi ver se
estava tudo bem com Maude e encontrou a
a senhora ainda com o vestido de cetim, sentada em sua poltrona
ereta... mas dessa vez o sono em que cara era o sono da eternidade.
175

CAPTULO XIX

Jerry foi o primeiro a chegar. Em seguida o ar. Mueller e vrias outras pessoas, velhos amigos da
famlia.
Logo depois da meia-noite Becky, Brian e Midge estavam sentados  mesa da cozinha enquanto Clara, com os olhos vermelhos de tanto chorar, insistia em lhes fazer
um caf.
- No devemos ficar to tristes - disse Becky. - Ela no iria gostar disso. Mas no posso deixar de me culpar. Esta manh ela ficou to emocionada ao me ver que
at prendeu a respirao por um momento. Vi que os lbios dela estavam roxos...
E olhou para Brian de modo suplicante, como que procurando apoio e segurana.
- Beck, desculpe-me, eu no estava prestando ateno. O que foi que voc disse?
Midge se viu dizendo:
- Ela est se culpando pela morte de Maude, Brian - e viu uma estranha expresso nos olhos de Becky.
- Voc nada teve a ver com isso, Bec - consolou-a Brian. - Falei  com o dr. Mueller: ele disse que havia examinado tia Maude logo aps a morte de tio Horace
e que no acreditava que ela fosse viver tanto assim, Estou satisfeito apenas por ela ter tido a chance de v-la mais uma vez.
- Isso  verdade - concordou Clara. - Ela me contou, esta tarde, que foi a melhor coisa que j lhe aconteceu. Trs pessoas jovens na casa. Ela amava todos vocs.
Jantaram em silncio, um pouco surpresos por descobrir que, apesar de tudo, ainda conseguiam comer.
176
vou telefonar para Tim - disse Becky.
- Por que no usa o telefone da biblioteca? - perguntou Brian.
 o que farei.
Clara pediu licena para ir ver tom, e Midge se viu a ss com Brian. Eu estava pretendendo fazer algo por Maude - disse ela. - Mas agora  tarde demais.
- O que  que voc ia fazer?
- amos redecorar a casa. Primeiro mandaramos pintar as paredes externas de branco e depois mudaramos as cores daqui de dentro, para deixar mais aconchegante.
Sabe, era por isso que ela gostava de ikebana... porque  algo simples e belo.
Brian a estava observando atentamente.
- Para algum to jovem assim voc parece ter uma capacidade incomum de entender as necessidades e as emoes das outras pessoas.
Midge riu, um pouco sem jeito.
- At parece que voc  um velho! No entanto, deve ter a mesma idade que eu: vinte e seis anos.
Ele murmurou, pensativo:
- Vinte e seis anos... s vezes me sinto com cento e vinte seis. Ento, outras vezes, quando estou com voc...
O corao dela comeou a bater mais forte.
- Continue...
Mas ele sacudiu a cabea.
- Esta no  a hora certa de falarmos sobre isso. Oua, voc deve estar exausta. Por que no vai se deitar? Conversei com Andrew Summers e ele me contou quais eram
os desejos de Maude. Ela desejava ser cremada, e  isso que ser feito.
Algum bateu  porta da cozinha e Midge ficou tensa, mas Brian disse:
- Deve ser Jerry. Ele prometeu voltar depois do servio e ia ver se conseguia fazer com que Lucille tambm viesse.
Lucille viera. com os olhos sonolentos, ela foi diretamente at Brian e
o abraou.
Sinto muito, querido.
Becky acabava de entrar na cozinha e, ao ver Lucille, comentou: Jerry sempre foi como um irmo para mim. O que significa que
finalmente tenho uma irm!
177
Midge sorriu, satisfeita, ao ver que as duas podiam se dar bem, e sugeriu:
- Que tal uma bebida? vou buscar.
Enquanto conversavam, tomando conhaque, Brian parecia distante. Jerry notou e perguntou:
- O que h com voc, companheiro?
- No tenho certeza. Jerry olhou para o relgio.
- Faltam onze horas para o prazo expirar.
- Sei disso, o que me faz lembrar algo. Andrew Summers telefonou ontem  tarde e insistiu para que Becky v  reunio. Est marcada para hoje ao meio-dia.
- A revelao final? - perguntou Becky com amargura.
- Sim, a revelao final. Mas acho que no h necessidade de exp-la a tamanho perigo. Em outras palavras, no quero que voc v.
Ento ele contou que estava preocupado com algo que acontecera: vira duas pessoas no estacionamento, perto da janela. Uma estava de frente para ele, que por isso
pde ler-lhe os lbios. Assim ficou sabendo que se tivesse que acontecer alguma coisa, aconteceria durante a reunio. Talvez uma bomba.
- Voc acredita que algum coloque uma bomba no jornal? perguntou Midge.
Brian a fitou, srio.
- H maneira melhor de se livrar de uma poro de gente ao mesmo tempo?
- E quanto a Andrew Summers?  ele quem quer que Becky esteja . amanh. Este homem lucraria alguma coisa?
- Ele tem um ordenado muito bom. No teria motivo algum para praticar um atentado - Brian suspirou. - Fico imaginando quem seria to vido por dinheiro a ponto de
matar.
- A ideia da bomba faz sentido - admitiu Jerry. - Vamos interditar o prdio.
Brian discordou.
- No.  melhor esperarmos para ver quem tentar fazer o qu. Alm disso, o dio e a vingana podem ser motivos to bons quanto o dinheiro e o poder.
178
Temos que decidir quando vamos interditar aquele prdio, Brian.
De outra maneira o risco ser muito grande.
- Concordo, s que gostaria de armar uma armadilha.
Olhe - Jerry continuou -, no sou nenhum heri e no gosto de
bombas. Temos gente especializada nisso, e o mais sensato seria cham-los agora. Deixe que .eles encontrem essa maldita coisa, se  que existe, e acabem com tudo.
- Eu tambm no sou heri - disse Brian. -  por isso que no quero ficar imaginando o que vai me acontecer, quando e onde. De qualquer maneira, no creio que a
bomba j esteja no prdio. Quem for coloc-la l, provavelmente vai esperar at a madrugada.
- O que voc sugere?
- Que pea aos seus rapazes para irem at o prdio mais ou menos s nove da manh. Vamos nos encontrar no meu escritrio:  l o local da ao. A bomba no dever
estar muito longe. Outra coisa, Jerry: no deixe que os seus homens cheguem uniformizados e com todo aquele aparato que costumam carregar.
- Ento como espera que encontrem uma bomba? Pelo faro?
- No. Disfarce-os.
- Alguma sugesto?
- Eu tenho uma - disse Midge. - Vista-os como pintores. Seria lgico fazer uma pintura num sbado de manh, quando no h muita gente trabalhando, e de qualquer
maneira o saguo est precisando de uma boa demo de tinta. Voc pode esconder todos os equipamentos em latas de tinta vazias, cestos e escadas...
179

CAPTULO XX

- Eu no ficarei aqui. Simplesmente no ficarei! - Midge estava inflexvel.
Brian, de lbios cerrados, disse:
- No existe razo alguma para voc ir a essa maldita reunio.
- Ento eu no tenho nada a ver com isso, no ?
- Eu no disse isso, Midge. Ser que preciso explicar tudo de novo? Voc sabe do que estamos tratando. Qualquer coisa que eu lhe dissesse seria pura repetio.
- Seria? - ela perguntou, os olhos brilhando de raiva. - Brian, como  que pode pensar que vou conseguir ficar aqui enquanto voc e Becky estaro no Valley Voice...
- Clara e tom lhe faro companhia.
- Que diabo! No  companhia que eu quero!  ficar junto de voc!
E foi at a janela olhar o tempo sombrio, cinzento, que combinava com seu estado de esprito. Quase no dormira aquela noite, triste por causa de Maude e preocupada
com Brian, que ficara fechado em sua torre solitria.
Parecia-lhe que o ajuste de contas entre eles chegava sempre na hora errada. Brian a estava deixando de lado naquele momento crucial, como se ela no tivesse interesse
algum no que iria acontecer.
Alm disso, j ficara provado que a teoria da bomba no era nenhuma fantasia. Precisamente s nove horas, de acordo com o relato de Jerry, um caminho estacionou
junto ao prdio do jornal. Os policiais, vestidos de pintores, tinham descarregado escadas e latas, pincis e baldes, levando tudo para dentro. Comearam a trabalhar
e no levaram muito tempo para
180
encontrar a bomba: fora colocada na prateleira de um armrio, bem atrs da escrivaninha de Brian.
- Um trabalho de amador, mas com fora suficiente para explodir a sala toda - o funcionrio encarregado pela turma de demolio dissera com muita simplicidade.
A bomba fora programada para explodir ao meio-dia em ponto.
Midge estremeceu ao lembrar-se disso. Ouviu os passos de Becky na
escada.
- Est pronto, Brian?
- Sim, estou.
Becky parou  porta, olhando para trs.
- Voc no vem conosco? Midge? Era tudo que ela queria ouvir.
- Sim, eu vou - declarou, o queixo erguido, no rosto um ar desafiador enquanto olhava para Brian.
Ele parecia indiferente, mas seus olhos denunciavam raiva.
- Podemos usar o seu carro, Midge? - perguntou ele secamente. Eu no quero incomodar tom.
- No precisa me consultar. O carro  seu. Voc o comprou.
Ele lhe lanou um olhar furioso enquanto se aproximava do veculo e o abria. Becky, no percebendo nada, sugeriu:
- V na frente, Midge.
- No. V voc.
E se acomodou no banco traseiro. Subitamente, porm, sentiu-se deslocada. Aquele mundo no era
dela. Apesar do episdio na torre, ela sempre estivera  margem daquele
mundo e assim continuaria a ser. Precisava se lembrar sempre disso.
Fizeram o percurso em silncio, e somente quando estavam entrando no estacionamento foi que Becky olhou para o relgio e disse, a voz muito
baixa:
- Faltam quinze minutos para o meio-dia.
Brian, Midge tinha certeza, no ouvira isso; de qualquer maneira, ele parou diante da entrada principal, instruindo:
- Vocs duas descem aqui. Eu vou estacionar o carro.
Midge franziu a testa ao ver que os homens ainda estavam trabalhando. Afinal de contas, a bomba j fora encontrada. Por que no tinham ido embora? Questo de segurana?
181
Uma mesa de reunio fora colocada no escritrio de Brian. Wilson Strathmore e Fritz Handel j se encontravam l, e pareceram deliciados ao ver Becky.
Andr Summers entrou quase que imediatamente, e Wilson Strathmore o apresentou a Midge.
Enquanto se sentava  mesa com os outros, ela se viu olhando para o relgio da parede, que no momento indicava cinco para meio-dia. Ento ouviu passos e Abe Weissman
apareceu  porta, enxugando o rosto redondo e suado com um leno colorido.
- Vocs no acreditariam! - disse ele. - Est havendo um desfile no outro lado de Coxsackie e quase no consegui passar!
- Est tudo bem, Abe - disse Strathmore. - Ainda esto faltando duas pessoas: Clayton e Brian - ele se voltou para Becky. - No foi Brian quem trouxe vocs?
- Sim - disse Becky, olhando ansiosamente para Midge, pois Brian j devia ter entrado.
Jerry Mueller apareceu  porta e disse:
- Clayton est a caminho. Um carro da polcia foi busc-lo, pois o dele no quis pegar - olhou para a mesa e perguntou: - Onde est Brian?
- L fora - disse Becky. - Foi estacionar o carro...
No saguo, um relgio comeou a badalar e Midge, tensa, contava cada batida. Uma... duas... trs... quatro... cinco... seis... sete.. oito... nove... dez... onze...
doze... Quando o ltimo toque soou, deixando um eco triste no ar, ela estremeceu.
Jerry Mueller desaparecera. Agora era Trent Clayton quem aparecia  porta, mas um Trent Clayton muito diferente do que ela se acostumara a ver. O rosto dele estava
desfigurado enquanto tomava lugar  mesa.
- Onde est Vandervelt? - ele perguntou de forma insegura mas, antes que algum pudesse lhe responder, algo chamou a ateno de todos.
Midge fitou, incrdula, a figura de uma mulher parada  porta. Uma mulher que apontava um revlver em sua direo.
- Est acabado - disse Ellen Brent, a voz trmula, mas a mo surpreendentemente firme. - Mas, se eu no posso ter tudo o que o dinheiro pode comprar, voc no vai
ter Trent!
Midge percebeu que Ellen estava mesmo falando com ela e comeou a se levantar, mas a moa gritou:
182
- Fique onde est! Um movimento, um s movimento, e eu atirarei. No estou brincando. Sou to boa com armas quanto com carros.
No fazia sentido. No fazia sentido de maneira alguma! Midge estava paralisada. Ento viu Brian no corredor, parando atrs de Ellen; era incrvel como ele podia
se mover to silenciosamente. E com tamanha rapidez: segurou Ellen e virou-a em sua direo. O dedo dela, puxou o gatilho. Midge ouviu um tiro que pareceu ecoar
por todo o prdio...
Ento a escurido tomou conta dela, e o escuro nunca fora to bem-vindo.
- Lucille me disse que devamos ter um sof no toalete feminino, e estava certa.
- Voc no devia estar no toalete feminino - observou Becky. Olhe, Midge est voltando a si!
Os olhos cinzentos, os maravilhosos olhos cinzentos, a fitavam:
- Voc est bem mesmo, Midge?
- No sei - ela respondeu febrilmente. Lutava para se sentar, a cabea ainda zonza. - Acho que sim... Sim,  claro que estou bem.-
- Brian - interrompeu Becky -, todos esto esperando l no escritrio. Voc tem que lhes dizer alguma coisa.
- Naturalmente. Voc fica aqui com Midge?
- No - disse Midge. - Ns iremos com voc.
Ela se levantou, trmula, e os acompanhou at o escritrio. Examinando a mesa de reunio, Brian comeou a falar:
- Estou satisfeito por ter trazido o conhaque, Wilson. Que tal servir mais trs doses?
Midge deixou que a bebida lhe descesse pela garganta, observando Wilson Strathmore, Abe Weissman, Fritz Handel e... sim, Trent Clayton.
Todos haviam sido tocados pelo horror, mas a tenso parecia ter desaparecido. At mesmo Trent parecia mais calmo, embora demonstrasse muito cansao. Comeou a falar:
- Brian... - mas Brian fez um sinal para que deixasse aquilo de lado.
- Mais tarde. Agora quero dizer a todos quanto apreciei o apoio que me deram durante estes dois anos. Sei que tambm no gostavam disso, mas ficaram, lutaram. Nunca
esquecerei isso. Eu sabia, vocs sabiam, todos ns sabamos que havia muita tenso no ar. Mas quero acrescentar
183
que, pessoalmente, nunca desconfiei de nenhum de vocs. E agora minha f, minha confiana foram recompensadas - fez uma pausa e pegou o copo. - Espero que o dia
de hoje marque uma nova fase no Valley Voice. Para mim e para todos vocs. Um brinde a ns!
Ergueu o copo e Midge se viu cega pelas lgrimas, pois estava muito orgulhosa dele... porque o amava demais.
Todos foram embora. Agora, no escritrio, Brian, Becky, Midge e Trent conversavam.
- Eu no o estou censurando, Clayton - disse Brian. - No foi culpa sua ela ter-se apaixonado.
- No sei no - Trent respondeu lentamente. - Eu a encorajei, pelo menos antes de Midge vir para c. Lembra-se, Midge, de que na quinta-feira eu a convidei para-tomar
um drinque? Eu lhe disse que queria contar algo...
- Sim, claro que me lembro.
- Pois queria falar sobre Ellen. Ela andou me dizendo umas coisas estranhas e eu estava com medo de que, por cimes, pudesse fazer alguma tolice.
- Creio que ela j havia feito - disse Midge. - Pelo menos acho que foi Ellen quem deixou um bilhete no meu quarto, no hotel, logo que cheguei. Dizia para eu ir
embora.
- Tenho certeza de que foi ela - Brian concordou. - Depois que a vi conversando com voc ontem, Trent, pensei muito.
- Quando foi isso?
- Vocs estavam perto da minha janela. Ellen estava de frente para mim, e consegui ler nos lbios dela grande parte do que dizia. Parece-me que o estava forando
a ir a algum lugar.
- Sim,  verdade. Queria que eu fosse a Nova York; tentou me convencer de que era uma questo de vida ou morte. Pensei que se tratasse da vida dela, no da minha.
Naturalmente eu lhe disse que esta era uma reunio  qual no poderia faltar em hiptese alguma...
- Certo - disse Brian. - Ento, quando veio para c colocar bomba, conseguiu parar na sua casa e mexer no seu carro para que ele
n funcionasse.
- Ellen deve ser um gnio em mecnica - observou Trent, desolado.
- E  - concordou Brian. - Depois do meu acidente, percebi que a pessoa envolvida em tudo isso tinha que saber muito sobre
automveis.
184
Ela sabia que voc costumava correr e que Handel  um timo mecnico, no achei que no teriam tido muita dificuldade em pegar o meu carro e sabot-lo. Nunca pensei
em Ellen. Mas, depois que vi a conversa de vocs ontem, fui verificar a ficha pessoal dela. .Ellen tem vrios irmos, todos metidos em corridas de motos, carros,
coisas desse tipo, e sempre Os acompanha. Ganhou um prmio em qumica quando estava na universidade. Ellen trabalha muito bem com as mos. Quando percebi que havia
uma bomba envolvida, todas as coisas se ligaram. Ellen tinha uma motivao: estava fazendo isso por voc, Trent.
Trentt o fitou, horrorizado.
- O que  que voc imagina?
- Se ela tivesse explodido o local, somente voc receberia a herana. E estou certo de que ela achava que voc lhe seria eternamente grato por t-lo transformado
num milionrio. ,
- Meu Deus! - O rosto de Trent estava lvido.
- Ela deve ter vivido um inferno quando a exploso no ocorreu Brian prosseguiu. - Ento o viu chegando e percebeu que a bomba havia sido encontrada, que o seu sonho
tinha acabado. Mas ainda tinha um trunfo nas mos: podia feri-lo, e a mim, por causa de Midge.
- Voc deduziu isso?
- Sim, embora eu no soubesse que Ellen tinha um revlver. Oua, no seja muito duro com ela. Receber um bom tratamento psiquitrico; pode ser que se recupere -
fez uma pausa e acrescentou: - Acho que poderamos beber alguma coisa. Quer ir at em casa conosco?
Trent sacudiu a cabea.
- Obrigado, mas no tenho vontade. Acho que preciso ficar sozinho um pouco.
Eles se reuniram ao redor da lareira, devorando os sanduches que Clara preparara.
- Eu me lembro vagamente de Ellen - comentou Becky. - Acho que, alm de outros talentos, tambm era atriz. Deve ter sido ela quem me telefonou - voltou-se para Midge.
- E imitou a sua voz.
- No posso deixar de sentir pena dela! - Midge suspirou.
- Lucille nos convidou para um lanche amanh, aps os funerais de tia Maude - disse Becky.
- Acho que no aceitarei o convite. Vocs duas podem ir.
- Muito obrigada - disse Midge secamente -, mas j tenho outros
185
planos. Entretanto, acho que voc deve ir, Becky. Sei que Lucille
gostaria de conhec-la melhor. Becky franziu a testa.
- O que  que h com vocs dois? Se no fosse pela maneira que sentimos em relao  tia Maude, deveramos ter sado para
comemorar. Est tudo acabado! No percebe isso,
Brian?
- Percebo muito bem - ele respondeu secamente, levantando-se. Em seguida disse: - Desculpem-me, por favor - e saiu da sala.
Becky, perplexa, observou:
- Nunca o vi desse jeito. Talvez seja consequncia dos muitos meses de tenso.
- Talvez - Midge admitiu.
- Talvez seja voc.
- Becky, tire isso da cabea!
- No precisa ficar brava. Oua, Midge, por que no volta para San Francisco comigo?
Midge sacudiu a cabea.
- No. Fiz um contrato de trs meses com o Valley Voice e pretendo cumpri-lo. vou voltar para o hotel.
- Bem, a ideia de ficar sozinha com Brian parece apavor-la. E acho que ele est reagindo da mesma maneira.
- No sei como ele est reagindo a respeito de coisa alguma - disse Midge, mal-humorada.
O que, em parte, era verdade. Brian Vandervelt lhe parecia um enigma. Mais do que nunca.
Grace De Witt telefonou no meio da tarde e foi Midge quem atendeu. Chamou Brian e se afastou rapidamente; no queria ouvir nada.
Um pouco mais tarde ele foi avis-las de que iria jantar fora. com Grace.
- Grace De Witt? - perguntou Becky, incrdula. - Voc est saindo com ela de novo?
- Ela quer me pedir alguns conselhos. S isso.
- A propsito - disse Becky secamente -, ser que poder me levar ao aeroporto amanh  tarde?
- Certamente - ele respondeu com um sorriso um pouco forado. Talvez tom possa nos levar. Assim no terei que pedir emprestado o carro de Midge.
186
- Como j lhe disse... - ela comeou a falar, mas ele fez um sinal para que no continuasse.
- No vamos discutir agora. De qualquer maneira, no terei que pedi-lo emprestado esta noite. Grace vem me buscar.
Muita gente telefonou para apresentar as condolncias por causa da morte de Maude. Becky conhecia quase todos, e ficou a maior parte do tempo conversando ao telefone,
enquanto Midge tentava em vo ler um
pouco.
Resolveu dormir e teve um sono agitado, acordando num dia muito cinzento. Depois dos funerais, decidiu ir com Becky tomar lanche com os Mueller. No tinha motivo
algum para voltar para casa. Nem mesmo tinha certeza de que Brian estaria l.
Ficaram bastante tempo com Jerry e Lucille; assim, a partida de Becky se
tornou um pouco agitada. Finalmente, quando tudo estava pronto, Becky perguntou:
- Voc no vai ao aeroporto?
- No, querida. Acho que voc e Brian devem ficar algum tempo sozinhos. Creio que devem ter muito que conversar.
- Oua, voc sabe que no precisa ficar aqui. Por que no vem
comigo?
- vou tentar passar o Natal em San Francisco. Que tal?
- Assim  que se fala! - Becky abraou a amiga e, enquanto subia no carro,
seus olhos azuis brilharam: - Veja se leva meu irmo junto!
E antes que Midge pudesse responder, fechou a porta, sorrindo e acenando.
- Detesto v-la indo embora - Clara suspirou.
- De agora em diante ela voltar sempre para nos visitar - Midge prometeu. - Estou certa disso.
E, enquanto subia lentamente a escada, pensou que Becky voltaria com Tim e as crianas. Mas ento Grace j teria obtido o divrcio e se casado com Brian...
A sala de estar parecia mais sombria do que nunca, e Midge desejou de novo poder ter tido tempo de alegrar a casa e a vinda de Maude Vandervelt.
Pensando na velha senhora, ficou satisfeita pelo fato de ela no ter tido
187

conhecimento do que se passava. No fim tudo acabara bem para Briaera isso que teria lhe importado; afinal, ele fora a alegria de Mai fazendo-a lembrar-se sempre
do pai dele, seu nico amor.
Exausta, esgotada pelo fim de semana e por tantas emoes, Mi sentou-se no sof de veludo marrom de Horace Vandervelt e comeo chorar. Por Maude e por si prpria.
188

CAPTULO XXI

Midge ouviu o som de uma freada e uma porta de carro batendo. Foi at a janela e viu Brian, que, em vez de se dirigir para a casa, comeou a dar a volta nela.
Midge j telefonara  sra. Prescott; seu quarto no hotel encontrava-se  disposio. Suas malas estavam prontas e a nica coisa que faltava era pedir que tom a ajudasse
com a bagagem.
Teria tambm que devolver o carro e imaginou como Brian ficaria furioso com isso. Entretanto, no tinha inteno alguma de ficar com o veculo.
No dia seguinte, na hora do almoo, trataria de alugar um carro. De qualquer forma teria que ir ao jornal, o que no seria fcil. Sabia que acabaria vendo Brian
e resolveu que o trataria friamente. Afinal, tambm tinha seu orgulho.
Orgulho. Ele estava ferido, no havia dvida, e ela no podia entender por qu. Sentia-se frustrada, tambm. Brian a evitara de todas as formas possveis naquele
fim de semana.
Midge lembrou-se da conversa que tiveram sobre o que o dinheiro podia e no podia comprar, e lhe pareceu que, depois da herana, o dinheiro se transformara numa
barreira entre eles. Brian agora era um homem muito rico e as pessoas ricas sempre desconfiavam dos outros, s
vezes sem razo alguma. Ser que Brian passara a
desconfiar dela? Essa ideia era insuportvel.
O telefone tocou. Ela o fitou, surpresa, e atendeu quase timidamente. - Midge,  voc? - ela ouviu a voz de Becky. - Oua, j esto
chamando o meu voo. No tenho muito tempo, mas pelo amor de Deus fale com ele, est bem?
- Becky, sobre o que est falando? .
- Sobre Brian. Ele acha que no  suficientemente bom para voc. Tente colocar um pouco de juzo naquela cabea, est bem? Midge, tenho que me apressar!
"Ele acha que no  suficientemente bom para voc."
Brian? Inacreditvel. Afinal, ele no era a pessoa mais arrogante e independente que j havia conhecido?
Ento lembrou-se de algo que o dr. Mueller dissera, sobre Brian achar que era um fardo para os outros.
Um fardo.
Midge atravessou o gramado em direo ao mirante, e logo o viu sentado na escada, olhando para o rio. Aproximou-se e disse suavemente:
- Brian...
Por um momento pensou que ele no ouvira. Mas logo o viu levantar a cabea, os olhos cinzentos espelhando o cu nublado, e engoliu em seco.
- Estou de partida - disse. - Queria apenas me despedir de voc. Viu-o apertar as mos, mas o rosto dele permaneceu impassvel.
- J?
- Sim.
Ele indicou o lugar ao lado.
- Sente-se - convidou. - No est com tanta pressa assim, est? Midge no respondeu, mas sentou-se.
Brian encostou a cabea, num pilar, de tal modo que no podia olhar diretamente para ela. Disse ento:
- Voc se importa se eu perguntar para onde vai? Ou devo adivinhar? Por acaso resolveu ir para Nova York?
- No. vou para o hotel.
- Est querendo dizer que pretende ficar em Coxsackie?
- Tenho um contrato de trs meses com o seu jornal, lembra-se?
- Uma promessa verbal - ele corrigiu. - Quer dizer que pretende trabalhar no Valley Voice at que estes trs meses terminem?
- Voc faz alguma objeo?
- No. Mas no posso imaginar por que quer continuar no jornal.
190
- Costumo cumprir a minha palavra. E voc? Bem, acho que posso imaginar o que pretende fazer. Esta casa  muito grande para uma s
pessoa.
- Est sugerindo que eu pea a algum que a compartilhe comigo?
- No. No estou disposta a sugerir nada, alis.
- Ainda no tomei uma deciso sobre o que vou fazer, Midge. Ainda no tive tempo. Estou pensando em transformar este lugar num centro
educativo e recreativo para crianas
surdas.
Emocionada, ela exclamou:
- Isso  maravilhoso! Mas, neste caso, para onde ir?
- No sei. Suponho que poderia continuar a viver na torre. Alm disso, h um grande terreno dos Vandervelt com vista para o rio, que eu
sempre amei. Poderia construir
uma casa l. Acho que o principal  que ressolvi ficar em Coxsackie, tentar alguma coisa construtiva com o Valley 'oice s com algumas outras empresas de tio Horace.
- Grace no tem nada a dzer sobre isso? - Midge se arriscou a terguntar. - Quer dizer, sobre onde voc vai viver?
- Grace decidiu tentar uma reconciliao com o marido, como a aconselhei a fazer. Foi por isso que jantamos juntos ontem  noite. Comearam mal, em parte devido
ao fato de ele achar que Grace .ainda me amava - havia um tom estranho na voz de Brian, e ela no se atreveu a olh-lo. Ento ouviu-o perguntar: - O que vai fazer...
depois de dezembro?
- Ainda no pensei nisso.
- No est pensando em fazer carreira no Valley Voice, est?
- No. Acho que voc sabe que eu no poderia ficar a seu lado todos os dias por tanto tempo...
Houve um silncio profundo. Ao ver nos olhos de Brian a dor que ele no conseguia disfarar, Midge compreendeu que a interpretara de maneira totalmente errada.
Suspirou, desesperada.
- Brian, no tire concluses erradas! Ser que no passa pela cabea que eu no conseguiria v-lo todos os dias porque... porque eu te amo ianto que seria difcil
me controlar?
- Quer repetir isso?
191
- No - sua voz soou firme. - Acho que voc me ouviu muito bem.
- Eu ouvi, sim. S que gostaria de ouvir de novo - e sorriu.
- Sei muito bem o que voc pensa a meu respeito. Acha que sou caadora de dotes.
- O qu? Que loucura  essa?
- Uma vez voc me disse que podia comprar uma esposa...
- Pelo amor de Deus, Midge!
- No fuja do assunto - disse ela, sabendo que no poderia mais voltar atrs. - Voc  extremamente rico, sadio, jovem e atraente. Deve saber que  um timo partido,
Brian Vandervelt. Na verdade, a nica coisa que poderia se dizer contra voc  que tem um maldito complexo por causa da surdez.
- Pare com isso, Midge!
- No. Agora vou lhe dizer tudo. Est com essa ideia louca de que  um peso para os outros e isso vai deix-lo paranico. Acha que a nica coisa que uma mulher poderia
querer de voc  o seu dinheiro!
- No sabia que voc podia ser to absurda! Se disser uma s tolice a mais, vou lhe dar umas boas palmadas!
- Depois que eu tiver acabado, no me importo que me d ou no umas palmadas. Sabe, alm do problema do dinheiro, h a questo da piedade. Voc sempre expressou
tal horror a que os outros sentissem pena que fui procurar o significado desta palavra do dicionrio. E sabe o que encontrei? Piedade  um sentimento pelo sofrimento
ou pela desgraa de algum. H alguma coisa errada nisso? H alguma coisa errada no fato de eu lamentar por voc ter perdido a audio e sofrer com isso?
A voz dela sumiu, e o silncio que pairou entre eles parecia palpvel.
- Bem,  melhor eu ir andando.
- Voc acha?
Midge sabia que suas faces estavam ardentes e tentou controlar a voz.
- Sim, acho.
Sentindo seus braos e pernas tremerem, ela se levantou. No mesmo instante ele estava em p, a seu lado, abraando-a.
- Acho que conheo outro jeito de lhe colocar um pouco de bom senso na cabea - ele avisou. Ento a beijou com um ardor que no
192
deixava dvidas quanto aos sentimentos que nutria. - Sua bobinha...
Acha que eu seria tolo de deix-la ir embora? Ontem, quando vi Ellen apontando-lhe aquela arma,
soube que a minha vida no valeria nada se algo lhe tivesse acontecido. Mas ao mesmo tempo eu imaginava se conseguiria encontrar coragem para dizer todas as coisas
que desejava. Pode entender isso?
Voc podia ao menos ter contado que me queria. - Que eu te queria! Meu Deus, eu te quero desde o primeiro minuto que a vi, mesmo antes de saber quem era! Voc me
olhou com estes enormes olhos castanhos e imediatamente mergulhei neles. Assim como quero mergulhar na sua doura. Para sempre. - Oh, Brian...
- Eu tinha cimes de Trent e do homem que foi seu noivo. Sei que em ambos os casos os meus cimes eram infundados. Sei que voc havia rompido com o seu passado.
A minha cautela, se quiser chamar assim, era por minha causa. Houve uma vez, entretanto, que me esqueci dessa Kautela. de tudo. E te amei. Compreendi ento que tipo
de pessoa era voc, e que tipo de compromisso tinha assumido comigo aquele dia. Depois estive prximo de me odiar. Parecia que eu no tinha nenhum direito de amar
voc - ele fez uma pausa, a voz entrecortada. - Sabe, voc est certa sobre algumas coisas que disse, mas no sobre o dinheiro. Meu Deus, no sobre o dinheiro! Como
foi capaz de pensar que eu poderia consider-la uma caadora de dotes? A nica coisa da qual tinha certeza  que os seus sentimentos no mudariam se eu no tivesse
um centavo!
Ela se aninhou ainda mais nos braos dele e murmurou: - Isso  verdade...
- Ainda existe uma coisa: acho que sei o que disse mas, para ter a certeza, eu teria que perguntar "o qu". Acho que no posso deixar de pensar no dia em que voc
se cansar de me ouvir dizendo "o qu". Ento...
Ela sacudiu a cabea.
- Nunca - disse firmemente. - Prefiro ouvi-lo perguntar "o qu" vinte e quatro horas por dia a ficar sem voc um s minuto! Brian deu-lhe outro beijo, um beijo to
intenso que uma chama de
193
desejo comeou a arder dentro de Midge. Ela ento correspondeu com ardor que no deixava dvidas sobre suas emoes. Ele riu.
- Voc disse que iria para o hotel, no disse?
- Sim, por qu?
-  melhor telefonarmos e cancelar. Por esta noite acho que pode deixar que tom e Clara nos faam companhia... desde que eles
garantam permanecer em seus prprios quartos,
bem longe da casa.
Midge percebeu, cheia de felicidade, que agora nada podia separ-los. Nada. Ningum. Nunca.
194

Fim
